Nanawatai

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Existem poucos filmes sobre as participações "ocidentais" no Afeganistão, e as histórias nunca deixaram as controvérsias de lado. Quem não lembra do antigo "blockbuster" Rambo III, "dedicado ao galante povo afegão" (sic) contra os temíveis russos? Em 2007, um filme russo, chamado Nono Pelotão, tentava relativamente redimir os soldados russos em meio a uma guerra perdida e sem sentido. Mostrando o treinamento de uma equipe (mais ou menos como em Nascido para Matar), o filme se encerra nas primeiras operações efetivas, onde o treinamento cede lugar à guerra real e exige a participação dos companheiros.

 
Moral: a guerra é sem sentido; mas não a participação dos soldados, com tantas vidas e valores em jogo. Como se não fosse questão os propósitos de uma guerra, mas simplesmente a participação.
 
Esse discurso justificador da guerra, onde se busca um sentido para a participação do soldado mas não para a própria guerra, não é exclusividade russa. Basta para isso lembrar de Falcão Negro em Perigo, e a fala de um comando delta no fim do filme: ele não está lá pela guerra, mas pelos companheiros.
 
História igualzinha à de outro filme mais recente, sobre a invasão norte-americana do Iraque: em Estado de Guerra (2008), um sargento de esquadrão anti-bombas descobre, no meio do caos, não poder conviver com outra coisa senão a guerra. A guerra pela guerra: não uma conclusão fatalista, não a contradição das contradições, mas uma espécie de "heroísmo" carregado de fragilidades "humanas", nítido na narrativa do filme.
 
Curiosamente, um filme que se afasta relativamente dessas questões é The Beast (ou The Beast of War, 1988). Conta a história de uma equipe russa, perdida com um tanque T-62 no meio do deserto afegão. O filme começa com uma citação de campanhas mais antigas, por Rudyard Kipling:
When you’re wounded and left on Afghanistan’s plains
An’ the women come out to cut up what remains
Just roll to your rifle and blow out your brains
An’ go to your Gawd like a soldier.
Contando a invasão russa no Afeganistão, esse filme norte-americano mostra o absurdo da guerra. Como Rambo, está do lado dos afegãos. Mas o tom de crítica ao então já funesto regime soviético não deixa de lado críticas a todo tipo de guerra. E o papel das mulheres afegãs não é por acaso: ativas e participantes (contrariamente a narrativas posteriores, por exemplo as de A Caminho de Kandahar e Osama), elas encarnam algumas tradições pashtun como a da hospitalidade (nanawatai) e vingança (badal). A passagem de Kipling se insere aí: o apedrejamento, na tradição pashtun, sobreviveria ainda como uma espécie de justiça contra o opressor, enquanto o nanawatai seria um rito de hospitalidade extensivo até mesmo ao inimigo.

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Logo depois do 11/9, em pleno fervor sobre a invasão do Afeganistão, a indústria do entretenimento se movia no mesmo passo dos soldados. Uma Graphic Novel (história em quadrinhos) estampava na capa o corpo perfeito da Mulher-Maravilha (Wonder Woman, Spirit of Truth) chegando no Afeganistão para "libertar" refugiados utilizados como escudo humano. Diante do corpo quase divino, entretanto, a surpresa: tão logo chega, a heroína é apedrejada pelas próprias vítimas. "Diferenças culturais", constata. Mas qual o sentido de reações tão negativas diante do libertador?
 
A "Mulher Maravilha" aprende, no decorrer, sobre o significado da "humanidade". Um salvador não pode chegar dos céus arrebatando a tudo; deve ter um corpo e ações humanas, misturar-se com o povo. Se as cores de seu uniforme se identificam com certa perspectiva de humanidade, a HQ não põe na balança.
 
Mas dos anos 80 para cá, algo mudou. Os pashtuns deixaram de ser pessoas dedicadas a tradições islâmicas, algumas inclusive mostradas como nobres. Mudança entrevista no estatuto dos afegãos, das mulheres e das pedras.
 
***
 
Sobre a "evolução" dos Talibãs, vale ler os capítulos de Great War for Civilization a respeito. Uma citação, em especial, vinculada aqui.
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