Teoria e Prática em responsabilidade social

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do Malvados (clique para ampliar)

Um self made man, familiar ao ambiente corporativo, prestava entrevista para elucidar o "conceito" (não seria noção?) de "responsabilidade social". Ostentando a figura retórica do "homem prático" (não esses teóricos infames, perdidos em conjecturas e abstrações, sem resultados práticos na realidade), ele inicia comparando "responsabilidade social" das empresas com "filantropia".

Filantropia – segundo nosso self made man – se resume a uma benfeitoria localizada: a empresa pode sustentar uma posição de socialmente responsável quando, no fim das contas, faz pequenos benefícios, como uma doação, uma melhoria externa ou algo do gênero.

Já "responsabilidade social" seria algo mais amplo, englobando toda a empresa. Ou melhor, não apenas a empresa, mas o ambiente circundante, de uma forma não apenas episódica (isso é filantropia), mas arraigada na própria missão da organização. Uma empresa com responsabilidade social, diz nosso entrevistado, não faz apenas atos responsáveis, mas carrega a "responsabilidade" no seio de suas práticas cotidianas, do atendimento do cliente ao serviço, passando pelos produtos e projetos extra-corporativos. (Talvez o entrevistado não saiba que, antes do nascimento dos discursos corporativos e das "ciências" da administração, existiam muitas "gestões" (é como se chama hoje) de práticas filantrópicas, muitas vezes confundidas com o que ele mesmo chama de "responsabilidade social"; talvez ele também desconheça que tal universalismo da "responsabilidade social" talvez nasceu de outro, filantrópico, muito bem localizado. Mas isso é outro assunto! 😉)

O entrevistado admite – no costumeiro tom en passant quando se trata disso – que o fim de qualquer empresa é o lucro puro e simples, e não a filantropia ou a sociedade. Mas rapidamente complementa: tanto melhor se, junto ao fim da empresa, que é o lucro, somarmos em seus meios isso que chamamos de responsabilidade social. O resultado é bem prático e visível: fins lucrativos unidos a meios sociais beneficia todo mundo, não é mesmo?

Mas, no fim das contas, como saber se uma empresa é socialmente responsável? Como garantir a efetividade de tal responsabilidade, pergunta a repórter? 

Ora, diz nosso herói, a responsabilidade de uma empresa se mede por seus resultados. Sob que critérios? O próprio consumidor. Em tempos como esses, uma empresa sem responsabilidade social efetiva não sobrevive ao consumidor consciente. Ciente do que faz a empresa fabricante do produto que consome, o consumidor rapidamente trocará de empresa, quando souber de qualquer irregularidade, qualquer "irresponsabilidade".

Dado isso, a repórter não perguntou, por exemplo, a que se deve o sucesso dos produtos chineses, se o consumidor é consciente e sua consciência regulará naturalmente o mercado conforme as "responsabilidades". Mas isso não vem ao caso. O curioso, realmente curioso, é em primeiro lugar essa crença imediata de que os fins do lucro empresarial e seus meios "responsáveis" se casam como duas almas gêmeas, e em segundo lugar como o critério da "responsabilidade social" passa rapidamente da missão da empresa para  fora dela, na regulação do consumidor. Como se rapidamente o tema da empresa responsável do século XXI resvalasse naquele outro, do fim do século XVIII, do indivíduo livre cujas decisões aglomeradas criariam uma grande mão invisível, chamada agora de "consumo consciente".

Mas quê? Faço perguntas demais e abstraio muito; diante de tanta abstração, certamente deveria mudar de paradigma.

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2 comentários em “Teoria e Prática em responsabilidade social

  1. Pingback: Catatau via Rec6
  2. Meu amigo, estive às voltas com esse assunto durante um bom tempo da minha atividade docente. Era (e segue sendo) “o” tema, e facilmente associado a noções-metidas-a-conceitos (hehe) como “consumo consciente”, “consciência ecológica”, tudo pontuado por expressões como “quebra de paradigma”, “gestão de talentos”(?!), “gestão quântica”(?!?!) e blá blá blá em insuportáveis apresentações em Power Point. Estou tão feliz de não mais ter que orientar monografias com essas palavras, você não imagina o quanto!

    RE: Essa de “gestão quântica” é boa, hehehhe Algo muito visível, nas micro-partículas organizacionais, hehehe

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