“Unitaliban”

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Charge do Lute, reproduzida do informe do 300.
 
Após o caso da aluna humilhada por ir de minissaia à Uniban (e agora expulsa da faculdade), diversas mídias começaram o trocadilho: "Unitaliban", "Unitaleban" ou outras variações para o grupo afegão.

 
Com certeza os trocadilhos se referiam ao terrorismo, primitivismo e outras coisas mais, tão alardeadas. 
 
O mais curioso é que o trocadilho pode ter significados mais, digamos, profundos. Taliban, em pashtu, significa "estudante". Em A Grande Guerra pela Civilização [livro, preços], Robert Fisk escreve uma notável passagem sobre esse grupo, acertando no alvo e fugindo de todos os clichês:
(…) "O que você espera?", perguntou-me o jardineiro, perto das ruínas do antigo palácio de inverno em Jalalabad. "Os talebãs vieram dos campos de refugiados. Eles apenas estão nos dando o que tiveram". Isso clareou tudo: as novas leis do Afeganistão – tão anacrônicas e brutais para nós e os afegãos educados – eram menos uma tentativa de reviver a religião do que a continuação da vida dos vastos campos imundos nos quais tantos milhões de afegãos se amontoaram, nas fronteiras de seu país, durante a invasão soviética (…) [tradução livre]
Moral da história: os "estudantes" não se definem tanto assim por seu arcaísmo, mas sobretudo pela tentativa de universalizar o arcaísmo – certas práticas locais, em muitos aspectos alheias ao Islã, nascidas na imundície da vida refugiada. Não está em jogo tanto assim as crenças locais, particulares e "retrógradas" do secto (existem tantos outros mundo afora), mas sim a tentativa – violenta – de reduzir tudo o mais a essas particularidades (universalismo idiotizante curiosamente correlato a outros mais difundidos, mas isso é outro assunto – ou não).
 
Daí voltamos ao caso da etiqueta que corre por aí: "Unitaliban". A universidade escreveu um informe sobre a expulsão da aluna, com a passagem:
"a atitude provocativa da aluna resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar"
"Defesa do ambiente escolar": uma excêntrica forma de definir uma massa aos gritos de "Puta! Puta!", em meio a seguranças inertes. A faculdade mesma declarou que a aluna já foi "alertada" (sic) sobre o uso de roupas sensuais. Mas certamente a "reação coletiva" não se referiu aos "alertas".
 
Alguns dias atrás, em uma manifestação, alunos da faculdade foram à aula com nariz de palhaço. Em protesto não exatamente contra a aluna, mas a favor da "imagem" da faculdade, alguns alunos pretendiam
"limpar o nome da universidade, porque o diploma vai ficar manchado por esta história" (sic)
A "reação coletiva de defesa do ambiente escolar" convive, portanto, com o desejo de "limpar o nome da universidade". O recado é claro: o problema não é as ameaças de estupro e a humilhação pública (curiosa "reação de defesa" educativa), mas sim a aluna de minissaia.
 
Se uma aluna de minissaia incomoda tanto assim, como declaram agora as vozes da instituição, surpreende a inércia total dos seguranças, e também o fato da aluna ser apenas "alertada" – não foi advertida, suspensa, ou qualquer outra coisa. Se houve certo procedimento institucional – o "alerta" – anterior, se a aluna era conhecida por "extrapolar" (sic), enfim, se a instituição se incomoda tanto com tudo isso em nome do "bom senso" e coisas afins, salta aos olhos a pergunta: porque não se incomodou efetivamente antes?
 
O Brasil tem dessas coisas, isso é muito interessante: em primeiro lugar, o tema muito comum, aceito e cultuado da aluna gostosa que vai para a aula de minissaia. Elas não deixarão de usar minissaia por isso (e a única atitude estranha, nisso tudo, foi a  dos alunos da Uniban, o que resultou também na difusão do trocadilho "Unibambi"). Em segundo lugar, a nítida ausência de fiscalização em qualquer coisa, misturada com um efeito estereotipado de "eficiência", "rigor" e condenação sumária quando se está sob o olhar público.
 
Disso tudo, resulta a tentativa grosseira da instituição buscar assentimento geral na expulsão sumária da aluna; e da parte de alguns alunos, o esforço de não "manchar" o diploma, tentando convencer a todos que a faculdade é imediatamente boa enquanto se cobre com panos mornos a pergunta sobre o ocorrido.
 
O que esbarra também em outro tema, hoje muito comum: a insistência de alunos (especialmente de algumas faculdades particulares) em afirmar que por ser "minha", "minha faculdade deve ser necessariamente boa, e ai do meu currículo se afirmarem o contrário". Em outras palavras: até alguns anos atrás não era estranho um aluno criticar o lugar onde estuda; hoje, pelo contrário, qualquer crítica a uma instituição de ensino pode carregar suspeitas sobre sua credibilidade, como se todos constatassem no fundo não haver fiscalização das instituições e portanto a satisfação
de critérios mínimos e gerais de "ensino". Essas justificações indiretas e reiteradas sempre contêm algo mais do que dizem: "minha faculdade" tem "estrutura boa", "foi aceita pelo MEC", "tem laboratórios novos", e assim por diante (e quando se precisa "falar mal", a culpa é sempre individualizada – não raramente nos professores). São espécies de eufemismos (que instituição não deveria ter tudo isso?), mascarando a falta de contratação de professores titulados ou desrespeito a normas educacionais.
 
Obviamente a Uniban não é "Unitaliban" e nem precisa ser. É claro que não se pode lançar preconceitos sobre a faculdade ou seus alunos. Só não é agindo assim que alunos e instituição convencerão o contrário. 😉
 
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3 comentários sobre ““Unitaliban”

  1. Bravo!
    Gostei de sua análise sobre essa fato inacreditável. Quando vi o vídeo confeso que perdi alguns pouquinhos de esperança no futuro. Os senhores do arcaico estão por perto, ganham adeptos na classe média que parece trocar tudo pela ‘comodidade’ em se ter casa, carros e tals.

    Abraços
    Márcio, sempre passando por aqui.

    RE: Verdade, Marcio! O arcaico é algo insidioso, nos atravessa quando menos esperamos, e independente de nossa espera. De repente uma fagulha acende e…

  2. Em entrevista em 1978, quando perguntado sobre o futuro do socialismo no Brasil, Hélio Oiticica respondeu:
    “Socialismo no Brasil?
    Eu estou achando quase impossível,
    o Brasil é um país bem fascista…”

    RE: Perfeito!

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