O mundo de 2012

https://i1.wp.com/i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/2012-movie.jpg 

2012 apresenta um mundo apocalíptico e o fim da humanidade. Mas será que apresenta só isso?

Inclinado pelos efeitos visuais de um clipe vinculado pelo Inagaki, fui assistir 2012. Como já se comenta por aí, parece uma versão atualizada do Godzilla sem Godzilla (algo que talvez deixasse o filme mais divertido :D).

Mas para além de dizer que o filme é ruim, parece interessante ver o que passa por debaixo do tapete com tanto sucesso, nesses blockbusters. Um filme mais antigo do mesmo diretor, O Dia Depois de Amanhã, explorava elementos semelhantes (e até mais interessantes): e se o "mundo como conhecemos" (sic) de repente acabar, o que fazer?

No filme mais antigo, bastava perdoar as dívidas externas e invadir o México. Já em 2012, nem isso é possível. E agora? 

[spoilers] Em um mundo hipotético como o de 2012, o espectador engole, entre hipotéticas cenas realistas do apocalipse,  relações também hipotéticas, menos visíveis mas talvez mais interessantes. De repente, algum cientista pode descobrir que o mundo acabará. Mas se o mundo acabar, qual é o primeiro plano? No filme, o homem constrói algo semelhante a uma Arca de Noé (sério!).

Com uma diferença: Noé gritava em alto e bom tom aos outros sobre o fim iminente. Desacreditado por todos, apenas conseguiu embarcar a família. Já em 2012, o fim envolve não publicar a notícia do fim. E se tal notícia se propaga? O povo, massa inerte, poderia se multiplicar em guerras e motins, abalando toda ordem e aniquilando "nossa cultura" (sic) – entendamos tal expressão não enquanto cultura humana, mas enquanto certa cultura, dentre as culturas humanas.

O povo tanto é paradoxalmente anárquico e passivo que o presidente (dos EUA, Danny Glover) se apresenta como um governante com "G" maiúsculo. É o verdadeiro Gubernator (não Governator, embora este também apareça no filme): homem cuja própria conduta exemplar conduz e ilumina a dos outros. Diante das pobres e indefesas almas, sua voz firme e fiel talvez não evite o fim do mundo, mas pelo menos decida por uma melhor morte.

Ou senão, vejamos a grande metáfora definidora de tanto governo: talvez ninguém atribua ao presidente dos EUA a figura do "grande timoneiro". Mas enquanto o Navio afunda, diz um assessor, nada mais nobre do que o Capitão afundar com ele (sic).

Não estamos no mundo de Robotech, mas no hipotético mundo de 2012, o Mundo, a Humanidade, constrói gigantescas naus para transportar seus exemplares a um local mais seguro. Entretanto, já sabemos que essa mesma humanidade, ao saber do fim do mundo, transformaria o próprio mundo em revoltas e guerras, quando não abandonasse tudo na desolação total.

Como resolver o problema? A não divulgação do fim do mundo acompanha um curioso plano. Construiremos essas grandes naus não com o esforço conjunto de toda humanidade, mas com o que há de melhor na economia global: a iniciativa privada (sic!). Se cada cidadão humano contribuir com, vejamos, um bilhão de euros, tal projeto pode se concretizar. Afinal, tomamos como ponto de partida a permanência do Mercado e das Instituições mesmo com o fim do mundo – é ela que legitima a construção das naus para o apocalipse, e não outra coisa.

É o "fim do mundo como o conhecemos" (sic). Mas isso não implica desfazer todas as relações ordinárias em nome de algum projeto pela salvação de todos; pelo contrário, a permanência dessa entidade metafísica chamada Mercado mesmo após o fim do mundo é o pressuposto básico para o início de um mundo totalmente diferente. Com um critério adicional: selecionamos nossos melhores espécimes por aquilo que temos de melhor, modo de pagamento à escolha. Eles, e não todo o resto, permanecerão para procriar.

Obviamente, esse tipo de projeto de continuidade para os seres humanos não se isenta de críticas. Um dos cientistas responsáveis pelas previsões do fim do mundo embarca em uma das naus, tentando arrebanhar o máximo possível de almas para dentro. Faz algumas críticas aos encarregados, e até convence os líderes mundiais – já embarcados – a abrir as comportas e abrigar os últimos perdidos. Para  conseguir isso, o cientista apela a um valor interior a todos, a "humanidade": "Sempre tomamos decisões dificeis para salvar a civilização humana. Mas ser humano consiste em cuidar uns dos outros e da civilizacão, trabalhando juntos para criar uma vida melhor. Se isso for verdade [impedir a entrada na Nau], então não ha nada humano e nada civilizado. O que estamos fazendo aqui?" (sic). É a cartada final do filme: depois de tudo que fizemos, não deixamos de ser humanos.

Muito curioso, esse hipotético mundo de 2012.

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2 comentários sobre “O mundo de 2012

  1. Olha este filme é tão ruim que gastar palavras com ele já é muito.

    O mais estranho é que nem os efeitos especiais são lá grande coisa. São tão absurdos e forçados que nem a tal “suspensão de descrença” (é assim que se fala?) em seu nível máximo consegue resistir à grosseira falsidade dos efeitos bizarros de computação gráfica – já vi coisas melhores em jogos de computador. rsrs

    Por fim os personagens (todos) são tão anódinos, desinteressantes e irritantes – como aquele hippie patético que narra o fim do mundo e pede para que se “lembrem que ouviram as notícias primeiro dele” -, ou a família mais chata e sem-graça da história do cinema universal, que o que mais queremos é que o mundo e o filme (principalmente) acabe o mais rapidamente possível.

    Jesus, que coisa ruim! Diálogos patéticos, risíveis, ninguém passa a menor emoção, todos os atores estão ou são péssimos.

    O verdadeiro fim do mundo é que se faça um filme desses. E os coitados dos Maias entraram de gaiatos nessa arca (nem tão) high-tech.

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