Pagamentos, imprensa e “mensalão”

Para que serve a "justiça"? Para manter a ordem, dirão alguns. Outros poderiam dizer com mais rigor: para regular as desordens. Mas ordem e justiça não se equivalem, todo mundo sabe disso. A ponto de vermos curiosas declarações de defesa como essa:

"Pelas notícias que eu tenho é material apócrifo, sem assinatura e indicação de autoria (…) Lamento que uma vez mais material confidencial seja entregue à imprensa antes mesmo que os advogados constituídos nos autos tenham ciência dele."

Tal frase é da defesa de uma grande empreiteira, após a suspeita pública e relativamente difundida de seu envolvimento até mesmo com pagamento de mesada a políticos (tal empresa presta favores privados a FHC desde o governo e financiou o filme de Lula, aspectos que de algum modo mostram sua importância evidente). Notícia de primeira grandeza: a mesma empresa financiou as últimas campanhas de um grande número de prefeitos e governadores (o leitor já viu se a empresa financiou o seu?). E para deixar mais interessante, a mesma empresa também venceu licitações para empreendimentos de primeira grandeza.

Pode-se dizer que a defesa tem razão, como efetivamente tem alguma: em uma sociedade de direito, é complicado distribuir publicamente suspeitas sem antes haver um parecer formal, certo? Complicado é, diante de tanto material "apócrifo", adotar esta mesma tese sabendo que

1) em outras situações, como a do "mensalão", o caráter de suspeita rapidamente se converteu em denúncia formal, investigação e culpa; e essa culpa espalhada pelo socius, por sua vez, rapidamente se tornou algo como um marco regulador de qualquer outro caso semelhante.

2) O caso em questão, por exemplo: alguém duvida que no caso de ampliação de sua visibilidade ele não receberá o nome de algum tipo de "mensalão", "mensalinho" e afins? Prática já consolidada, tanto para casos posteriores ao "mensalão" propriamente dito, quanto retrospectivamente, como no "mensalão" mineiro.

3) O que faz os itens 1 e 2 deporem também contra a cobertura midiática: em alguns momentos a imprensa parece imprensa, colhe informações, busca o rigor, tenta deixar de lado atalhos retóricos, para fechar qualquer brecha com dados; mas em outros momentos e sem motivo aparente os mesmos organismos midiáticos escolhem os atalhos retóricos e as desqualificações. 

4) Um grande agravante do estabelecimento da "justiça" e da investigação da imprensa é a morosidade dos trâmites legais. O caso em questão se refere aos anos 90 (para não mencionar seus efeitos hoje). Se admitimos uma situação ideal na qual a imprensa cumpre seu papel, a velocidade de apuração jurídica coloca obstáculos sérios ao exercício da imprensa. Citações como a acima rapidamente poderiam se confundir com atestados de impunidade.

Às vezes uma denúncia material é seguida com rigor até sua apuração detalhada; outras vezes uma ilação conjectural e de fonte duvidosa se transforma em denúncia com "D" maiúsculo. 

Sem contar essa generalização do "mensalão". Como se aquele, carimbado por Roberto Jefferson, servisse de paradigma originário para qualquer outro caso visto como semelhante – uma espécie de corpo estranho contingente, não coextensivo a um incorruptível Brasil. 

Se o carimbo serve de paradigma originário, as denúncias atuais ganham o mesmo nome, mas curiosamente não os mesmos ânimos.

Qual é o problema? Enquanto a imprensa – ou a justiça – não respondem, a semana passada nos deixou dois exemplares (ou pelo menos "fortes indícios" ou algo que o valha) do que agora se costumou chamar de "mensalão": tanto uma grande empreiteira investigada há vários meses, quanto o governador do Distrito Federal, são alvo de investigações sobre pagamentos indevidos a políticos.

Se a imprensa ou a justiça não possuem respostas (ou boas perguntas respondidas), não faltam versões aos contemplados. Como essa, de uma chapa recém eleita (também financiada pela empresa em questão):

Imagino que muitos desses contribuintes de campanha sejam idealistas que vêem na liderança do candidato a perspectiva de dias melhores.

 

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