O Haiti, as catástrofes e as responsabilidades

Lula Borges chamou a atenção a certos vermes que começam a lucrar ou ganhar popularidade com a tragédia alheia: um pastor evangélico norte-americano chamado Pat Anderson evoca obscuros determinismos e associa a catástrofe do Haiti ao vudu e à influência do coisa-ruim, esquecendo (ou não) que a maioria do país é católica.
 
Nisso, o PhiloMag publicou um pequeno texto muito interessante, lembrando do terremoto que assolou Lisboa em 1755. Diversos tratados filosóficos foram escritos na época para tentar deslindar o sentido do acontecimento, pois um grande desastre natural não seria algo absolutamente fora da ordem cósmica (ou divina)?
 
Nesses tempos sempre retornam as discussões sobre livros bíblicos como o Livro de Jó. Quando em 2004 uma tsunami varreu vários países asiáticos, William Safire comentou sobre a legitimidade de se revoltar: "Questioning God’s inscrutable ways has its exemplar in the Bible and need not undermine faith".
 
A "ordem" cósmica pode ser qual for, mas a revolta só cabe ao homem, tanto quanto as responsabilidades. No caso do Haiti, o texto do PhiloMag evocou algumas:
… convém assinalar, seguindo Sylvestre Huet, jornalista de ciência do Libération e do jornal suíço Le Temps, que o desastre que assola hoje o Haiti foi anunciado desde 2002 por Éric Calais, geofísico (…) em Porto Príncipe. Ele publicou há 8 anos um relatório que denunciava, para além do risco sísmico, a precariedade das instalações e construções, e sua extrema vulnerabilidade em caso de abalos violentos. Assim, essa catástrofe pode muito bem ser qualificada de "natural", e contudo envolver também responsabilidades humanas.
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7 comentários sobre “O Haiti, as catástrofes e as responsabilidades

  1. Uma coisa que me chamou atenção nas fotos das contruções destroçadas foi a falta de vergalhões nas colunas das casas e até mesmo de alguns prédios. Você quase não vê metal, apenas tijolos. As construções pareciam ser nada mais que castelos de areia.

  2. As pessoas abusam desse jogo entre o natural [o desastre] e o cultural ou humano [a tragédia] para sutilmente atribuir ou desatribuir responsabilidades quando as coisas acontecem. Assim o humaníssimo desastre de Wall Street é descrito na imprensa como um tsunami criado por misteriosas forças do “mercado” e os terremotos, desabamentos, incêndios e enchentes que terminam em mortes às pencas quando envolvem pessoas pobres são todos “fatalidades”. Mas as fatalidades não acontecem em qualquer lugar. O furacão Katrina não era diferente nos bairros mais elegantes de Nova Orleans e no “Ninth Ward” – o desastre só virou tragédia na parte da cidade em que viviam os “indesejáveis”. Os desastres naturais no terceiro mundo – incluo aqui certos territórios do chamado primeiro mundo – são sempre tragédias humanas, porque as cidades são construídas precariamente – mas essa precariedade, esse improviso mambembe não é para todos, não é mesmo?

  3. Só para completar, olha o que o reverendo Pat Robertson disse sobre o terremoto no Haiti:
    “It may be a blessing in disguise. … Something happened a long time ago in Haiti, and people might not want to talk about it. Haitians were originally under the heel of the French. You know, Napoleon the third, or whatever. And they got together and swore a pact to the devil. They said, we will serve you if you will get us free from the French. True story. And so, the devil said, okay it’s a deal. Ever since they have been cursed by one thing after the other.”
    –Pat Robertson, on the earthquake in Haiti that destroyed the capital and killed tens of thousands of people, Jan. 13, 2010
    “Pode ter sido uma benção disfarçada. … Alguma coisa aconteceu no Haiti há muito tempo atrás e o pessoal talvez não queira falar sobre isso. Haitianos estavam subjugados pelos franceses. Vocês sabem, Napoleão III, ou coisa parecida. E eles se juntaram e fizeram um pacto com o demônio. Eles disseram, nós vamos servir a você se você nos libertar dos franceses. História verídica. Então o diabo disse, ok, combinado. Desde de então eles vivem amaldiçoados por uma coisa atrás da outra.”

    RE: Pois é, Paulo. E para piorar, vocês já viram isso?

  4. Eu vinha aqui trazer o link do comentário preconceituoso do cônsul haitiano no Brasil e vi que vc já colocou…

    Poizé, o pastor relacionava justamente a religião afro com o demônio, coisa que aqui outros fundamentalistas fazem. (Ainda mais com toda a fama vudu do Haiti.) Faz sentido ao interpretar a bíblia ao pé da letra, pois é o mais próximo do paganismo politeísta criticado no Novo Testamento. Mas uma ignorância tremenda a todo o resto.

  5. Perdão,mas a comparação com Lisboa não cabe. Nâo sei de tratados filosóficos,apenas o blá-blá-blá
    dos protestantes da época.Quanto a achar a ‘culpa’
    por desastres naturais,não é privilégio de igreja
    alguma.Ao contrário.Os adeptos do proto-marxismo
    (ao pé da letra)é que têm o vício antropomórfico.
    O homem ‘responsável’ por tudo.O Haiti é vítima de
    sua miséria ancestral.E não aguento chamar opinião
    própria de ‘preconceito’.O politeísmo vodu é um anacronismo.’Estrangeiros’não podem tocar em seus
    cadáveres…A milícia esquerdóide quer demonizar
    os ‘ricos’,a ‘mídia’,os EUA,os cientistas,etc… Agora os pastores luteranos,essa é boa…Que Deus
    proteja os haitianos! Quanto ao tal ‘paganismo
    politeísta’,ele é igualmente o quê(primário?) à ‘bíblia ao pé da letra’? Sua opinião foi clara?
    Não! Receio pelos haitianos.Talvez vcs possam até esclarecê-los: apontem os ‘responsáveis’ pelo tal terremoto. Desculpem a franqueza.

    Saudações ‘demo’cráticas,Dani(rs,rs)

    RE: Sugiro um curso de interpretação de texto, Daniela 😀

  6. Lastimável,pra nós todos,a morte da Dra.Zilda Arns! Caso raro de brasileira com iniciativa sem interesses.E uma perda patrimonial para o país, pois havia possibilidades do nosso primeiro Nobel.Até quando ficaremos sem um Prêmio Nobel(mesmo que o da Paz)?

    Saudações,Dani

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