Coroas e homenagens

Quando ocorreu a notícia do falecimento de Zilda Arns, seus próximos logo adiantaram: antes de seus apreciadores gastarem dinheiro com coroas de flores, muito melhor será dedicar esse dinheiro a outros empreendimentos, especialmente as ações inspiradas e agenciadas por Arns.

A mensagem é belíssima, algo como "se renderem homenagens, não há homenagem maior do que empreender ações semelhantes", ou "melhor do que o culto à pessoa é a multiplicação de suas ações, homenagem incontestável".

Ontem políticos da "esquerda" e da "direita", unânimes, renderam culto à pessoa de Arns. As manifestações públicas (das entrevistas aos twitts e blogs dos políticos) envolveram muitos condicionais interessantes: "precisamos", "devemos", "se quisermos", "o mundo seria melhor se" etc. "Deveríamos seguir o exemplo de Zilda Arns".

A magia dessas palavras é que daqui a trinta anos elas podem ser ditas com o mesmo compromisso de hoje. Mas imaginemos se (putz) o recado das coroas for melhor compreendido.

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3 comentários sobre “Coroas e homenagens

  1. eu até compreendo, seo catatau, essas padronizadas mensagens após o desaparecimento trágico dessa senhora. seu trabalho, pontual e efetivo, com milhares de crianças de sua pastoral dá ,realmente, resultados. é fato.

    com certeza, devido às nossas carencias seculares e comprometimento da mídia com as elites dominantes, esse tipo de trabalho e assemelhados são cantados em verso e prosa do oiapoque ao chuí.

    no entanto, não são políticas públicas e são, isso sim, de cunho religioso com o objetivo de aumentar o rebanho do suposto senhor.
    esquecem as ações de planejamento familiar, uso de contraceptivos, combate a aids, discriminalização do aborto, violência contra a mulher, psicoterapia e quejandos… feito o trabalho da madre teresa de calcutá, né não?

    no resto, é um bom trabalho para essa espécie em extinção, acredito eu, das primeiras damas.

    abçs

    RE: Muito bom seu comentário, Carlos.

    Daqui a pouco retorno tentando abordar melhor os problemas que você colocou

    ***

    Retornando: creio que sua questão é muito interessante pq bate em vários assuntos juntos. Em primeiro lugar, é interessante ver que da Veja aos chamados “esquerdistas”, todos são unânimes quanto as contribuições de Arns.

    Mas de onde vem essa unanimidade? Parece que ela vem do tipo de trabalho feito. Nesse sentido, não me parece propriamente que o papel religioso está em jogo. Ele está em jogo no tipo de limitações que você elencou, e que em “biopolíticas” como essa, são via de regra empregados. De todo modo parece que o assentimento geral, à esquerda e à direita, deva-se ao fato de ser uma política cujos elementos incidem diretamente na saúde biológica, imediatamente corporal. A multimistura e o uso do soro caseiro são soluções fáceis com efeito rápido e direto, algo que para vejeiros de plantão, por exemplo, poderia-se chamar de “não ideológico”. Sabemos que “não ideológico”, caso consideremos a palavra “ideologia”, é balela, papo para boi dormir. Mas essa ação direta sobre a vida e hábitos básicos, e não propriamente sobre outras esferas da vida mais, digamos, complexas, parece ser o elemento que torna esse tipo de ação bem quista à direita e à esquerda.

    Disso, que juízo de valor devemos ter? Outro elemento importante de tua questão é a passagem entre a auto-gestão de uma comunidade e a mera politicagem de primeiras damas. Creio que, se Arns faz política de primeiras-damas, faz uma política exemplar no universo das primeiras-damas. Mas de todo modo devemos nos atentar em que momento seu projeto é uma articulação nascida em uma pequena comunidade do interior do Paraná com intuitos de auto-gestão (e nesse sentido a ICAR tem implicações positivas como tem também em vários outros movimentos sociais, por ex. a atuação da CPT, se bem que sabemos que historicamente a ICAR também está do “outro lado”), e em que momento é mais uma boa política de primeiras-damas, e portanto não mais algo com essas nuances de auto-gestão comunitária. Não sei responder isso pq não tenho acesso ao projeto, apenas o conheço “por ouvir dizer”. Mas são questões muito importantes para conversar, visto o estranho culto a ela advindo de todo lado (estranho não no sentido do mérito dela, mas do perfil dos cultuadores).

  2. Prezados,

    Gostaria de convidá-los a conhecer meu blog: http://murilocorrea.blogspot.com; também, de dizer que indiquei o Catatau entre os blogs amigos (seção territorialidades) e, finalmente, para agradecer a “tuitada” que vocês deram ao Navalha de Dalí. Tuitada, essa, que s[o não retribuo, cmo gostaria, porque não tenho twitter. rs! Parabéns pelo blog, e grande abraço, Murilo.

  3. salve, seo catatau,

    o bom da blogosfera é essa interação entre blogueiros e visitadores.
    sua réplica ampliou a questão, pois veio à tona a cpt e poderemos incluir a cáritas, viva rio e quejandos.

    a minha cisma com a essas caridades personalizadas é que simplesmente retratam a ideologia dos fundadores/dirigentes, daí em um pulo se transformam em salvadores de corpos e de almas. a direita adora e a esquerda entra em parafuso.

    ontem no pre´-carnaval de fortaleza, coincidentemente, conheci um diácono, veja só, que dirige uma organização “caridosa” num bairro periférico da cidade. o bloco de adolecentes até que levava bem o samba. sem eu perguntar, me falou que uma grande construtora o ajudava e estava planejando se candidatar a deputado estadual. só não o mandei à baixa da égua por que era carnaval e estava com a família toda se divertindo na praia de iracema.

    abçs

    RE: Pois então, Carlos, existem Projetos Sociais e projetos sociais. O que você chama de “ideologia” não parece ser, de saída, necessariamente “ruim”, pois sem os tais motivos “ideológicos” não haveriam nem projetos. A CPT, por exemplo, publica anualmente um informe sobre a violência no campo: trabalho escravo, desmandos, arbitrariedades, atuação de jagunços e afins. Sem a CPT não vejo quem publicaria algo assim. Você acha que a CNA se preocuparia com isso, por exemplo?

    No sentido muito particular que você colocou, talvez o problema seja bem mais um “projeto” não obter os mesmos resultados que propõe ou diz propor. Ou ainda, um projeto não se focar em questões como a auto-gestão de uma comunidade mas apenas em trivialidades e abstrações incríveis como a “auto-estima”. Em outros termos, boa parte dos projetos sociais são como o marketing ambiental: carregam discursos bonitos mas só existem na teoria, ou na melhor das hipóteses obtêm resultados paliativos, não mensuráveis ou inexpressivos.

    Mas como conversamos, casos como o de Zilda Arns são talvez “mais embaixo”.

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