O Haiti e a Doutrina do Choque

Algum tempo atrás Naomi Klein publicou A Doutrina do Choque, livro que segundo muitos representa nosso presente. Conforme a tese forte do livro, chegamos em tal estado que as relações entre o capitalismo e grandes crises estruturais não são mais negativas. São sobretudo positivas, pois acionam renovações e reestruturações radicais e, sobretudo, novos investimentos.

Por exemplo, o aquecimento global e o derretimento do ártico. Se por um lado vê-se tais fenômenos sob um âmbito de ameaça e perigo, de outro o derretimento proporciona novas rotas comerciais e a exploração de jazidas até então desconhecidas. A crise climática não seria inimiga das reestruturações do capital, mas sim um agente positivo.

Ligada ao que nos parece a "tese forte", o livro contém outro argumento: reestruturações são facilitadas pelo "choque". Uma população profundamente afetada por um desastre se torna mais suscetível a mudanças mais ou menos radicais, vindas de intervenções e projetos externos.

Na época, Klein concedeu diversas entrevistas e produziu um pequeno documentário. Nele, cita como figura paradigmática Milton Friedman, especialmente a passagem:

Only a crisis – actual or perceived – produces real change. When that crisis occurs, the actions that are taken depend on the ideas that are lying around. That, I believe, is our basic function: to develop alternatives to existing policies, to keep them alive and available until the politically impossible becomes politically inevitable.

Muita gente por aí não gostou e acusou Klein de ler Friedman de modo rasteiro, muito embora ele também solte passagens ambíguas como essa:

 QUESTION: If the Depression told the American people that government is the solution rather than government is the problem, some decades later you get deeply involved in trying to change that perception. What did you preach, and how did you ultimately prevail, in a sense? 

MILTON FRIEDMAN: I believe that one of the important factors that affected it, [that is] professional opinion, was the result of our book on the history of money, and the demonstration of the role that the Fed had played in the Great Depression. I think that played a very important role on professional opinion. But, so far as popular opinion about the role of government, I believe that has been changed by experience. People have observed that government policies don’t work. The government sets out to eliminate poverty, it has a war on poverty, so-called "poverty" increases. It has a welfare program, and the welfare program leads to an expansion of problems. A general attitude develops that government isn’t a very efficient way of doing things. The Post Office becomes an object of scorn. 

Now, you never have real changes unless you have a time of crisis. And when you have a time of crisis what happens depends on what ideas are floating around, and what ideas have been developed, and thought through, and are made effective. And I believe the role that people like myself have played in the transformation of public opinion has been by persistently presenting a different point of view, a point of view which stresses the importance of private markets, of individual freedom, and the distorting effect of governmental policy. That may not persuade anybody, in one sense, but it provides an alternative when the time comes that you have a crisis and people realize that you have to change. 

In this particular area what was the crisis? What is it that has produced so dramatic a change? The fall of the Berlin Wall, [which] really demonstrated beyond the shadow of a doubt that there was a bad system, and what subsequently happened in the Soviet Union, that that system was a failure. And it made people, I think, much more receptive to the kind of ideas that I and others of my persuasion had been promoting for years. 

De todo modo, parece existir uma ambiguidade também na leitura de Klein. Ela parece identificar rapidamente a "doutrina do choque" com as idéias de Friedman, o que rigorosamente falando tende a ser inexato. Doutrinas econômicas nem sempre aplicam de fato o que prescrevem de direito, e para isso basta ver a aplicação do famoso "neoliberalismo" em diversos países. Do mesmo modo, é difícil reduzir práticas econômicas a apenas algumas mentes "autorais", como se as dinâmicas das últimas décadas respondessem pura e simplesmente prescrições de um único indivíduo.

O que isso tudo tem a ver com o Haiti? Desde o terremoto, o site de Klein vincula a cada dia novas publicações, por exemplo um trecho do livro vinculado ao acontecimento atual e a pergunta: qual será o papel dos haitianos na reconstrução de seu próprio país?

Desde o desastre, blogs como La Citadelle sempre comentam sobre a mobilização haitiana, contra toda a cobertura estilo "Fox News no Iraque", concentrada exclusivamente nas consequencias negativas e naturais do terremoto. Mais do que vítimas passivas, há verdadeira mobilização de redes informais, incrivelmente separadas das intervenções internacionais, militarizadas e similares a operações "de guerra":

a ausência quase que total e absoluta das forças da ONU e da ajuda internacional (…) a falta de ajuda parece estar mais ligada às disputas internacionais pelo controle do futuro do povo haitiano do que à emergência da situação.
Sim, os haitianos são vítimas, mas estão longe da passividade: pra cima e pra baixo, entre as “dame sara” e o “chein jambe”, vimos jovens escoteiros removendo entulho, jovens pedindo ajuda com alto-falantes, médicos haitianos dando atendimento aos feridos nas ruas, freiras haitianas prestando os primeiros socorros quando possível. Paralelamente, o aparato da Minustah, cerca de 5.500 militares de diferentes nacionalidades, ou estava parado, ou mobilizado na atenção dos próprios quadros da ONU.
Os haitianos ajudam haitianos, a ONU ajuda a ONU. [link]

Se Klein comenta sobre planos nos quais os haitianos não participam, o pessoal da Citadelle coloca um aspecto correlato, a disjunção entre as redes informais dos haitianos e as intervenções internacionais.

You’ve noted that the relief effort so far has been overly militarized. Given that the military is responsible for coordinating much of the aid, why do you think th
at’s inappropriate?

It’s a self-fulfilling prophecy. Every day that people are not receiving food, it becomes harder to maintain order. What we’re hearing from U.N. and aid agencies is that they’re afraid of going out without military escort. And what we just saw during the quake is that some foreign investors had their own parallel privatized disaster infrastructure. Citigroup sent in private-security SWAT teams equipped with medical supplies and satellite phones to save their people, but not their neighbors. That’s dehumanizing. Aid should be prioritized over security. Any aid agency that’s afraid of Haitians should get out of Haiti. [link]

Anúncios

6 comentários em “O Haiti e a Doutrina do Choque

  1. Muito interessante seu artigo! Noam Chomsky em “Verdades Duradouras” ressalta que os valores políticos e econômicos dos EUA (democracia liberal, propriedade privada e livre mercado)são apenas pretextos para garantir seus ideais de controle. Países que não seguirem as regras sofrerão intervenções militares (peace Keeping, peacemaking, peace building e ou peace enforcement) Sendo a Onu sua maior interventora e tendo a liberdade (palavra-fetiche da retórica neoliberal) como sua maior premissa em inventar mediadores sociais, o que nada mais é do que uma produção de existência humana em novos contextos históricos. Melhor fazem os haitianos em preservar sua humanidade no território existencial.

  2. ou… em territórios existênciais, prefiro assim, agora:
    Melhor fazem os haitianos em preservar sua humanidade em territórios existenciais.

  3. As operações de paz da ONU podem ser classificadas em: manutenção da paz (peacekeeping); estabellecimento da paz (peacemaking); construção da paz (peacebuilding) e imposição de paz (peace enforcement), de acordo com as tarefas específicas a serem conduzidas em prol da paz.
    Os EUA conduzem suas tarefas por imposição de paz (Iraque e Afeganistão), que é uma abordagem mais dura e intervencionista, segundo Crigler (The peace enforcement dilemma,. Join Force Quarterly, Autumm (1), 64-70. Recovered from http://www.globalsecurity.org/military/library/report/1993/), pois trata-se de um conceito novo e localizado precariamente numa interseção entre a lógica de paz e a lógica da guerra. Esta operação (peace enforcement) se tornou bastante complexa, difícil de administrar e beligerante.
    Quanto à incursão da paz no Haiti pelo exército brasileiro, as tarefas conduzidas envolveram três operações: manutenção da paz, que visa expandir as possibilidades de prevenção de conflito e favorecimento da paz; estabelecimento da paz, processo de aproximar e trabalhar com as partes a fim de que entrem em acordo; e construção da paz, que busca implementar os acordos e construir estruturas sociais, econômicas e políticas que aumentem a capacidade de paz.
    Agora quando falei que melhor fazem os Haitianos de preservarem a sua humanidade em territórios existenciais falei da experiência dos Haitianos em preservarem a sua atividade ajudando uns aos outros (vivências positivas locais).

  4. Agora compreendi melhor, e de fato os dois aspectos do teu comentário são muito interessantes.

    Obrigado pela referência, muito interessante! De fato parece que estilos de atuações como a da Somália ainda se fazem por aí. Quais as questões que te fizeram chegar a essas referências? São bem garimpadas!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s