O fim da sombrinha

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Illustrations de Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil autrement dite Amérique

Na carta de Pero Vaz de Caminha, um dos primeiros juízos sobre o brasileiro se referia ao calor e à indumentária:

Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência.

Alguns séculos depois, não poderia passar sem espanto a notícia: dia após dia, o Brasil bate recordes de consumo energético. Dentre as causas principais estão a indústria, mas também o calor. Não é admirável a existência de tantos aparelhos de ar condicionado, Brasil afora? O que não dizer do ventilador? E mais: como um país tropical se converteu em usuário de tantos aparelhos elétricos para amenizar o clima?

É como se certa sabedoria "cabocla" se perdesse no tempo. Cidades inteiras se "organizam" no velho esquema ruela asfaltada-calçada pequena-muro, concreto total. Em outras regiões, é como se os moradores insistissem em não plantar grama e cultivar árvores no quintal. Esquecemos o velho tema de que a vegetação tem relação direta com o microclima de uma região, do mesmo modo que fingimos ignorar que o uso do ar condicionado contribui com o aumento desse mesmo microclima. O que importa é que eu sinto calor, certo?

Para complementar, os projetos de urbanização priorizam os carros (e não o transporte público). Mais asfalto, calçadas encurtadas, menos árvores, menor espaço público, mais ventilador e ar condicionado (uma "população encaixotada", já escreveu Diego Viana).

Diz Bautista Vidal (em "A Dialética dos Trópicos") que o fisiologista brasileiro Miguel Ozorio de Almeida teria publicado em 1915 precisamente um texto intitulado "Bases experimentais para a determinação dos vestuários nos climas quentes". A idéia é interessante porque complementaria outra, a de períodos de "europeização" das vestimentas comentados por Gilberto Freyre (“sobrecasaca preta, botinas pretas, cartolas pretas, carruagens pretas, quase um luto fechado. Essa europeização de nossa paisagem, de preto e cinzento, começou com Dom João e culminou com Pedro II”).

Curiosamente essa "europeização" (ou algo que o valha) se reflete no mercado imobiliário. Em tempos de "aquecimento global" não são raros empreendimentos estilo New England, não reduzidos às regiões mais "frias" do Brasil. E as construções nem precisam ser New England, basta notar que teto alto e janelas grandes são características de imóveis ou caros (portanto, inviáveis) ou antigos (portanto, ultrapassados).

Nem os apartamentinhos – cada vez mais comuns – utilizam artimanhas como toldos, orientação correta segundo os pontos cardeais ou disposição das janelas para clima arejado. Não é raro ver, por exemplo em diversas capitais nordestinas, conjuntos de prédios sem qualquer desses traços. Apenas telas prateadas tentam conter o calor nas janelas fechadas (e o que se liga dentro dos imóveis?). Lá fora o vento abunda.

E as concentrações sociais? Em belos dias de sol, não seguem mais o padrão das fotos de nossos avôs ou de quadros como Moulin de la Galette. Se o lugar for bom mesmo, o que tem? Ar condicionado ou ventilador, oras.

Além do mais, hoje em dia pode chover, certo? E nem bem saímos da chuva…

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7 comentários em “O fim da sombrinha

  1. veja: http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq020/arq020_03.asp

    aliás: um dos melhores materiais do ponto de vista de adequação a climas quentes é a taipa de pilão. Desprezada fortemente devido à campanha de difamação realizada contra sua prima pobre (a taipa de sopapo) por causa do combate à doença de chagas (campanha realizada sobretudo no ensino fundamental).

    mais detalhes: http://en.wikipedia.org/wiki/Thermal_mass e veja: http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq020/arq020_03.asp

    aliás: um dos melhores materiais do ponto de vista de adequação a climas quentes é a taipa de pilão. Desprezada fortemente devido à campanha de difamação realizada contra sua prima pobre (a taipa de sopapo) por causa do combate à doença de chagas (campanha realizada sobretudo no ensino fundamental).

    mais detalhes: http://en.wikipedia.org/wiki/Thermal_mass e veja: http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq020/arq020_03.asp

    aliás: um dos melhores materiais do ponto de vista de adequação a climas quentes é a taipa de pilão. Desprezada fortemente devido à campanha de difamação realizada contra sua prima pobre (a taipa de sopapo) por causa do combate à doença de chagas (campanha realizada sobretudo no ensino fundamental).

    mais detalhes: http://en.wikipedia.org/wiki/Thermal_mass e http://en.wikipedia.org/wiki/Rammed_earth

    RE: O comentário saiu cortado?

    De todo modo, vale ler também suas respostas lá no Notas Urbanas.

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