Formadores de opinião, nem que seja da própria

Belo texto de Venicio de Lima(via fangelico):

Trabalhando em algumas capitais estaduais ou na Praça dos Três Poderes, em Brasília, os chamados "formadores de opinião" da grande mídia – sobretudo jornais e emissoras de TV – acabam por se isolar do cotidiano da maioria da população brasileira. Acredito que faria muito bem a eles viajar, periodicamente, pelo interior do Brasil. Não importa a região, o estado ou até mesmo as cidades visitadas. A exceção talvez seja o interior de São Paulo, área onde são distribuídos dois dos três jornalões que se consideram nacionais.

Os "formadores de opinião" deveriam aproveitar a viagem e puxar prosa com gente comum em locais como postos de gasolina, restaurantes de beira de estrada (ou não), hospedarias, botequins, museus, igrejas… E, sobretudo, ouvir. Ouvir quais são as fontes de informação preferidas, com o que se preocupa, quais informações interessam e qual a visão que essa gente comum tem do país e de seus problemas. [continua]

Moral da história: Os jornalistas de grande veículo acabam incorrendo numa espécie de "egoísmo universalizado". Acreditam ter voz universal quando os próprios leitores reconhecem ali enunciados locais, setorizados e particulares. Igualmente, acreditam que tal "universalidade" alcança qualquer leitor, enquanto facilmente se vê uma ignorância dos contextos vividos por cada leitor.

Basta ligar a TV ou ler jornal para concordar com Lima. De onde vem tais crenças dos jornalistas, aí está uma boa pergunta 😉

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2 comentários sobre “Formadores de opinião, nem que seja da própria

  1. Discordo com o autor do texto e do post.

    Não consigo ver esse “egoísmo universalizado”. O jornalista tem um imenso esforço ao transpôr uma realidade para múltiplos possíveis receptores. Há um conjunto de procedimentos, regras, etc. para tal feito.

    Seria interessante ilustrar o “jornalista” pautado pelo post com um exemplo. Então discutiríamos se o exemplo é válido, e se sua causa é mesmo o tal “egoísmo universalizado”.

    RE: Concordo com você sobre a inseparabilidade entre jornalismo e certo caráter, digamos, “plural”. Mas infelizmente não acho difícil encontrar exemplos, Veja, RA, Globo

    Não sei bem se discutimos nos mesmos termos, mas vou dar apenas um exemplo bobo: algumas semanas atrás Ernesto Paglia fez uma reportagem sobre o pastel paulistano. Recheou a reportagem com uma certa mistura de lirismo e saudosismo pelo pastel popular, bem feito por imigrantes, etc. etc. O engraçado era precisamente isso: o lirismo e o saudosismo, como se aquele pastel da esquina, custando 1 real, fosse uma espécie de tradição que se perde. Mas na reportagem, nem isso. O pastelzinho custava entre 2,5 e 5 reais – em que mundo o cara vive??????

    Eu daria outro exemplo muito interessante dos últimos tempos que é o uso do imperativo em revistas como a Veja: “Seja”. Algo que não é apenas um slogan, basta abrir a revista. Lá está repleto de “deve-se”, “faça”, etc. Eu acho muito interessante esse emprego discursivo, não é por acaso e certamente o jornalista tem juízos prévios quando se julga apto não a fazer análises mas a prescrever imperativos. O próprio caráter público do jornalista o impede de ser prescritivo (pelo menos em democracias). Uma “prescrição pública” é algo um tanto quanto estranho.

    Enfim, se quiser outros exemplos, especialmente sobre Veja e RA, procure neste blogue (link da Globo acima). Há alguns outros bem interessantes.

  2. Eu acho que a razão principal da alienação desses “formadores de opinião” é que a segregação social do Brasil faz com que os membros da elite [origem de praticamente todos os jornalistas desses meios de comunicação] só tenham contato com pessoas de outras classes através do convívio com a empregada doméstica, o porteiro do prédio, etc. É uma amostra mínima daqueles que fazem a maioria da sociedade brasileira e ainda por cima uma amostra extremamente imperfeita, formada de pessoas que tendem a esconder suas verdadeiras opiniões dos seus patrões [por motivos óbvios] ou que muitas vezes sofrem de um outro tipo particular de alienação, justamente por esse convívio “íntimo” com os patrões. E quanto mais aberta [ou menos fechada] em todos os sentidos [eleitoral, econômico, cultural] a democracia brasileira, mais essas pessoas tendem a se surpreender com a existência desse gigantesco outro. O mais comum considerando-se os preconceitos de classe, raça, etc é que essas elites simplesmente pintem um retrato grotesco de ignorância e venalidade congênitas para essa massa de pessoas que não conhece. Daí a surpresa e decepção de pessoas que só convivem com outras pessoas de um círculo afinal ínfimo que odeia visceralmente Lula e o PT quando as pesquisas dizem que o presidente tem uma popularidade de mais de 80%.

    RE: Perfeito, Paulo. Mais ou menos como no episódio de ontem desse programa: a garota linda toma banho de sol todos os dias na piscina de seu imóvel no Leblon. Enquanto isso, o “tiozinho” está lá, consertando os tacos do piso. Se tiro o roteiro da conversa dela com o tiozinho e coloco em Escrava Isaura, é incrível: no conteúdo e na expressão, quase não há diferença!

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