A produtividade da produtividade

O assunto "revisão dos índices de produtividade" saiu de moda. Mas curiosamente, algumas edições atrás a Veja publicou essa reportagem. O que ela tem de "curioso"? É uma verdadeira aula de filodoxia.

Segundo a revista e conforme os dados do IBGE, "ficou evidente o avanço da produtividade, isto é, a quantidade produzida por área ocupada". Isso quer dizer – a revista reforça – que hoje produzimos quase o dobro dos índices de 10 anos atrás, em até menor área (houve redução de 7% das áreas efetivamente cultivadas). 

O responsável por tanto ganho é, obviamente (segundo o tom amigável e aberto a discussões dessa revista, que odeia impor idéias e prescrições sobre o que o leitor deve pensar), o agronegócio, figurado pelo aumento de profissionalização e tecnologia. Pelo agronegócio produzimos mais em menos terras, gerando um terço de tudo o que o Brasil exportou e mais precisamente o valor de 72 bilhões de dólares.

Houve apenas um efeito colateral: o aumento de concentração das terras. Segundo a revista, "na prática" isso é "consequência" inevitável da "modernização", não da agricultura mas do agronegócio, modernização "sem a qual não seria possível o aumento na produtividade". 

Se a modernização (cujos atributos são "profissionalização" e "tecnologia") é exclusividade do agronegócio e houve aumento na concentração das terras, o texto lança a idéia seguinte: o agronegócio contrasta com a agricultura familiar exatamente como a agricultura de exportação contrasta com a produção de alimentos. "Não se pode negar a importância dos pequenos agricultores no cultivo de alimentos típicos no prato dos brasileiros"; "mas" mantendo esta divisão, o agronegócio exporta  com profissionalismo e tecnologia, coisa que a agricultura familiar não faz.

Mas e o que dizer se com menos de 25% das terras a agricultura familiar contribui com 38% do valor produzido?

Isso é outro efeito colateral. Segundo a revista, mero artifício do Ministério do Desenvolvimento Agrário e portanto simples "conclusão" e "raciocínio [que] carece de solidez". Por que?

A produtividade deve ser medida em quantidade, e não em reais. Sem uma comparação mais apurada, o fato de o faturamento ser proporcionalmente maior pode significar apenas que as unidades familiares produzem, na média, mercadorias mais caras. O argumento do MDA, portanto, só pode ser interpretado como uma tentativa de fortalecer seu pleito por uma alteração nos índices de produtividade utilizados como parâmetro na reforma agrária – e assim acelerar as desapropriações que beneficiam o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST).

Aqui a revista nos deixa várias perguntas:

– Como explicar que a agricultura familiar rende mais porque "pode significar" (sic) a venda de mercadoria mais cara? Como assim, "pode"? Um simples "pode" nunca comprovou nada. Ora, a repórter mesma apenas supôs que pode, não que é. Como um mero "pode" mantém a força do que a revista quer mostrar, a preponderância do agronegócio sobre supostas politicagens do MDA? Vejamos o que diz o autor: se isso "pode significar apenas" mercadorias mais caras, "o argumento do MDA, portanto, só pode ser interpretado como uma tentativa de fortalecer seu pleito". Muito curioso!

– Mas se a afirmação dela é correta, isso quer dizer que o agronegócio, tão profissionalizado e técnico, produz e vende mercadoria mais barata por alguma espécie de altruísmo? O dado é estranho, dado vermos por exemplo alterações no preço do álcool em função do mercado de açúcar, ou em outras palavras o absoluto primado do valor sobre a produtividade. O agronegócio não produz mais para produzir mais, ele produz mais e conforme os ditames do mercado para ganhar mais. Se a agricultura familiar ganha mais do que o agronegócio produzindo em menor área, por que o redator do artigo não encarou o problema, tapando-o com um simples "pode"?

– É curiosa a divisão entre agronegócio (com seus atributos: profissional, técnico, agente de exportação) e agricultura familiar (produtora de alimentos da "mesa do brasileiro"). Isso significa que a agricultura familiar não evoluiu tecnica ou profissionalmente? Ora, dizer que o aumento da concentração das terras é efeito da modernização claramente indica que a agricultura familiar não teria se modernizado. E mais: isso significa que a agricultura familiar não contribui com exportações? Mais ainda: não contribuir com exportações retira o papel desse setor na economia frente ao agronegócio?

– De onde vem essa espécie de apostolado do agronegócio? E esse deslize do argumento que segue da agricultura familiar ao MST, artifício duplo que criminaliza o MST e desqualifica a agricultura familiar?

– Se a produtividade deve ser medida em quantidade, não há o que temer pois ela 1) dobrou e 2) é bem maior se comparada com a agricultura familiar (que apenas "ganha" mais). Então, qual é o problema de alterar os índices de produtividade? Certamente eles não "acelerariam as desapropriações que beneficiam o MST", grande bicho-papão que vive embaixo da cama dos repórteres dessa revista. Tão melhores do que a agricultura familiar no papel de equilibrar a economia e tão mais produtivos do que há 10 anos os setores de agronegócio não tem nada a temer, não é mesmo? Ou há algo a temer?

Enfim, na falta de respostas, a conclusão do artigo poderia ser também utilizada contra jornalistas: "Como costumam brincar os economistas, números bem torturados confessam qualquer coisa". 😉

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7 comentários sobre “A produtividade da produtividade

  1. Mas eu faço uma pergunta: para que índices de produtividade? Para tomar terras das pessoas? Onde está a proteção à propriedade privada que consta na Constituição?

    Ou será que o direito de propriedade privada está vinculado ao tal uso “social” da propriedade?

    E o que isso quer dizer? Uso “social”? Quem determina isso?

    É função do Estado determinar a quantidade de produção em cada propriedade? Isso não torna o termo propriedade privada, tal qual consta na Constituição algo bem relativisado?

  2. A verdade que os PTs da vida não assumem é que a reforma agrária é coisa do passado. Tinha que ter sido feita há 50 anos. Quem, hoje em dia, quer viver aí pelo interiorzão, plantando mandioca? A verdade é que a vida em uma favela em grandes cidades é muito melhor que uma vida perdida aí pelo interior do Brasil. A concentração de terras só vai aumentar, pois é assim que se funciona. Veja a concentração de “telefonias”, de “construtoras”, de empresas alimenticias, etc…

  3. Pablo,

    Suponho que quem determine o uso social das terras são os redatores da Constituição Federal de 1988, portanto supostamente todos ou boa parte dos políticos e partidos que conhecemos. Se eles correspondem ao que publicaram em carta, isso é uma boa questão.

    Creio que o problema da propriedade privada versus uso social não deveria ser colocado dessa forma. Querendo ou não, existe nesse tipo de declaração uma tese e pressuposto implícitos: uma espécie de igualdade dada de antemão a todos os cidadãos (inclusive igualdade de condições de usufruto da terra), de modo que o uso da terra se reduz à simples vontade de seu dono, pois cada um já tem sua gleba e interferir nos limites privados seria uma afronta à própria liberdade individual.

    Como sabemos, não é assim…

    Cleuson,

    Você leu o texto?

    Felipe,

    Se é um “fardo”, pergunto: como nos livraríamos dele?

    ***

    Art. 186. A função social é cumprida quando a propriedade rural atende, simultaneamente, segundo critérios e graus de exigência estabelecidos em lei, aos seguintes requisitos:

    I – aproveitamento racional e adequado;

    II – utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente;

    III – observância das disposições que regulam as relações de trabalho;

    IV – exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores.

  4. “A concentração de terras só vai aumentar, pois é assim que se funciona” – o argumento do comentador é digno da retórica da Veja. Todo o fatalismo, religioso ou econômico, esconde a mesma vontade de encerrar um debate incômodo sumariamente. As pessoas precisam hoje em dia mais do que nunca saber diferenciar pragmatismo de oportunismo. E dar nome exato às coisas também. Para mim “aumento da produtividade” é um eufemismo barato para “menos emprego, salários mais baixos, piores condições de trabalho”.

  5. Bom, venho d’uma família de polacos que plantava de tudo lá em Itaiacoca na década de 40/50, abasteciam o equivalente ao “CEAGESP” de Ponta Grossa-PR.

    Foi indo, os polacos deixavam muitas áreas naturais intocadas pra preservar a caça e, o governo disse que aquilo tudo era “área natural”.

    Pois bem… kkk agora tudo é mais (muito mais) caro nas feiras, os bugios estão felizes, nossas onças sumiram (bem como as codornas (na década de 70 se pegava “à mão” nos campos)).

    Produtividade e qualidade (de vida) não combinam, ou você tem um ou outro.

    Produtividade implica em má formação intelectual.

    hehe.

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