“Relacionamento inter-etário”

Todos conhecem aquele chiste do porteiro do prédio que se apresenta como "administrador de condomínio". Ou os jargões empresariais feitos para adornar com palavras bonitas qualquer situação (mesmo as piores). Mas e o que dizer de "relacionamento inter-etário"?
 
É o que prega uma comunidade do orkut chamada "Contra Preconceito InterEtário". Dentre outras coisas, ela prega "o direito inalienável das crianças e adolescentes de terem respeitadas sua livre orientação sexual e sua liberdade sexual".
 
Aí sobrevêm o pretenso eufemismo: "não são" pedófilos, mas pessoas que "discutem" a "relação inter-etária". Consideram-se isentos de qualquer responsabilidade por pedofilia, cuspindo na cara do leitor: "Somos contra os relacionamentos inter-etários atualmente. Seremos a favor somente após a descriminalização".
 
Denúncias? Por incrível que pareça, é uma comunidade que passou sem maiores problemas pelo crivo do Orkut.
 
Enquanto ninguém faz nada, rolam as votações: "A idade do consentimento sexual deve ser abaixada para…"
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10 comentários em ““Relacionamento inter-etário”

  1. Pois é: uma coisa é discutir academicamente a sexualidade de crianças e adolescentes. Outra coisa é tucanar a pedofilia (doença) e o assédio a menores (crime).

    Mas este lobby não para apenas aí: existe até uma tal man-boy love association nos eua (http://en.wikipedia.org/wiki/North_American_Man/Boy_Love_Association). Lá, lobista deve ser a profissão mais bem paga do mundo.

    Notem, inclusive, a grosseria nada sutil do logotipo quando o “M” junta com o “b”.

  2. Catatau, essa questão aí é bastante complexa. Eu sei que a associação que se faz normalmente entre pedofilia e violência e estupro acaba despertando sentimentos de revolta muito fortes. Mas deve ser uma coisa muito triste o fato de as pessoas associarem o seu comportamento e desejo sexual com esses desvios violentos, que são coisas completamente distintas. Eu digo isso porque sou fã do Lewis Caroll e de sua Alice, e isso me levou a refletir sobre essas questões, 🙂

    Primeiro, a questão da pedofilia é uma questão da autonomia da criança para dizer sim, certo? Essa questão da autonomia é muito complexa, inclusive se tratando de adultos. Uma discussão longa que não caberia aqui… Mas o que dizer sobre as propagandas com crianças de 5 anos falando com o namoradinho no celular? E a imagem sexualizada das crianças na mídia em geral? E as crianças prodígio? Está acontecendo uma mudança a respeito da imagem do que é ser criança que precisa realmente ser pensada.

    Mas estamos falando da criminalização de um desejo. É isso o que acontece quando vem um psiquiatra ou psicólogo e dizem que pedofilia é uma doença e que tal e tal área do cérebro fica ativada anormalmente quando o pedófilo sente desejo sexual. Dá uma olhada nessa pérola de tautologia, no mínimo revoltante: http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL196749-5602,00-ESTUDO+MOSTRA+QUE+ORIGEM+DA+PEDOFILIA+PODE+ESTAR+NO+CEREBRO.html

    Na França já há um projeto de lei para implantar como punição e no interior de São Paulo já há quem aplique o “antídoto” para a pedofilia. O “cientista” chama também de “castração biológica”. Uma injeção de hormônios femininos que faz com que o homem simplesmente perca todo o desejo sexual. Há “pedófilos” que se sentem culpados por essa condição e procuram voluntariamente essa “cura”. É um precedente muito perigoso que se abre na área das práticas sexuais minoritárias…

    Há ativistas pedófilos, sim, e os trabalhos que eles realizam giram em torno de dar as condições mínimas para que o sujeito possa, no mínimo, afirmar o seu desejo. Os posicionamentos são radicalmente contra o abuso sexual e há longas discussões, inclusive em nível acadêmico, sobre o que é ou o que não é ético fazer (a questão da pornografia produzida com computação gráfica, sem o envolvimento de crianças, por exemplo). Essas discussões são possíveis porque essas pessoas conseguiram se juntar e se enunciar. É melhor que seja assim, não? Que seja discutido, que seja pensado… Afinal, o problema aqui é o que uma pessoa É ou se ela se RELACIONA de maneira responsável com o mundo?

    Essa discussão me lembra a polêmica das comunidades do Orkut de bulimia e anorexia. Nós não queríamos que essas meninas fossem assim, em certo nível, talvez nem elas. Mas negar a existência delas e querer que elas próprias se neguem só vai piorar a situação.

  3. Oi Natalia,

    Será que há de fato essa criminalização do desejo, para além da conduta? Parece-me que os consultórios tem portas abertas para pessoas que confessem tal tipo de desejo e se dispoem a aprender a lidar com ele.

    Além do mais, o desejo sexual por crianças não possui o mesmo estatuto do desejo sexual por homens ou mulheres; não é uma questão de gênero, mas de prazer.

    E outra: o desejo não é fatalista, e sim dinâmico. Isso não significa que as pessoas mudam o desejo a bel escolha, mas sim que o desejo não é uma espécie de natureza inerte que justifique por sua vez as escolhas, não importando quais sejam.

    Em termos de prazer, evocando os elementos que você evocou – autonomia, questões éticas e responsabilidade jurídica e social -, não teríamos uma resposta clara? O limite de meu prazer é o bem-estar alheio, e nesse sentido não há diferenças entre o pedófilo e o violentador. Os dois possuem desejos, mas a realização desse desejo implica fatalmente subjugar o outro aos prazeres privados sem qualquer espécie de consentimento. Uma criança não desenvolve condutas explicitamente sexuais por “escolha”, “autonomia” e afins, por isso não faz muito sentido perguntar sobre “a autonomia da criança para dizer sim”… Para isso não deveríamos pressupor antes o nível de “autonomia”, para depois denotar se há possibilidade ou não de um “sim”? Quem é “a favor do relacionamento inter-etário” já deu uma resposta: não em função da constituição infantil, convenhamos.

    Muito embora a comunidade em questão não está interessada em nada disso, convenhamos. Ela deixou bem claro: “Somos contra os relacionamentos inter-etários atualmente. Seremos a favor somente após a descriminalização”

  4. Eu não conheço essa comunidade do Orkut em questão. Quando me referi a ativismo pedófilo estava me referindo a alguns grupos gringos como esse NAMBLA que de fato se preocupam com questões éticas. Uma das frentes de luta deles é justamente fazer essa separação do que fica apenas no campo do desejo e a prática criminosa. Há, por exemplo, esse fórum aqui: http://www.cblf.org/ que é o Christian boy Love fórum. Onde pessoas compartilham as dificuldades de se lhe dar com esse tipo de desejo. Com orações pedindo a Deus para serem normais, passagens bíblicas e coisas do tipo. Muitas vezes o tom auto-destrutivo dos depoimentos lembra os religiosos penitentes da Idade Média…

    Eu também falo do desejo como dinâmica, por isso eu pergunto se esse ódio contra os pedófilos não está se baseando em uma idéia de natureza monstruosa que eles teriam, que os cientistas e inclusive a psicanálise ajudam a reforçar. É dessa criminalização que eu falava. E de como no caso da “castração biológica” não só o crime está no nível do desejo como a punição está em impossibilitar o desejo. Se nós não conseguimos nos relacionar com essa idéia e inclusive colocamos ela no mesmo saco do estupro e de todas as porcarias e abjeções do mundo, como nós esperamos que essas pessoas consigam se relacionar com elas mesmas, com esse desejo sentido por elas? É possível lidar com desejos monstruosos? Quando você evita olhar para um lugar os monstros crescem mesmo…

    Negar a possibilidade de essas pessoas se organizarem e se “desmonstralizarem” é dizer que “eles que se virem, que o problema não é nosso”. Mas será que esse problema não está muito mais próximo do que conseguimos admitir? A sexualização das crianças na mídia é uma coisa gritante! Revoltante são aquelas crianças dançando de shortinho na TV… Estamos aprendendo a achar normal ver uma criança usando maquiagem e salto alto na rua e a perguntar pros mais pequenininhos em tom de brincadeira: “E aí? Quantas namoradas vc já tem no jardim?”…

    RE: Natalia,

    Creio que se há algo monstruoso nesses dois lados do “debate” mostrado por você é essa espécie de fatalismo do desejo, como se ele fosse algo irrefreável, imutável e sem recursos, e as únicas saídas seriam 1) A castração biológica e a imputação dos pedófilos como “monstros” ou 2) movimentos para “desmonstralizar” o desejo. Esse debate me parece um falso debate, extremamente preconceituoso em ambos os lados. Parece muito com o debate sobre a “cura dos gays”: de um lado evangélicos mostrando que a cura é possível, pois a sexualidade é natural e necessária enquanto a homossexualidade é arbitrária e contingente; de outro certos movimentos homossexuais dizendo o simétrico e o inverso: que a religião é que é arbitrária e contingente, enquanto a sexualidade é natural e necessária. Temos dois termos que forjam noções de sexualidade, mas que no fundo não tem muito a ver com a noção de sexualidade tal como se discute.

    O mesmo aqui: 1) sou totalmente contra medidas como a castração biológica e também considero que todo o aparato técnico-médico produz monstruosidades para manter certo tipo, digamos bem grosseiramente, de “status quo”. Como se o pedófilo fosse um monstro imutável, até agora incontrolável, que devesse receber uma pena definitiva. 2) Mas é totalmente letal, por outro lado, pressupor que, para além dessas categorias médicas, pode haver algo como “movimentos pedófilos” e uma pedofilia aceitável socialmente. É absurdo, como se vários Pierre Riviére montassem movimentos em prol da “desmonstralização” da degolação familiar, visto que existe uma maquinaria que os “monstrualiza” e portanto não podem assumir a possibilidade de, em alguns momentos da vida, o desejo ser arrebatador.

    Isso impõe a conclusão: o desejo é arrebatador para todos; mas não se trata, por isso, de sair por aí arrebatando, o problema que deveria ser discutido é bem outro e você o sinaliza quando diz que existe certa coincidência entre casos de pedofilia e uma certa erotização da criança presente até na TV.

    O que tem de errado nos dois movimentos? O que castra e o que afirma admitem ser a “condição pedófila” indelével do pedófilo. Como se todo ser humano não desejasse tudo a toda hora, como se – você mesma disse – certo tipo de desejo não estivesse implicado nos programas de TV que mostram as menininhas dançando tchan, enfim, como se o próprio pedófilo admitisse algo como o viciado em drogas, “enfim, sempre gostarei de crianças, sempre serei pedófilo e isso nunca mudará”, e portanto os outros é que deveriam aceitar esse desejo… Mas se tornarmos a pedofilia um AA generalizado, imaginemos o quanto é diferente, até nesse exemplo, a “recaída” de um pedófilo. Parece-me que o debate deveria passar por outro lugar que não esse.

    É como nos dois links acima, do post. As duas comunidades do orkut simplesmente querem validar desejos de violência sexual, travestindo-os com alguma pretensa “pureza”…

  5. Sabendo da sua luta contra alguma charlatão que propalava a cura da homossexualidade, gostaria de provocar – e aqui (é sempre preciso dizê-lo) não vai nenhuma apologia: curar ou tratar o pedófilo não iria no mesmo sentido? Se não, onde a diferença?

    Lembremos que a nossa preocupação só é possível a partir de uma nova visão da infância, hoje objeto de cuidados extremos e preferenciais. Basta olhar os efebos imberbes dos antigos (que não iam ao extremo dos quatro ou cinco anos, mas não iam muito longe dos dez, doze, creio eu) pra ver que nem sempre essa “relação interetária” foi um problema.

    RE: É verdade, o que o legado antigo nos traz é um problema totalmente diferente e outro assunto.

    Quanto à tua pergunta, trata-se de problemas na noção de desejo nos dois casos: na “terapia evangélica de reversão” há uma falsa noção de desejo e de sexualidade, portanto a terapia não é legítima; já no caso da pedofilia a castração biológica de um lado, e o “ativismo” de outro implicam uma falsa noção de desejo, um “fatalismo” nos termos acima; o que não significa que alguém enquadrado como pedófilo não deva se perguntar também sobre as implicações de seu desejo e portanto não se colocar nem no polo de um destino “pedófilo” incontornável, nem por outro lado na crença ingênua de que se muda o desejo por simples escolha pessoal. Agora, o problema de que o desejo individual pode interferir ou não na vida alheia é um problema incontornável.

  6. Não sei, Catatau, seu argumento sobre a questão da banalização do que seria a “recaída” me pega, é uma das coisas que podem acontecer. Mas isso que você falou de eu estar separando a questão de forma binária: em determinismo da monstruosidade e o “liberou geral” é você quem está dizendo. Não estou defendendo a descriminalização da pedofilia de maneira nenhuma. O “desmonstralizar” é tornar as coisas discutíveis, (por exemplo eu poder discutir isso aqui sem ter o meu discurso relegado ao pólo dos que acham que religião e valores morais são apenas arbitrários e contingentes), não é a ausência de valores éticos, pelo contrário. E me parece que justamente pelo fato de estar em um espaço público (orkut, comunidades) que essa discussão pode ganhar contorno ético. Estou justamente querendo mostrar que existem milhões de meios termos aí no caminho (nos quais estamos implicados e das mais diversas maneiras, inclusive contraditórias…) e em casos assim separar o joio do trigo é importante pra evitar o ódio generalizado. Separar pragmaticamente, exatamente para escapar ao fatalismo do desejo de que você falou: Separar o que é apologia e o que é discussão séria. O que se restringe ao campo do desejo e o que passa ao ato.
    Estamos falando de várias coisas diferentes que devem ser vistas caso a caso: existe o ativismo que faz apologia, que deve ser o caso dessa comunidade do Orkut que vc fala (não pude ver o link pq não tenho um login), isso é crime. E existem fóruns como o que eu falei, que reprovam veementemente não só a prática como também o desejo, mesmo sendo feito por “pedófilos”. E existem nuances… Complicadas de se avaliar.
    Enfim, tentei apenas complexificar um pouco essa discussão. Sei que é difícil não assumir uma visão polarizada quando se trata de um assunto que desperta sentimentos fortes, como o de repulsa mesmo. Mas a simplificação do Outro mais cedo ou mais tarde acaba nos pegando. Não generalizar é uma coisa necessária…

  7. Oi Natalia,

    Com certeza, não generalizar é necessário. Mas fiquei curioso sobre a que direção você sugeriria levar o debate. Parece-me que você evocou um pouco o fato de que imputações como a de “monstro” são importantes nem tanto para falar dos “monstros” quanto daqueles que os delimitam, isto é, nós mesmos.

    Por outro lado, você parece dar certa atenção a esses “movimentos” e o lugar que eles poderiam ocupar ou não. Você tem pesquisado algo a respeito?

    abraço,

  8. É, são debates que me interessam sim. Na verdade, eu fiz um trabalho de conclusão de curso de criminologia sobre esse tema. O enfoque da nova criminologia, (apoiada em Foucault), nos processos de criminalização anteriores ao estabelecimento da própria lei ( q a gente está chamando aqui de monstrualização)me fez ver nesse caso, do pedófilo, com os absurdos publicados por psiquiatras e jornalistas que passam completamente impunes, como é fácil e simples de acontecer coisas com as quais hoje nós ficamos horrorizados ao ler nos livros de história que foram cometidas contra mulheres e homossexuais. É claro que não estou dizendo que esses processos são iguais. Mas há coisas em comum que podem servir pra nos ajudar a pensar. A maneira como nos parece difícil olhar para as diferenças entre “pedofilias” colocando-as todas em ligação com o que há de pior, a “degeneração” e o estupro, diz algo sobre como funciona a lógica de ligação entre homossexualismo, “promiscuidade” e doenças. Uma coisa que se repete com outros grupos marginalizados.

    Isso também se insere na discussão sobre um novo posicionamento dos movimentos de minorias. Que para evitar a dispersão e algumas injustiças causadas por políticas de afirmação identitária (as “políticas afirmativas”), teriam que se apoiar na diferença como fator de união. Isso é muito bonito… O feminismo de Donna Haraway, por exemplo, ajuda a ter uma definição mais clara do que é “ser de esquerda” hoje em dia. Esse inimigo comum seria tudo o que se coloca como neutro e nomeia o que é estranho. Mas como aplicar isso a esses ativismos pedófilos? É um ponto em aberto…

    Isso tem que ser pensado, outro motivo é porque hoje em dia temos visto muitos grupos, que como esse, se organizam pelo direito de desejar diferente… Eu citei as comunidades de anorexia e bulimia mas tem outras… Por exemplo grupos pelo sado-masoquismo lésbico, que são um grupo discriminado pelo grupo de feministas que vêem nisso a objetificação da mulher… Olha q complicação!

    São as contradições do desejo q estão em jogo… Como no caso da sociedade que por um lado protege e por outro sexualiza a criança e a torna cidadã plena enquanto consumidora.

    E então não se trata de tornar o desejo coerente, mas de acolher a incoerência para criar novas formas de normatividade.
    Nesse campo ainda temos essa coisa da castração biológica, q é inquietante, né? A punição se apresentando como remédio. E o que tem de ser remediado agora não sendo uma categoria essencial de doença e nem uma atitude ou sintoma, mas o desejo.

    Enfim.. Teremos ainda outras oportunidades de trocar idéias. Eu sou leitora assídua do blog 😀

  9. “Christian boy Love fórum. Onde pessoas compartilham as dificuldades de se lhe dar com esse tipo de desejo. Com orações pedindo a Deus para serem normais, passagens bíblicas e coisas do tipo. Muitas vezes o tom auto-destrutivo dos depoimentos lembra os religiosos penitentes da Idade Média…”

    Eu queria ter ficado sério, mas eu ri muito.

    O mais curioso é saber que os jovens começam a vida sexual cada dia mais cedo. E as pessoas estão ficando adultas cada dia mais tarde. Contra-senso?

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