Sobre Curitiba, seu trânsito e seus memoriais

O prefeito de Curitiba, Beto Richa (PSDB), inaugurou essa semana mais um memorial na cidade, dedicado às vítimas do trânsito.

O memorial foi construído em espaço público (o parque Barigui) com financiamento privado, de diversas seguradoras. Segundo elas mesmas, ações como essa em todo o Brasil auxiliariam na redução da violência no trânsito "a curto prazo", junto com a conscientização das pessoas e projetos de educação.

Beto Richa engrossou o caldo:

"Este espaço foi projetado especialmente para ser uma reflexão sobre a violência do trânsito, que mata hoje mais que todas as guerras juntas", disse Richa. "A administração municipal vem trabalhando para a melhoria do trânsito de Curitiba, proporcionando mais segurança com a implantação de binários, pavimentação de ruas, sinalização e semaforização e campanhas de conscientização da população para um trânsito mais responsável, com paz e harmonia."

A inauguração desse memorial mostra a controversa relação de Curitiba com seu trânsito. Atualmente corre (ou melhor, anda) o julgamento do ex-deputado  estadual Luis Fernando Ribas Carli Filho: embriagado, com a carteira cassada e a 170 Km/h ele ocasionou um acidente com duas mortes, no ano passado. Por ironia do destino, esse mesmo deputado propôs uma lei que beneficia o "bom motorista", reduzindo o IPVA.

Em 2009/2010 a prefeitura licita os radares e as empresas de ônibus. Qualquer morador de Curitiba sabe do difundido tema: nunca houve licitação do transporte público, setor que o destino (?) legou a um único núcleo familiar. Se a situação é essa, a primeira licitação deixou o mal-estar: ela simplesmente significou uma renovação dos antigos contratos com as antigas empresas. Outras empresas contestam inclusive os critérios do edital de licitação, afins às empresas já atuantes (link acima).

Na mesma semana em que Curitiba sedia a Conferência Internacional das Cidades Inovadoras, ciclistas de vários movimentos, como o Bicicletada, reclamam o fato da prefeitura conservá-los em banho-maria. O belo discurso da prefeitura não convive com medidas concretas: "Consideramos um sarcasmo e uma demagogia o fato de Curitiba sediar um evento como este e ao mesmo tempo não haver avanços práticos na questão de mobilidade por bicicletas. Não há sequer um incentivo"[link].

O pessoal do Bicicletada já divulgou vários informes sobre reuniões prometidas pela prefeitura (especialmente diante de alguma cobertura jornalística), mas não cumpridas ou com promessas não efetivadas.

Isso tudo sem considerar o ruído, oriundo principalmente do trânsito. A prefeitura de Curitiba possui um serviço, o 156, para reclamações e solicitações. Sobre reclamações relativas à poluição acústica (até mesmo as fundadas em leis vigentes), a prefeitura empreende um curioso empurra-empurra: reclamações protocoladas no 156 são encaminhadas à Secretaria do Meio Ambiente e à URBS. Cada entidade afirma não ser atribuição sua a medição de ruído oriundo de fonte móvel, apenas de fonte fixa. No meio do jogo de pingue-pongue os meses passam, os protocolos se dissolvem e as respostas da prefeitura vão da reticência à negação.

Curiosamente, ninguém vê reticência alguma em outras alterações no trânsito, especialmente coincidentes com certos empreendimentos imobiliários, ou outras obras que diminuem o espaço do pedestre em prol de mais carros (estes, os players supremos quando a prefeitura considera o fator "mobilidade").

Durante a inauguração do Memorial o discurso foi como de costume: os problemas do trânsito são culpa dos infratores do trânsito.  É o velho argumento da "conscientização", com medidas mais ou menos paliativas para que ela ocorra. Gestores tão auto-declarados pragmáticos são pegos pelo próprio discurso: o memorial serve para "refletir" (sic). Embora a noção de "conscientização" seja meio tola (qual motorista não tem consciência das consequências possíveis de suas ações?), é verdade que existe uma cultura generalizada de imprudência (e também de impunidade). Mas também é verdade que esse tipo de argumento representa uma total isenção da responsabilidade da prefeitura: aspectos como fiscalização, atendimento às reclamações via 156 e investimento real e efetivo em transporte público são, desse modo, facilmente deixados de lado. Quando muito, as medidas se dirigem exclusivamente ao fluxo de carros.

Ironia: o Memorial fica na parte de trás do Parque Barigui, escondido… bem atrás do Museu do Automóvel.

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5 comentários sobre “Sobre Curitiba, seu trânsito e seus memoriais

  1. Só como termo para uma comparação entre culturas, saiu uma reportagem muito interessante na New Yorker sobre o prefeito de Chicago, cidade que, ao contrário de outros centros industriais como Detroit se renovou e tem uma vitalidade muito grande. Poderíamos dizer que a prefeitura de Chicago tem uma fama meio como a de Curiba no Brasil e tem sido dominada por décadas literalmente pela mesma família [pai e filho juntos devem ter mais de trinta anos de prefeitura]. Muito curioso como certos mitos brasileiros [rouba mas faz, democrático ou autoritário o mais importante é fazer as coisas] aparecem na reportagem. Vale a pena.

    RE: Muito interessante, Paulo. Vc tem o link?

    No caso de Curitiba, trata-se de uma curiosa dinastia que domina democraticamente (rsss) a cidade desde uns 20 anos. Tal dinastia foi depurada quando, após certos escândalos, a imprensa soube muito bem desvincular a imagem de Beto Richa da imagem de Cassio Taniguchi. Desde então Richa segue, “incólume”, rumo ao governo do estado.

  2. Mais uma incoerência: o memorial foi inaugurado após um fim de semana com 3 eventos automobilísticos importantes na cidade, de várias categorias. Apoiados pela prefeitura. Aliás, o prefeito quer que o WTCC ano que vem não aconteça no autódromo, mas nas ruas do Centro Cívico.

    Assim os motoristas vão ficar cada vez mais conscientes mesmo.

  3. Tentei achar o link mas online o artigo está restrito a assinantes. A “dinastia” domina a cidade com pai ou filho como prefeito por 42 dos últimos 55 anos! Tem um resumo em http://www.newyorker.com/reporting/2010/03/08/100308fa_fact_osnos
    Acho o artigo interessante tbm para quem quiser entender melhor quem é Obama, porque ele é um político de Chicago e teve que passar pelo prefeito e a máquina do partido democrata e o fez “pragmaticamente”. Só para dar uma idéia, a esposa do Obama trabalhou para a prefeitura e o pai dela [família tradicional de Chicago] era da máquina eleitoral do pai do Daley e figuras importantes do governo federal hoje, ministro da educação, Daniel Axelrod [principal assessor], Rahm Emanuel [chefe de gabinete] e Arne Duncan [ministro da educação] têm todos ligações fortíssimas com o prefeito e a máquina democrata de Chicago.

    RE: Muito interessante!
    Obrigado pela indicação.

  4. Quer dizer que o memorial fica escondido? Seria a versão do Richa para o nosso muro da vergonha?

    Sei, e este cara que governar o Paraná. Deus nos acuda!

    RE: Digamos que não fica propriamente escondido, embora fique escondido atrás do Museu do Automóvel, rssssss

  5. Oi Catatau,

    Ainda que haja as bem assinaladas incongruências na atitude dos gestores municipais curitibanos, entendo que ideia do memorial é bem-vinda.
    Não há pessoa no Brasil que não tenha perdido um próximo (familiar ou amigo) em um acidente de trânsito. É uma sangria. Durante o tempo em trabalhei em hospitais públicos e no SAMU, fiquei realmente impressionado. Há que se “conscientizar” a população.
    Quanto às bicicletas, o Brasil está aderindo com relutância a esse fantástico meio de transporte. Somos um país do culto ao carro. Não vejo como cidades como Curitiba e Rio se transformem em versões brasileiras de Copenhaguen e Amsterdam, cidades que cultuam a bicicleta.
    Carro no Brasil é símbolo de poder, de status, e bicicleta é “coisa de pobre”, como diriam nossas classes endinheiradas e acívicas… Mas a Europa já demonstrou: o desenvolvido é andar de bicicleta!

    Abraço

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