O cão de meias vermelhas

Quem assistiu Além do Cidadão Kane, ou mesmo já andou na rua pelo Brasil, viu que certos cães recebem tratamento privilegiado e mais sorte do que muita gente. Quem não viu a cena da dondoca ou da senhora solitária absorta em conversas com seu cachorrinho, desviando-se do mendigo maltrapilho na beira da rua? O cachorrinho todo perfumado, pêlo escovado, mais liso e cheiroso do que muita gente por aí; o mendigo ali, com fome, mal olhado, sem perspectivas.
 

Aliás, só esse fenômeno da conversa com o cachorro já dá pano pra manga: na rua ninguém conversa com ninguém. Mas aquele indivíduo com o cachorrinho passa alegre, troca palavras, faz perguntas ("vamos por ali?"), não economiza afeto e zelo ("rápido, cuidado!", "ei, você não viu isso?", "estamos quase chegando em casa, viu?"). Mas espera aí: esse indivíduo que conversa desenvolto com seu cachorrinho, está conversando com quem? Quem seria, de fato, seu interlocutor?
 
Um simples animalzinho, é a resposta. Mas não é tão fácil assim, ela não deixa de ser assustadora.  Se as palavras, os afetos, os cuidados, são todos dispensados com um cachorrinho, onde se investe o silêncio, os sentimentos não reconhecidos, os descuidos?
 
Caso de psicólogo? Pouco provável. O fenômeno é mais global, não se reduz a problemas individuais, mas diz respeito a como os homens  se relacionam consigo mesmos, com seus vizinhos, com seus "iguais", e enfim, com cachorrinhos. Obviamente, não há nenhum mal em ter um cachorrinho. Mas, e quando as pessoas passam a ter relações ‘humanas’ com animais enquanto desconhecem o nome dos vizinhos?
 
Na falta de respostas, a cada dia aparecem cenas cada vez mais curiosas. Dias atrás, um dono zeloso conduzia um cachorro usando ‘cadeira de rodas’, ou algo parecido com isso: duas rodinhas ligadas a uma armação, embutidas nas patas traseiras para que o cachorro perneta pudesse se locomover. E hoje uma senhora andava e conversava desenvolta com um cachorrinho adorável. Pêlo branquinho, escovado, suave, e meias vermelhas para… proteger as patas? 
 
***
Tudo para deixar dois links interessantes: Conforme a New Scientist, cachorros de estimação poluem mais do que camionetes.
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5 comentários sobre “O cão de meias vermelhas

  1. Concordo com as premissas, mas não com a conclusão. O artigo da New Scientist erra porque, enquanto mensura os custos ambientais de produção da ração e complementos animais, não mede o impacto da produção de veículos, mas apenas do consumo e manutenção.

  2. Este é o tipo de informação que os “verdes” aburguesados consideram inconveniente, tipo a info que talvez um novo carro novo não seja uma boa contribuição ao ambiente.

  3. Aqui na Babilônia me surpreendo assistindo TV outro dia com um anúncio de comida “gourmet” para cães de paladar refinado e li reportagem sobre um cara na Califórnia que tira uma amostra do DNA do seu bicho de estimação para vc poder cloná-lo caso ele morra – claro que tudo isso por uma modesta taxa.
    Eu até gosto de animais de estimação, mas como diziam os desenhos animados de antigamente, “isso é ridículo”!

  4. Acho que 50% dos donos de cães e gatos deveriam visitar um psicólogo. Mas já tive uma Golden Retriever e uma Husky, e lhe digo que um cão pode ser realmente amável com seu dono, e isso se tornar uma amizade.
    Porém, essa frieza com o próximo, com o coletivo, só tem crescido. Basta lembrar que hoje primos não mais se encontram em reuniões familiares, é tudo por msn. Se cresce com uma unica base, os amigos de escola, e venhamos, na internet e na escola está cada dia mais difícil filtrar o que é bom ou não.

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