Ler é chato

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Fernando Botero, Woman Reading 

Moça: É, tem que ler, né?

Moça2: Eu tenho uns livros em casa. Um é de hipnose, e o outro de psico-neuro, acho que é neurolinguística, né?

Rapaz: Eu nunca leio, acho que ler é uma chatice, e já basta o que me botam pra ler na faculdade

Moça: Eu também nunca leio, é só começar a ler que já dá sono. Até hoje li só um livro na vida, porque o professor cobrou. Senão… Tenho uma amiga que lê sempre, é a mó filósofa. Sempre quando preciso saber como se escreve uma palavra pergunto pra ela, e ela sempre sabe, quando se deve colocar um ou dois "S"

(pausa)

Rapaz: É, o negócio é o dólar mesmo.

***

Hoje eu separava alguns textos para uma disciplina eventual, quando lembrei de certa experiência docente. Certo dia, em conselho de classe, explicitei aos colegas professores o fato de como era difícil ministrar, em um curso de humanas, textos pequenos, de dez páginas, mas completamente cabíveis aos assuntos em questão. 

A resposta, vinda do professor de didática, foi impressionante: "Você considera difícil ministrar textos de dez páginas, e  alguns alunos ainda lêem? Eu recomendo apenas três, e já acham pesado demais!"

"Pesado demais", diga-se, era argumento suficiente para que um professor não ministrasse textos a um aluno de ensino superior. Obviamente, dado que se trata de um ensino dito "superior", supõe-se que, como um aluno de exatas conhece matemática básica e aprende e desenvolve operações complexas durante todo o curso, um aluno de humanas conhece língua portuguesa e interpretação – em tese, lerá durante todo o curso.

Não se ergue um edifício – real ou feito de argumentos e conceitos – sem uma formação prévia.

Ler, entretanto, não era uma exigência rigorosa no curso em questão. O que leva à consideração: como os alunos assimilam informações complexas em um curso de humanas? Certamente um professor pode trabalhar muito nas poucas horas de aula, mas apenas elas bastam? Por melhor que seja o professor – e o datashow e o retroprojetor -, as aulas sozinhas não chegam muito longe, sem recurso a nenhum material, especialmente o texto.

Ainda mais quando se trata de informações complexas – não se supõe com tanta seriedade que um curso de humanas é "complexo" por enfocar o "homem"? Olhando ao redor, é flagrante tal "complexidade" conviver com tanta moleza intelectual.

Ora, as disciplinas "humanas" são tão complexas quanto todas as outras, e é no mínimo estranho tanta seriedade conviver com pouca leitura. Se um curso de humanas não precisa de informações complexas e um "cientista humano" inevitavelmente lida com pessoas, precisaríamos perguntar sobre que tipo de ação faz o cientista humano quando age sobre as outras pessoas, visto que a ação não parte de textos, portanto de nenhum conjunto de conjecturas complexas sobre o "complexo" homem. Finalmente, é assustadora a informação de que os alunos não aprendem por falta de leitura. O que fazem, esses cientistas humanos que não estudam ciências humanas?

***

Seguiriam eles certas tragetórias políticas? 😉

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5 comentários sobre “Ler é chato

  1. O Brasil se perdeu ao passar da cultura da oratória para a cultural da videosfera, sem a cultura da leitura. Uma pena, e mesmo políticas de incentivo a leitura serem muitas, não há quem faça brasileiro ler.

    Tenho palpitado sobre uma teoria: http://formigueirocomunista.com/sss/2010/04/o-inebriante-exterminio-das-bibliotecas/

    Abraço!

    RE: Oi André!

    Não sei cara, parece-me que teu argumento é muito bom, mas válido em um mundo de leitores. Em um mundo de leitores e carente da circulação espontânea de livros – mantida pelos próprios leitores -, com certeza as bibliotecas servem mais para atrapalhar do que para ajudar. Elas interrompem os fluxos.

    Mas em nosso mundo, considerando ainda a internet, serão as bibliotecas – ainda mais com a possibilidade de digitalização e distribuição pública de conteúdo on-line – entidades que interrompem o conhecimento? Na medida em que elas cobram patrocínio de empresas ou acesso de leitores, com certeza são um obstáculo ao conhecer, pois o acesso “privatizado” nunca é desinteressado. Mas em medidas públicas de financiar digitalização e distribuição com acesso livre para todos, aí está um bom papel das bibliotecas, não é mesmo? Concordando com seu argumento, aí elas deixam de ser bibliotecas, não obstante continuando bibliotecas.

    Muito embora permanece o problema de termos ou não uma cultura de leitores que sustente a leitura.

    Abraço,

  2. Tocou num ponto essencial. Reflexão sem leitura é picaretagem pura, não tem jeito. Meus alunos de primeiro ano lêem em média 60 páginas por semana só no meu curso. Não tem outro jeito.

    RE: Paulo, o que parece impressionante em nossas terras é precisamente esse “outro jeito”. Por aqui é incrível: isso ocorre cotidianamente, às vezes por pressões institucionais, às vezes informais, mas sempre sob ordenanças com efeitos bem concretos. Faculdades (“facul”, como dizem os alunos) florecem aos montes e muita gente se forma nesse esquema.

  3. É triste, Catatau, profundamente triste…

    Tão trágico como as pessoas que não gostam de ler são aquelas que lêem apenas um Livro e que acham que nele estão as respostas a todas perguntas imagináveis…

    E tem outro aspecto trágico: o quê se lê no Brasil. Dan Brown, Danielle Steel, Coelho, best-sellers que lotam as Laselva “Megastore” da vida. Aliás, já não há mais livrarias no Brasil. Só Megastores, que mais parecem supermercados de livros do que livrarias. Vendem livros como vendem escovas de dentes. Pessoas que não conhecem livros, que não amam livros… E se põem a vendê-los…

    Sempre gosto de entrar nas livrarias e mexer nas estantes, sem recorrer a vendedores. Quando me faltava “O Retrato” para continuar a saga “O Tempo e o Vento”, eu estava tão louco para continuar a estória (e o livro estava em falta em Belo Horizonte), que deixei de lado meu hábito de não recorrer a vendedores e chegava logo perguntando:

    — Tem O Retrato, de Érico Veríssimo?

    Numa dessas, ouvi um vendedor gritando para outro:

    — Ô fulano, tem foto do Érico Veríssimo aí?

    Deprê, né?

    Abraço!

    RE: Também já passei por umas dessas. Será receita universal? Como O Tempo e o Vento repete várias vezes, “ê mundo velho sem porteira!”

  4. Aquí um argumento de Andre HP: “O Brasil se perdeu ao passar da cultura oratória para a cultura da videosfera, sem a cultura da leitura” é uma curta e perfeita análise do que aconteceu no Brasil nesses últimnos 15 anos. Nao se le mais textos longos e analíticos e de conteúdo. Melhor é ler em morse: um traco eu um ponto. O que o “www” nos dá de velocidade no acesso ao conhecimento, provoca a preguica de ler mais que 3 linhas. Eu sou da geracao “rato de biblioteca”, de pegar livro e digerir cada palavra.E pergunto: O que será da geraco pós www? Que profissionais estao sendo gerados nessa nova cultura fragmentada? Remo contra a maré. Meus textos no O Pensador Selvagem sao longos sim e vao continuar assim.

    Solange Ayres
    Saudacoes
    D`Este País, Alemanha
    O Pensador Selvagem

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