O inequívoco equívoco

A Assembléia Legislativa do Paraná prometeu no fim de semana divulgar até segunda-feira (ontem) os resultados de sua Comissão Interna de Sindicância, que apuraria as denúncias feitas há 40 dias pela Gazeta do Povo.
 
Após a prisão de diversos integrantes dos esquemas denunciados, a comissão interna recuou: não divulgou os resultados, prometendo-os  para o Ministério Público apenas após as devidas reuniões a portas fechadas.
 
Dupla falta de publicidade e transparência: o cuidado para não divulgar detalhes ao público acompanhou novamente o grave costume de reuniões que possuem tudo, menos transparência. 
 
Com as deliberações feitas a portas fechadas, o "resultado" veio com a agilidade de um sintoma típico de psicanálise:
 A Assembleia Legislativa do Estado do Paraná, através de ato da sua Mesa Executiva, instaurou em 5 de abril do corrente ano uma Comissão de Sindicância para apurar as denúncias sobre funcionários fantasmas, desvio de dinheiro público, pagamento de supersalários, problemas com aposentadorias, publicadas na mídia.

 A comissão realizou o seu trabalho fazendo oitivas com as pessoas envolvidas, analisou documentos e fez diligências, constatando ao final pela existência de diversos fatos irregulares, bem como pela violação de normas legais, e ausência dos deveres a serem observados pelo funcionário público, como por exemplo: lealdade e respeito às instituições constitucionais, além do fato de alguns deles terem se valido do cargo para lograr proveito pessoal em detrimento da dignidade da função e prejuízo ao erário público.

 A comissão opinou pela abertura de Processo Administrativo Disciplinar contra os três ex-diretores da Casa: Abib Miguel, José Ary Nassif e Cláudio Marques da Silva.

 A Mesa Executiva vai encaminhar cópia do relatório ao Ministério Público do Paraná, que investiga no âmbito criminal as referidas denúncias. A Assembleia Legislativa do Estado do Paraná continuará apurando as denúncias dentro do processo administrativo competente e colaborando de maneira inequívoca com todas as investigações em curso no Ministério Público.
"Sintoma": o caráter lacônico, público e transparente da nota oficial acima é perigosamente coextensivo à verborragia opaca e a portas fechadas das reuniões. Tão pouco e pobre conteúdo manifesto não consegue ocultar, por trás dos panos, um grande jogo de negociações, conjecturas, ajustamentos, conchavos e panos quentes.
 
De algum modo a Comissão Interna teve que recuar diante das prisões do fim de semana. De algum modo seus integrantes tiveram discussões ao mesmo tempo oficiais (pois no contexto de uma Comissão) e extra-oficiais (pois não públicas). De algum modo o velho tema tão comentado pelos intérpretes do Brasil – o de que as ações institucionais se mesclam perigosamente com interesses privados e exteriores às instituições – fez-se presente. Tudo se apresenta de modo enviesado, apontado negativamente pela falta de publicidade e pelo pobre informe oficial.
 
Ademais, o editorial da Gazeta do Povo hoje disse tudo: tanta morosidade, tanto segredo, são absolutamente gravíssimos. Os acusados se defendem com os mesmos mecanismos pelos quais são acusados!
 
Ou senão, lembremos do presidente da Assembléia, Nelson Justus (DEM), declarando 30 dias atrás:
Eu iniciei com todos os senhores e senhoras esse processo de transparência. Que não tem volta. E isso já ficou esclarecido. Portanto, doa a quem doer, esta comissão vai apurar todas essas denúncias. Uma a uma. E eu até encareceria a Gazeta do Povo e a RPC que vai dividir essas denúncias em nove capítulos, que pudesse, até para que ganhássemos tempo com isso, que me trouxesse todas elas. Porque nenhuma ficará sem resposta. Nenhuma! Nós vamos apurá-las todas. Podem ter certeza.
Impressionante!
 
 
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