Loucura de um, loucura de todos

O jornalista norte-americano Ethan Watters publicou um livro que parece muito interessante: Crazy Like Us: The Globalization of the American Psyche" (Loucos Como Nós: A Globalização da Psique Americana).
 
Segundo informe e entrevista publicados na FSP/UNIAD (entrevista reproduzida abaixo), o livro sustenta que tanto as perspectivas diagnósticas, quanto o tratamento das doenças mentais conforme padrões norte-americanos, afetaram antigas práticas e até mesmo olhares sobre as "doenças mentais" existentes em outros países.
 
Só por essa idéia o livro já vale uma boa discussão. Não encontraríamos, soldadas a esse alastramento das noções norte-americanas,  diversas premissas da biologia e das neurociências?

 

FOLHA – O que o levou a se interessar por doenças mentais?
ETHAN WATTERS – Na década de 1990, escrevi um livro com Richard Ofshe sobre a controvérsia em torno da recuperação da memória. A psicoterapia americana havia levado mulheres a relembrar abuso na infância. As memórias não eram precisas. Em alguns casos, os fatos nunca ocorreram. O livro falava sobre a manipulação de memórias. A expressão da doença mental é moldada pelo ambiente, pelo indivíduo e também pelo responsável pelo tratamento. Quais sintomas são legítimos em cada época? Comecei a pensar sobre a globalização e sobre como os EUA são responsáveis por categorizar essas doenças e preconizar seu tratamento.

FOLHA – Quem se beneficia?
WATTERS – As fabricantes de remédios são as que mais se beneficiam, ao fazer com que o mundo pense de uma mesma forma sobre doenças mentais. Elas apresentam o cadeado e mostram a chave. Claro, muitas pessoas avaliam que as doenças mentais devem receber tratamento semelhante em qualquer lugar. Há um elemento bioquímico que persiste, apesar das diferenças culturais. O que discuto é que, quando você desconsidera os aspectos culturais, deixa de apreciar particularidades, como a capacidade de se adaptar a mudanças.

FOLHA – O sr. dá o exemplo da anorexia em Hong Kong, que originalmente não estava ligada ao medo de engordar. Se os sintomas não são iguais, qual é a validade do diagnóstico para o doente?
WATTERS – Se houvesse um medicamento com um único modo de ver a anorexia, faria sentido ter um diagnóstico único. Não existe um padrão único para a doença. A esperança é entender os indivíduos que apresentam a doença, o ambiente e sua cultura. A solução única para os casos é problemática.

FOLHA – Quais são as consequências dessa homogeneidade?
WATTERS – Vamos perder as formas de tratamento de doenças mentais existentes em diferentes culturas. Não estamos só exportando nossas ideias para o resto do mundo e as impondo. O resto do mundo tem fome de ideias do Ocidente. Se nós exportamos nossos modelos de tratamento e medicamentos, podemos perder informações sobre o ser humano e sua complexidade que seriam benéficas para todos nós.

FOLHA – Mas as demais culturas assimilam passivamente o que os EUA pregam em termos de tratamento?
WATTERS – Não. Há sinais de retrocesso na farta disseminação de antidepressivos no Japão. Já existem psiquiatras questionando o uso indiscriminado. Perguntei a pesquisadores sobre o efeito dessa política de exportação de tratamento e a resposta é que isso é inevitável. Minha esperança é que isso possa ser conciliado com um entendimento local dos casos.

FOLHA – No livro, o sr. relata como a descrição de casos públicos de doenças contribuem para a sua popularização, a partir da identificação do público com os sintomas. O sr. cita a entrevista de Lady Di sobre bulimia e o crescimento posterior no número de casos. Isso não é inevitável?
WATTERS – É complicado, trata-se de um processo inconsciente. Os jornalistas são uma parte crítica dessa equação. Onde começa a responsabilidade de narrar histórias sobre novas doenças? Não digo que se deve reter informação, mas não é uma resposta simples. Se considerarmos tópicos tabus, como o suicídio, há regras. Deveria haver um cuidado similar com as doenças mentais. É preciso que editores e repórteres discutam, quando vão descrever um novo tipo de comportamento autodestrutivo. Existe incidência significativa? É uma discussão válida.

FOLHA – O sr. mostra como os psiquiatras que chegaram ao Sri Lanka logo após o tsunami não levaram em conta as necessidades locais, mas achavam que estavam fazendo o melhor ao oferecer tratamento para estresse pós-traumático.
WATTERS – A mensagem que eles apresentaram é que detinham o aparato e a experiência para entender o que aconteceu, e que a população precisava do conhecimento ocidental. É uma mensagem destrutiva. Existem crenças próprias e uma capacidade de superação na cultura local que ajudam a lidar com essa situação. É uma ideia particularmente americana, a de que somos capazes de entender o significado do estresse pós-traumático.

FOLHA – O sr. encontrou algum exemplo recente na América do Sul?
WATTERS – Encontrei o aumento do consumo de antidepressivos na Argentina, em um cenário de hiperinflação. Os anúncios sugeriam que era um tempo de ansiedade e as pílulas deveriam ser usadas para suportar o ambiente econômico. A América do Sul já sofre uma grande influência sobre doenças mentais, não só dos EUA como da Europa.

FOLHA – Após a explosão da crise, esse aumento de vendas está mais visível em outros países?
WATTERS – Quando estava terminando o livro, houve a explosão da crise, e quase instantaneamente vi empresas tentando vender remédios contra suicídio e depressão.
A instabilidade econômica pode levar a um aumento da ansiedade, mas a questão do livro é que não há um jeito único para o ser humano expressar psicopatologias. A crise pode aumentar a incidência, mas a mente humana e a consciência agem de maneiras distintas.

 

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