Nós vamos estar fazendo

No Brasil existe tanta maracutaia quanto circunstâncias ligadas a ela. Existe uma linguagem em "caixa alta" ligada a constrangimentos ilegais, enrolações e corrupção.
 
Por exemplo: na recente crítica de Miriam Leitão a Katia Abreu (PFL-TO), é flagrante o sentimento de "estranheza" de Leitão sobre a senadora de Tocantins bater tantas vezes a tecla em critérios que nunca deveriam ser discutidos, como o bem-estar do trabalhador rural e condições mínimas de trabalho (mínimas mesmo – água potável, por exemplo). 
 
Ora, a verborragia de Katia Abreu só depõe contra ela, pois indiretamente ela diz tudo o que nunca deveria ser dito. E a crítica de Leitão também depõe contra sua posição de jornalista da Globo – não é o crédito concedido pela emissora à senadora de Tocantins  infinitamente maior do que a crítica da pequena coluna?
 
Outro exemplo: as reuniões e perpétuas comissões de portas fechadas, realizadas pela Assembléia Legislativa do Paraná. Com dados materiais e documentais a imprensa local elaborou diversas denúncias contra deputados e funcionários da Casa. A linha mestra das denúncias é a ausência de transparência e o uso dessa falta de transparência para benefícios privados dos funcionários e deputados.
 
Como a Assembléia responde a essas denúncias sobre a opacidade da Casa? Com opacidade, ora bolas.
 
E daí em diante, o deputado estadual fala, com leve rouquidão, sobre a "genial" iniciativa de transferir a obrigação de fiscalizar as instituições à iniciativa individual dos eleitores, não mais à normalidade institucional. A entonação forçosamente terna e a delicadez no falar unida à idéia indigesta, como não afirmar que o discurso esconde (ou melhor, nesse caso nem esconde tanto assim) algo não dito?
 
Numa ponta da edição o jornal acusa a administração pública (mas só quando o jornal desempenha papel de oposição) de não contratar funcionários suficientes; na outra ponta acusa a mesma administração por abrir editais de concurso ("estão inchando a máquina pública!").
 
O político dos conchavinhos locais, dos partidos interesseiros: geração após geração, ele repete o chavão que, se funcionasse, deveria terminar na geração anterior: "… para o desenvolvimento de nossa região".
 
Isso sem contar outro chavão, dos mais frequentes: as crianças ou os estudantes são "o futuro do país" (chavão novo: "o futuro do Planeta").
 
A fala dos políticos e seus recursos retóricos chinfrins são prato cheio para programas como a Câmara dos Deturpados, de Marco Bianchi.
 
Às vezes parece que não aprendemos bem com os operadores de telemarketing. Muitos discursos de esfera pública, no Brasil, dizem muito mais do que o dizem. Ou senão vejamos a atuação das telefônicas pelo resultado: se o uso de um verbo denota uma ação, avaliemos a eficácia do telemarketing pelo discurso: "nós vamos estar fazendo" é perfeito. Eles sempre vão estar fazendo, eles sempre estarão indo fazer.
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