A era da confissão

Nos blogs, no twitter, na TV, a confissão está em todo lugar. Ou ela é voluntária, ou fabricada e constrangida: não importa se vinda do próprio autor ou do paparazzi, ela figura como moeda de troca, imperativo, fruto do interesse de bilhões – transparência pública, transparência privada.
 
Quinze anos atrás a internet, ou pelo menos alguns debates nela presentes, despontavam sob o imperativo do anonimato, não da confissão. Segundo esses debates, o hipertexto e suas possibilidades rizomáticas oferece a ocasião de trazer para a "vida real" relações "virtuais", hipertextuais (e mesmo oferece também a necessidade de desqualificar essa divisão entre real e virtual): ter voz ativa, liberdade de denúncia ou a possibilidade de conhecer outras pessoas sem considerar aspectos hierárquicos ou autorais, estas eram as vantagens discutidas do anonimato (daí a beleza de sites como O Baile de Máscaras, hoje extinto: por trás das "máscaras" virtuais, a possibilidade de desenvolver relações autênticas com outras pessoas – a sedução pelo afeto e pela idéia, e não simplesmente por seu autor). Se o anonimato era transgressivo, de modo algum ele se reduzia à regência e ao princípio de conteúdos simplesmente passionais.
 
Curiosamente, enquanto a "vida real" transforma (ou tenta transformar) gradativamente o hipertexto em apenas texto (não importantando se esse texto emula caracteres hipertextuais), enquanto qualquer indivíduo é constrangido a se encerrar no que pode dizer, mas sobretudo no que deve, sites como o Cheat Confession aparecem.
 
O site é um redobramento do texto virtual sobre si mesmo (e portanto não é um hipertexto): se toda manifestação só pode ser autoral e portanto de maior ou menor modo confessional, criemos um espaço para  unir a confissão e o anonimato, sem deixar o primado da individualidade autoral e passional de lado. Se a função do anonimato era o encontro, no Cheat Confession é a separação mediada pelo aprazimento privado. Trata-se do mero gozo de contar aos outros a ofensa cometida a outrem, sem colher daí consequências negativas. Se antes o anonimato envolvia apelo à figura de um outro e o cultivo de verdadeiras relações, agora o apelo é à satisfação privada, portanto um não-apelo: outros gozarão lendo milhões de confissões secretas, ironicamente tão secretas quanto multiplicadas aos milhões.
 
O site Cheat Confession nem é interessante. Interessante é a tendência mostrada por ele: imperativo de uma confissão generalizada, redução das falas ao papel visível de um locutor (mesmo o anonimato é relativo), redução das relações sociais ao âmbito privado, codificação, controle e "monetização" de todo tipo de acesso à Rede. Como se até o anonimato, agora idiotizado, encontrasse um espaço de expressão, mediado por moderadores e regras de um FAQ.
 
Curiosa tendência, bem como as discussões ainda vivas sobre as possíveis saídas.
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