A “soberba” dos “maiores”

Essa reportagem da Globo/Sportv sobre o Paraguai é grave.

Ela apresenta Larissa Riquelme, bela torcedora paraguaia que prometeu desfilar nua em Assunção, se a seleção cheguar às etapas finais.

Até aí tudo bem, trata-se de uma anedota jornalística construída sobre outra, a promessa de Maradona.

Mas depois a reportagem desemboca em puro preconceito, sarcasmo e menosprezo contra o país vizinho.

Que a cobertura da Globo tematiza nossos vizinhos de uma forma negativa, da economia à política,  da cultura ao esporte, para constatar isso basta ligar a TV (especialmente nos jornais da manhã e da meia-noite). Mas a reportagem acima supera qualquer entonação ou comentário dos âncoras.

De onde vem esse tipo de preconceito? Certamente boa parte da cobertura na África, por exemplo as patéticas reportagens sobre os pinguins, são de péssima qualidade. Mas dizer que aqueles pinguins "estão descansando", enquanto os outros "preferiram andar por cima das pedras" e esses outros "ficam deitadões na praia", enfim, não acrescentar nada em uma reportagem que poderia ser jornalística é muito menos grave do que mostrar imagens de urubus e sacoleiros, enquanto se descreve sarcasticamente as "belezas naturais" e "urbanas" do Paraguai.

Boa parte das imagens poderiam muito bem ser feitas em vários locais do Rio de Janeiro ou São Paulo.  Nosso país possui muitas dificuldades e perfis semelhantes aos países vizinhos. Como já disse o psicanalista francês Felix Guattari, as intrigas pessoais e disputas regionais apenas nos impedem de enxergar os verdadeiros problemas. Sobre isso, a martelada de La Nación sobre a Globo é uma belíssima lição:

La "Naranja Mecánica" se encargó hoy de acallar a la soberbia brasileña con un aleccionador 2-1. El seleccionado verdeamarello que llegó como favorito a cuartos de final de la Copa del Mundo vuelve a casa con el rótulo de "fracaso rotundo". El resultado es un golpe bajo para todos aquellos aficionados, periodistas deportivos y medios de comunicación del vecino país que ya se sentían campeones del mundo antes de jugar los partidos y que -en algunos casos- se burlaron incluso de Paraguay al que parodiaron en un criticado video de Sport TV de Globo. [texto, créditos do Somos Andando]

***

E a Sportv se pronunciou, pedindo desculpas. Ressaltando na nova reportagem o valor de uma Copa "unir" os povos, o canal dedicou melhores palavras ao país vizinho.

Mesmo assumindo o erro, fica a pergunta: um erro não depende de acusação, mas de constatação; se a reportagem não recebesse tantas críticas, barulho e visibilidade, o canal se retrataria? A resposta a isso diz respeito a como se definem os valores da cobertura.

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6 comentários sobre “A “soberba” dos “maiores”

  1. Já vinha observando isto. A mediocridade da Globo parece não ter limites. Ontem foi a vez da Argentina. Hoje o UOL disse que a Holanda e o Uruguai são países nanicos!

    Perdeu-se o respeito por completo. Fazer brincadeiras sobre o futebol até vá lá, mas perpetuar esses ridículos gracejos não dá. Puro preconceito com os nossos vizinhos que, na maioria das vezes, mostram profundo respeito e amizade por nós.

    As famosas brincadeiras do Galvão Bueno contra Argentina ajudaram a forjar este modo coletivo de pensar sobre os vizinhos.

    É triste, envergonho-me cada vez mais de fazer parte deste povo brasileiro.

  2. Eu acabei mandando um email para lá. A união contra este tipo de reportagem dá resultado.

    Outra baixaria é aquela central da copa. Não sei o nome do loiro que apresenta, mas o sujeito é muiito ruim, tosco mesmo, com seus comentários idiotas.

    a grande porcaria é que a Globo é a única emissora que pega bem aqui no apto. Mas acho melhor deixá-la desligada.

  3. Há ainda o fator histórico/cultural da relação Brasil X Paraguai a ser considerada.

    A tal da rivalidade Brasil X Argentina é muito mais com fins publicitários do que de qualquer outra natureza (os argentinos, por exemplo, rivalizam mais com o Chile do que com o Brasil). Mas o desmerecimento com os paraguaios vem da época em que a tríplice aliança acabou com a possibilidade do Paraguai desenvolver-se em um considerável período.

    Se o Marechal Solano Lopes errou ao começar o conflito, nosso querido imperador à época poderia tê-lo encerrado muito antes do seu gigantesco estrago que até hoje marca o povo guarani.

    Mostrar a pobreza paraguaia e tirar sarro dela é o típico caso de culpar a vítima, como (bem apontado) não tivéssemos situações semelhantes em grande número por aqui.

    Uma coisa é humor, outra é mal-gosto.

    RE: Pois então, estou até agora me perguntando se seria isso mesmo, se o caso seria apenas com o Paraguai ou se o Brasil tem uma certa cegueira para com os vizinhos, todos eles. Isso vem desde as aulas de inglês na escola, até uma espécie de, digamos, “erotização” da língua inglesa desde os anos 80, e uma estranha colocação da língua espanhola como objeto de ironia. O espanhol está em muitos lugares ao lado das chacotas sobre os chineses (“suco de lalança”): dizeres, chavões, pronúncias e palavreados para rir. Já outras línguas são objetos de sacadas, gente esperta e até erudição, a chegar ao cúmulo de alguns conseguirem gostar de algo como isso.

    Sem contar conjunto de temas mostrados pela emissora, cuja pauta relativa aos vizinhos é via de regra negativa.

    O que vocês acham?

  4. O nosso amigo guarani, realmente não tem belezas naturais, pelo menos divulgadas, como nossos exuberantes calçadões de orlas norte/sul do país, que se prestam sem exceção a divulgação do tráfico/turismo sexual ao mundo todo.
    Aliás, nem sei porque a imprensa brasileira, especialmente global, se interessou tanto pela moça, a meu ver, vestida demais.
    Quanto ás terras, às estradas, à Assunção… não será porque teriamos arraigado em nós o sortilégio de não termos nos tornado uma colônia comum de qualquer explorador óbvio, pela coincidência ou falta de opção de a corte do Império Português, acovardadamente fugido de Napoleão, tendo deixado órfão seu povo no além-mar, ter aqui se instalado e ter de tornar sua colônia moldada ao bel prazer português e suas farturas? BB, Casa da Moeda, Jardim Botânico, Biblioteca Nacional, Fábrica de Pólvora, Ferrovias, Estrada Real, Museus… convenhamos, no mundo, não foi mais privilégio de colônia nenhuma, sequer nossa, enquanto somente era território de exploração, vandalismo e devastação, desde 1500. A história só se fez forçosamente mudar em 1808. E daí pra diante, tão recente, aprendemos nós, rápido, a lição… somos quase selvagens predadores de Assunção… Latifundiários de mais de a metade de nosso pobre amigo e vizinho, quase todos em invasões ou compras exploradoras de terras em agricultura e pecuária de extensão; e as divisas, claro atravessam a fronteira (muito mais fácil que oceanos, convenhamos). Como resolvemos mesmo, nossa lei da vantagem e peso desleal de força, com relação a Itaipú?
    Há uma triplice fronteira, uma covardia… a medir-se e meditar-se… BRASIL, ARGENTINA E Paraguai… Seria no mínimo uma grande covardia?
    Na mesma semana a imprensa divulgava da Cidade Maravilhosa, sede de copa, de olimpiadas, os bueiros explosivos assassinos, morte de mais turistas internacionais em assaltos, a devastação do nordeste, com cenas antes nunca vistas, a não ser no último tsunami da Indonésia, mas ainda estavamos em ritmo de copa do mundo… quem queria saber?
    Hj, o maior desastre de todos saiu no G1, da mesma poderosa… resultado do desempenho de escolas, educação de primeira a oitava série.
    Senhores, a educação de nosso vizinho Paraguai pra nós é um exemplo a ser seguido, procurem pesquisar e se interar… pesquisem as matérias, pelo menos as que se impôe, na grade de ensino deles, inclusive no quesito línguas, no ensino público. Já que até ensino privado lá é bicho raro, como um urubu sozinho na matéria infeliz e que aqui, do nosso lado da fronteira predominam em bandos… de lixões,em disputas pelo maior pedaço de carniça com crianças barrigudas, seminuas,imundas de humilhação e desinteresse de poder público, urubus em combate com aviões pelo espaço aéreo, e no mais triste de todos os lugares: bem tratados, gigantes, preto ou marinho… em nossas prefeituras, câmaras de vereadores, palácios de estados, Congresso Nacional ou Palácio do Planalto.
    Abutres insaciáveis…
    Boa taarde!!!

  5. Sobre a mídia e a relação com nossos vizinhos sulamericanos, lembrei da forma como é feita a cobertura jornalística.

    Claro que sabe-se muito mais sobre Washington do que sobre todas as outras capitais latinamericanas juntas. E quando há uma notícia sobre a Venezuela, por exemplo, o correspondente internacional está em… Buenos Aires! Partindo do pressuposto que há maior proximidade geográfica e/ou cultural do que em outra cidade brasileira.

  6. fico curioso com a forma como a nossa elite é recebida nos países centrais. Trata-se de uma classe que, como se sabe, sente vergonha de ser latinoamericana, acha que o Brasil não deve ir além do Leblon, Copacabana ou Morumbi, prefere ir à São Paulo “Fashion Week” mas faz questão de citar a “Semana de Moda” de Paris. Mora em edifícios neoclássicos com elevador social e de serviços… Deve ser, no entanto, recebida de fato como um povo exótico, terceiro-mundista, pobre e atrasado. Deve chegar à Europa se sentindo um filho pródigo: será que se sente decepcionada ao ser comparada àqueles seus distantes irmãos paraquaios, colombianos, peruanos, venezuelanos, ou mesmo confundida com eles?

    será que tal crise de existência dá em divã?

    esses dias eu estava assistindo àquele panfleto do “rede globo way of life” que é o filme “se eu fosse você”. A família protagonista mora em um condomíno fechado… que IMITA os subúrbios dos EUA (casa com jardim sem muro, ruas com calçada-jardim, etc). Nossas obras de ficção média já não tentam nem copiar (ou idealizar) o dia-a-dia da classe média local, mas da classe média global.

    RE: Obrigado pelo comentário, Gabriel. Ele me parece perfeito porque mostra o que está em jogo: um secto que se considera com uma visão universal adota uma falsa perspectiva universalizante…

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