Quando o jornalismo é parcial

Alguns "estudos" confirmaram o que o jornalista inglês Robert Fisk estava literalmente careca de dizer: certas fontes da imprensa são parciais fingindo neutralidade, alterando tons, palavras e interpretações possíveis segundo questões de interesse.
 Estudo divulgado na semana passada sobre a cobertura dos quatro maiores jornais nos EUA revelou que, logo após os ataques terroristas de setembro de 2001, houve uma mudança dramática na cobertura de táticas de interrogatório. Alunos do Centro de Imprensa, Política e Políticas Públicas Joan Shorenstein, da Universidade de Harvard, analisaram artigos do USA Today, New York Times, Wall Street Journal e Los Angeles Times e concluíram que, mais de 70 anos antes dos ataques, a lei americana e os maiores jornais do país classificavam a técnica de afogamento simulado como tortura. No entanto, depois das revelações, em 2004, de que os EUA teriam usado a técnica com suspeitos de atividade terrorista, a mídia parece ter suavizado sua classificação. [texto completo no Observatório]

Nisso, vale reler essa entrevista de Fisk (comentando A Grande Guerra pela Civilização, seu livro maior). O trecho destacado abaixo (publicado aqui) tem tradução livre:

Podur: Você fala sobre o próprio jornalismo, em seu livro. O que você pensa sobre palavras como objetividade, imparcialidade, balanço e neutralidade, em jornalismo?

Fisk: Ver através dos jornais diários nos EUA e a cobertura do Oriente Médio é lamentável e incompreensível. Introduz-se semântica para ocultar controvérias, a maior parte controvérsia sobre quem apoia Israel. Colônias tornam-se "vizinhanças", "ocupado" torna-se "disputado", um muro torna-se magicamente uma "cerca" – quero dizer, presumo que até minha casa não seja feita de cercas.

Por anos o jornalismo tem sido preso, metido, confinado em uma camisa de força de regras feitas nos anos 40, nas escolas de jornalismo dos Estados Unidos. Essas escolas costumavam treinar repórteres para jornais locais. E se você está tratando de uma disputa sobre uma estrada, propriedade pública ou privada para um aeroporto, é essencial dar aos que protestam tempo igual ao de quem quer abrir um novo aeroporto. Em um julgamento, é essencial dar tempo igual à defesa e à acusação.

Se você trata com jornalismo local desse tipo – um julgamento público, um caso legal, uma disputa sobre um novo hospital – ambos os lados têm direito porque não se trata de uma questão moral. É uma questão moral na medida em que a comunidade merece um bom hospital, e proprietários privados merecem privacidade sem ter que se preocupar com projetos do governo; mas não ocorre aqui uma grande, acalorada e apaixonada questão moral sobre a vida humana, retirar uma vida, ou a guerra.

Nas circunstâncias acima é correto deixar claro que todos são igualmente representados. Mas em assuntos estrangeiros, em uma parte do mundo imersa em injustiça, onde milhares são rasgados e destroçados por armas todos os anos, você entra em um novo tipo de mundo. Um mundo no qual os estandartes de neutralidade utilizados em um julgamento de cidade pequena caem por terra, por não serem mais relevantes.

Quando você vê crianças, vítimas empilhadas em um local de massacre, não é ocasião de dar tempo igual aos assassinos. Se você cobrisse a venda de escravos no século XIX, você não daria 50% ao capitão do navio de escravos; você manteria foco nos escravos que morreram, e nos sobreviventes. Se você estivesse presente na libertação de um campo de extermínio na Alemanha Nazista, não buscaria dar à SS 50 por cento dos comentários.

Quando eu estava próximo de um atentado a bomba em uma pizzaria na Jerusalém israelita em 2001, onde 20 pessoas morreram, mais da metade crianças, não dei metade do tempo ao Hamas. Em 1982, em Sabra e Shatila, escrevi sobre as vítimas, os mortos que eu fisicamente subi por cima, e os sobreviventes. Não dei 50 por cento à Falalange Libanesa Cristã, milícia que realizou o massacre próximo do exército israelense, que assistiu os assassinos e não fez nada.

No reino de estado de guerra, que representa a falência total do espírito humano, você é moralmente vinculado como jornalista para mostrar compaixão eloquente às vítimas, não ter medo de nomear os assassinos, e é permitido demonstrar revolta. A garçonete que nos serve café, o motorista de táxi que me trouxe aqui, possuem sentimentos sobre atrocidades. Porque nós não deveríamos ter?

 

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