A internet e o debate

O Rodrigo Cassio vinculou interessante material do prof. Vladimir Safatle (livros) sobre comunicação, internet e voz pública. O material foi publicado em livro de Venicio de Lima, intitulado A Mídia nas Eleições de 2006 (livrarias). Segundo o informe, para Safatle a internet não mudou o âmbito, o alcance e o teor das discussões públicas na internet. No melhor dos casos, ela oferece uma tradução, uma transposição, uma passagem direta entre a "realidade" e a "virtualidade", as relações cotidianas e o hipertexto, não oferecendo portanto possibilidade de emancipação ou transformações sociais.
 
A idéia é interessante, e como o Cassio também o disse, é também um pouco previsível. As pessoas começam a se organizar na internet como se organizavam fora dela; portanto, não há novidade na Rede, pois ao invés dela ser um instrumento para mudar as relações "reais", ela não passa de um instrumento de repetição da "realidade".
 
E de fato, Safatle tem razão quando vemos as mais diversas discussões: sobre o aborto, as palmadas nas crianças, os diferentes regimes políticos mundo afora e afins, tem-se variações sobre um mesmo modo de discutir, que consiste em posições fragmentadas, incomunicáveis e dogmáticas. Como se diz em linguagem popular, em muitos desses casos ninguém "arreda o pé". O argumento consiste no número de argumentadores, no barulho, e não na constituição de um espaço comum de discussão entre os adversários (espaço a partir do qual existe convencimento, mudança de posições, etc.). É o famoso "fla-flu":
A internet está mais para grande espaço fragmentado de posições, onde cada território está ocupado por opiniões muito bem definidas e que não entram em contato com ideias diferentes. Manifestações dissonantes são reprimidas ou ignoradas.
De todo modo, nem tudo é assim. Se as relações "monetizantes" (para empregar um outro chavão de alguns anos atrás) invadiram a internet, isto é, se esta se torna a cada dia uma extensão das relações cotidianas e seus interesses, ainda há espaço de composição de lugares comuns, redes de interlocução não-hierarquizadas e afins.
 
Dez anos atrás, alguns debates falavam sobre levar as possibilidades "hipertextuais" para as relações cotidianas. Elogiava-se, por exemplo, a possibilidade de acessar material sem pagar (liberação de restrições de acesso por orçamento), de conhecer pessoas interessantes e inusitadas (de um modo impensável até então), de manter interlocução com grandes figuras (sem as velhas práticas de medalhões, peixes e afins), e assim por diante. Sedução pela idéia, e não simplesmente por relações mediadas ou garantidas por alguma posição privilegiada ou autoridade.
 
Dentre essas idéias está a tentativa de conquistar um espaço comum, não mediado por posições consolidadas no cotidiano. Essa possibilidade continua aberta (é sempre aberta a cada problema, a cada discussão), pois a constituição de um espaço comum independe de número, população ou barulho (ou grunhido, como dizia Saramago).
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3 comentários sobre “A internet e o debate

  1. Concordo com a idéia do texto, mas eu mudaria a pergunta não para modos de comportamento e sim para a velocidade com que ele é realizado.

    Muito bom o post Catatu!

    RE: Oi Marcio!
    Vc se refere à velocidade com que o
    comportamento é realizado?

  2. Duas observações a partir de um ponto de vista bem pessoal:
    1. Acho que a internet é um espaço fundamental para uma pessoa como eu, que mora fora do Brasil mas não quer ficar fora da sua cultura, uma alheamento que seria inevitável se eu tivesse saído do Brasil há quinze anos atrás.
    2. Além de toda a gritaria e dos jagunços de teclado em punho que andam soltos por aí, acho que a internet tem, sim, espaços privilegiados [esse blogue é um deles] onde a gente pode se informar e debater idéias. São ilhas num mar de porcaria, mas existem e estão aí para serem aproveitadas por quem quiser. O outro problema é que as coisas mais interessantes da internet estão quase que invariavelmente longe da repercussão nas mídias convencionais que ainda dominam os corações e mentes de uma certa faixa de usuários da internet.

  3. É meu
    Os órgãos que representam as grandes empresas de comunicação, como Abert e ANJ, defendem plataformas contraditórias. Acham que o governo deve limitar a participação do capital estrangeiro, mas rechaçam qualquer possibilidade de fiscalização pública sobre o conteúdo da mídia.
    Para garantir a reserva de mercado, invocam a lei. Mas a possibilidade de acompanhar, discutir e rever concessões de rádio e televisão, igualmente legal, parece coisa do capeta. Curiosa maneira de defender a liberdade de expressão.

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