Economia de Verdade (WikiLeaks e Afeganistão)

Os EUA invadiram o Afeganistão para combater a Al Qaeda e o temível movimento Talibã. Trinta anos atrás, o país mais rico do mundo suportava sauditas e mujahedins contra a URSS.
 
Os EUA invadiram o Iraque para depor a ditadura de Sadam e evitar a proliferação de Armas de Destruição em Massa. Trinta anos atrás, Saddam era suportado pelos EUA contra o Irã (por sua vez apoiado pela URSS). O regime dos aiatolás, ironicamente, nasceu e guinou radicalmente em direção à URSS após a deposição de Mohammed Mossadegh, primeiro ministro democraticamente eleito, mas cujo teor "democrático" não serviu de argumento para afastá-lo em nome de uma monarquia afim aos interesses da indústria petrolífera (vale citar a British Petroleum) e derrotada pela revolução iraniana (sobre isso, vale ler A Grande Guerra pela Civilização, de Robert Fisk).
 
E hoje sabemos que, dentre outras 75000 denúncias, o Paquistão muito provavelmente faz jogo duplo: recebe apoio dos EUA, mas também apóia certas milícias afegãs, como nos mostra o recente Kabul War Diary, do Wikileaks.
 
Alguns meses atrás o Wikileaks mostrou um desses documentos, um assassínio de civis e dois jornalistas da Reuters por um Apache norte-americano.
 
Voltando ao caso atual, 75000 é um número alto, indica muita informação para os jornalistas (análises começam no Guardian, Spiegel, NYT). E curiosamente, o teor rapidamente muda: não interessa mais "o que está ali contido?", mas "quem ofereceu tanta informação?" Esta é a pergunta que começa a despontar nos jornais.
 
Se o paquistão é aliado dos EUA, mas é uma ditadura e portanto não foi "libertado"; se a guerra é "libertadora" e "limpa", ou se existe uma inominável confusão por lá; se a confusão começa com justificações mentirosas; se os EUA já gastaram em guerra o que poderia ironicamente dar uma boa condição de vida a cada afegão; enfim, o que os 75000 documentos podem conter, isso tudo não parece ser o problema maior.
 
Contradições complexas, rigor e análise não dão lucro aos países. Não dariam mais lucro aos jornais? Tudo ocorre mais ou menos como na pronúncia de um funcionário de alto escalão do governo Bush, em 2004:
O mundo não funciona mais assim. Somos um império agora, e quando agimos, criamos nossa própria realidade. E enquanto vocês estudam essa realidade – judiciosamente, como queiram -, agimos novamente, criando outras novas realidades, que vocês podem estudar também, e aí está como as coisas serão. Somos os atores da história… e vocês, todos vocês, apenas ficarão estudando o que nós fazemos.
Anúncios

Um comentário sobre “Economia de Verdade (WikiLeaks e Afeganistão)

  1. Escrevi uma nota sobre a reportagem do Washington Post sobra a “indústria” do anti-terrorismo nos Estados Unidos que casa bem com este post. Acho que é justamente agora que os limites da fabricação de realidades aparecem com mais nitidez. Não adianta esconder, não adianta dirigir a discussão para outros assuntos [alguém se lembra da mortífera gripe suína?], não adianta editar imagens e textos. As guerras do Afganistão/Paquistão e do Iraque [assim como as falcatruas e trapalhadas de Wall Street] não são simulacros, não podem ser moldadas ao bel prazer. Com ou sem drones, os Estados Unidos não estão imunes à roda da história.

    RE: De fato, teu comentário é curto e certeiro. E que realidade é essa para gerir, não é mesmo?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s