Liberdade de expressão e democracias contemporâneas (WikiLeaks novamente)

Um dos principais preceitos das democracias contemporâneas é o da "liberdade de expressão". Recorre-se frequentemente ao exemplo das ditaduras para afirmar tal princípio: na China ou em outros lugares a internet é vigiada, não se pode dizer tudo sobre qualquer coisa, há risco de perder direitos quando se diz isso ou aquilo, e assim por diante.
 
Diz-se, em alto e bom tom, que numa sociedade democrática um indivíduo não é preso por seus dizeres (fora certos quadros jurídicos como a calúnia, etc.).
 
Nesse sentido é notável o caso de Julian Assange, fundador da Wikileaks. Pelo que se vê nos noticiários, o último furo desse site (a divulgação de 75000 documentos confidenciais) foi um soco em cheio no estômago de boa parte da política norte-americana relativa às guerras do Iraque e do Afeganistão.
 
Entre a paranóia e a realidade, a história de Assange (esse artigo é muito interessante) envolve retiros, fugas, ameaças, cuja linha de "realidade" é difícil de se interpretar. Nem tão difícil, entretanto, considerando a possibilidade de detenção também de seus colaboradores. Um foi de fato detido nos EUA, sob procedimento institucional, diga-se, "peculiar":
(…) Appelbaum, a U.S. citizen, was taken into a room, frisked and his bag was searched. Receipts from his bag were photocopied and his laptop was inspected but it’s not clear in what manner, the sources said. Officials from the Immigration and Customs Enforcement and the U.S. Army then told him he was not under arrest but was being detained, the sources said. They asked questions about Wikileaks, asked for his opinions about the wars in Iraq and Afghanistan and asked where Wikileaks founder Julian Assange is, but he declined to comment without a lawyer present, according to the sources. He was not permitted to make a phone call, they said.

After about three hours, Appelbaum was given his laptop back but the agents kept his three mobile phones, sources said.(…)

Mais à frente Appelbaum menciona a necessidade de empreender certa "desobediência civil", para trazer à tona desmandos permanecidos ocultos à discussão comum. Pelo que se vê nas entrelinhas, tal tarefa não seria considerada até mesmo perigosa?
 
Casos como esse abalam certas crenças sobre a liberdade de expressão. Mais ou menos como na passagem abaixo. Nela, um filósofo comentava o caso de Toni Negri (livros), pensador italiano preso pelo teor das próprias palavras (e ao mesmo tempo, comentava sobre o valor relativo delas nas democracias):
Tenho uma feia mania. Quando as pessoas falam tanto por falar, quando fazem discursos que ficam no ar, procuro imaginar onde levariam as suas palavras se fossem transcritas na realidade. Quando "criticam" alguém, quando "denunciam" as suas idéias, quando "condenam" o que escreve, imagino-os numa situação ideal em que têm pleno poder sobre ele. Reproduzo as suas palavras no primeiro significado: "demolir", "abater", "reduzir ao silêncio", "sepultar". E vejo abrir-se a radiante cidade em que o intelectual certamente seria prisioneiro e enforcado, com maior razão se fosse um teórico. É verdade, não vivemos em uma região em que os intelectuais são mandados ao diabo; mas, na realidade, diga-me, por acaso ouviu falar de um certo Toni Negri? Por acaso não está na prisão exatamente enquanto intelectual?
 
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Um comentário sobre “Liberdade de expressão e democracias contemporâneas (WikiLeaks novamente)

  1. Interessante o posto. Fiquei matutando sobre o conteúdo, e resolvi colocar uma “réplica” lá no causa:: (não faço idéia se algum dos assíduos daqui o conhece…). De qq maneira, o debate rende, pq nem sempre a segurança militar combina com a liberdade e a verdade – por sinal, seria justo dizer: nunca combina. Assim, o título do texto está perfeito – “economia da verdade”. Será que o leitor daqui, bem acima do mediano, entendeu a sutileza?

    RE: Muito obrigado pela leitura, e por chamar a atenção à “economia da verdade”. Tuas questões vão ao ponto, e gostaria muito de conversar sobre elas. A qual post você se refere como réplica?

    Atualizando: Muito interessante a resposta do causa:: . Seguimos conversando lá 😉

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