Imaginação, indiferença

Uma frase de Albert Einstein tornada clichê diz: "A imaginação é mais importante do que o conhecimento". De fato, a imaginação já se tornou até mesmo moeda, capital. As empresas hoje a utilizam, sugando o gás de seus funcionários, no que diz respeito a "capital intelectual", "capital humano" e outros termos. Não tratam mais de "recursos humanos", mas de "pessoas geridas".

E fora das empresas, como anda nossa imaginação? Durante a última Copa do Mundo, um repórter da Globo visitou um santuário ambiental na África do Sul destinado a pinguins. A descrição do repórter foi muito curiosa (parafraseio): estes pinguins andam, aqueles correm; uns parecem utilizar o penteado mais radical, enquanto outros caminham na pedra; enfim, aqueles protegem os filhotes, e aqueles outros nadam, e assim por diante.

Após viajar várias horas de avião, reunir funcionários com altos salários, deslocar-se para uma matéria, filmar e editar, o que constata nosso repórter? Que os pinguins "andam" mais ou menos rápido, na pedra ou na praia.

Se esse fato é isolado, o resto da programação desmente. Ou mesmo, não há algo parecido com isso, por exemplo, ao visitarmos os museus ou vermos as grandes massas de turistas? De algum modo, como dizia Peter Lamborn Wilson, o turista às vezes faz mais mal a um lugar visitando-o do que permanecendo em casa. Ele se encontra com o jornalista da Globo quando abre a boca ou lança seus vídeos no Youtube: "vê esse lugar milenar, acessível a poucos e custoso para um brasileiro comum chegar? Olha essas escadas, elas vão até o alto; veja essas pedras, provavelmente demorou trazerem até aqui. Antiga essa estátua, né? De quem ela é mesmo? Deve ser da antiga crença deles".

Certamente, um turista ou uma empresa privada como a Globo podem fazer o que bem entendem com seu dinheiro. Podem filmar  terabytes e visitar todos os lugares do mundo. Podem contratar guias e fazer analogias antropomórficas, como se entre nós e aqueles pinguins a diferença fosse igual a zero (se bem que isso poderia dar a pensar). Mas se resumiriam os pinguins a andar de tal ou qual forma? E a escada, resumiria tudo o que é no fato de ser "de pedra" e "ir até o alto"? 

Aquele pedaço de pedra é apenas um artefato tosco e feio, se não pensarmos em quem o moldou, ou como era aqui antes de ser isso tudo, ou de que forma isso aqui se tornou o que é. O simples pedaço de pedra é a prova concreta de tudo o que ignoramos, do quanto não sabemos e somos pequenos. Podemos sair dali e perguntar onde fica o próximo McDonalds, como fez agorinha o turista coreano. Não me é tudo isso indiferente ao fato de eu estar ali? (curiosa indiferença, essa minha presença)

De algum modo, as edições fotográficas de Sergey Larenkov nos mostram toda essa ignorância e desconhecimento que ousamos  não sustentar diante de qualquer experiência. A edição certamente faz parte de todos esses estilos plug and play, tão presentes em nosso mundo. Larenkov simplesmente foi até o mesmo ângulo, tirou outra foto, mesclou a nova e a antiga. Mas seu jogo é muito interessante: aqui mesmo, onde passam essas pessoas, onde tudo é indiferente, isso tudo é repleto de significado. Podemos permanecer indiferentes a ele, mas é inegável que, muitas vezes, tudo isso pode até dizer respeito ao que somos e à nossa indiferença.

 

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