Uma última gota “da gota”

O que define um transporte público ruim? Primeiramente, sua inexistência: ausência de ônibus/metrôs, atrasos, demora e mal distribuição das linhas.

Em segundo lugar, a má qualidade dos veículos: falta de limpeza, apoios engordurados e ensebados, mal cheiro, veículos antigos e mal conservados, buracos na lataria, peças soltas, secas, rígidas, cortantes.

Em terceiro lugar, a má qualidade do atendimento: gargalhadas do motorista enquanto pilota em alta velocidade ao lado de outro ônibus da mesma empresa, direção perigosa e imprudente, alta velocidade, terminais com má conservação, infrações de trânsito.

Quarto lugar: a existência de transporte alternativo, mais ou menos irregular e muitas vezes no limiar da irregularidade. E convivendo com ela, o mal salário dos motoristas regulares, a eliminação de cobradores, o enxugamento do quadro de pessoal.

E finalmente, o marasmo dos usuários. O motorista furou sinal, ultrapassou pela direita, fez curva fechada em alta velocidade, quase causou acidente, e qual é a reação dos usuários? Alguns entreolhares tímidos, com uma espécie de sorriso que parece passar o recado de "estou bem, eu aguento".

Cabra macho não reclama, não é mesmo? Ou quando reclama, é para arrebentar.

Algo deve ter ocorrido para que os moradores de Laranjeiras, perto de Aracaju, reagissem assim: queimaram três ônibus, acusando a má qualidade do serviço.

Pode-se imaginar a cena: o ônibus quebrou, alguns indignados saltaram e começaram a depreda; outros se encorajaram, o levante ganhou força e enfim queimaram os veículos.

Curiosamente, a má qualidade não é exclusiva de Laranjeiras, Aracaju, ou vários outros lugares do Brasil, inclusive cidades consideradas "modelo". Então, por que a revolta aqui, e não nos outros lugares? E o que explica essa revolta agora?

É difícil de compreender os motivos. Mas não deixa de saltar aos olhos o modo como se reage: primeiramente, uma passividade conivente, um marasmo existencial, certo alheiamento diante de tudo o que deveria fazer parte cotidiana do cotidiano (uma redundância interessante). E em segundo lugar, o extravasamento, uma espécie de linchamento do serviço público, certo tipo de "troco".

Já era assim antes. E salvo ações bem específicas, nada garante que o incêndio trará, aqui ou lá, melhorias radicais. Nesse sentido, a resposta da prefeitura de Laranjeiras é impagável (e tão universal quanto), subtraindo a própria responsabilidade. Estão ali todos os elementos: se a prefeitura licitou (se licitou), ela agora declara não ser de sua competência, mas do Estado, a fiscalização dos problemas; mesmo assim, ela ousa declarar que "mantém a mesma posição de cobrar e exigir dos representantes da empresa um melhor atendimento à população" (sic!). "Manter a mesma posição": só resta saber se isso foi uma confissão ou uma declaração infeliz.

Não são curiosas essas relações mantidas com o próprio cotidiano, bem como essas reações extravasadas? E por outro lado, não são incríveis as respostas da dita esfera "pública"? É como se não fizéssemos parte do que se chama de "público", e afinal se há por aí algo de público, certamente não se aplica (ou melhor, aplica-se sim, "olha aí ó") a esse ônibus velho, sujo, caro, demorado, cheio de gente e oferecido goela abaixo.

Mas há mais: esse tipo de constatação se faz tantas vezes quanto é preciso para torná-la mais um clichê, um desabafo tolo a mais. E assim conseguimos reforçar o mesmo regime de atitudes que pensávamos, agorinha, denunciar.

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