O “drama” dos candidatos

Se eu fosse um daqueles chamados "psicólogos existenciais" (livros), seria muito tentador analisar a campanha eleitoral que começa a se desenhar.
 
Isso porque, ligando a TV ou o rádio, é fácil comparar o relato, a cobertura midiática, aos "dramas existenciais" dos pacientes desses psicólogos.
 
Na "terapia existencial", um paciente chega ao psicoterapeuta e começa a falar sobre si, sua vida, sua relação com os outros. Na medida que o relato avança no setting terapêutico, o discurso do paciente começa a compor uma série de conjuntos ou complexos temáticos, mais ou menos hierarquizados e relacionados entre si, até a narrativa formar, cada vez mais, um drama existencial global, enfim, algo da alçada do "mundo" que o paciente abre diante de si e de suas atitudes.
 
Diante dessa unidade, composta de todas as outras narrativas, o terapeuta consegue enxergar como o paciente "vive" (ou não vive) seu "drama", como ele "escreve" ou não a própria história (ou, em sua própria história, como ele deixa paradoxalmente de vivê-la), e assim por diante.
 
Um "drama" existencial pode denotar em sua narrativa os caracteres do conflito, do abandono, da alienação, ou mesmo fatores como a harmonia, a plenitude, a realização (em algo próximo ao que se chama de "cura").
 
Pois bem, para algum psicólogo existencial o horário eleitoral, os debates e as entrevistas poderiam ser lidos igual a esses diversos temas que compoem os universos de seus pacientes. No caso, não se trata do drama individual dos candidatos, mas do drama "midiático", o da relação entre os candidatos e os jornalistas, esse drama que sai não da boca de um paciente, mas dos fones e tela do rádio e da TV.
 
E assim ele veria como, especialmente nos regimes narrativos mais difundidos, alguns candidatos são apresentados como vivendo o mais puro conflito e contradição, enquanto outros, diante dos jornalistas, vivem a mais terna harmonia, aconchego, receptividade, quase igual à relação entre mãe e bebê. Outros são ouvidos, mas seu drama – não o do candidato, mas o "midiático", vale repetir – parece emanar mais uma tagarelice vazia de conteúdo. E outros, ainda, têm o discurso desqualificado antes de começar a falar. Sem contar os candidatos simplesmente ausentes.
 
O psicólogo poderia perguntar: qual seria a relação entre o que sai da boca de cada um desses candidatos e o que sai dos fones e telas do rádio e da TV? Certamente até o candidato ausente fala, mas ao mesmo tempo, é como se não falasse.
 
E aí se interpõe uma curiosa questão: em certo sentido o que um candidato mostra diz mais respeito à relação desses fones e telas com ele, do que puramente o conteúdo, digamos, "dramático", de seu programa de governo.
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