Os “direitos” de cópia invadindo a ciência

A depender de muitos organismos dominantes da internet, dentro de alguns anos deveríamos dar adeus às tradicionais imagens do pesquisador: aquele homem bondoso, trabalhador de laboratório ou enterrado em bibliotecas, contribuindo para o conhecimento humano.

Tais organismos, como o Jstor e o Springerlink, ganham dinheiro cobrando do usuário o acesso de artigos científicos. Aquela imagem do pesquisador bonzinho deveria, assim, ceder lugar a alguma outra (talvez aquela do executivo de sucesso que representa mais o primado do interesse bem pago e menos o do conhecimento altruísta)

Imagine o leitor precisando acessar 10 artigos para uma pesquisa. Os preços variam: 20, 30, 35 dólares… cada um! Gasto idiota (=submetido a interesses particulares) tanto para o bolso pessoal quanto para o emprego de verbas públicas, visto que tudo deveria ser indiscutivelmente gratuito.

Isso gera um efeito muito curioso, semelhante ao de algumas empresas burocráticas que trocaram a máquina de escrever pelo computador apenas para "dificultar" o trabalho de configurar a impressora e buscar o papel. No caso de empresas como o Springerlink, requisitar um pequeno artigo de poucas páginas implica vários e vários formulários com tempo de resposta de 10 dias úteis, contratos de cláusulas gigantescas e ameaçadoras (se pelo menos protegessem o autor…), links minimalistas e labirínticos, sem considerar o preço.

Nesse sentido, não foi por acaso a ação impetrada contra Horacio Potel. Curiosamente, multiplicadores do livre conhecimento começam, depois de 15 anos de abertura da WEB, a se tornar perigosos na visão dessa gente.

Tempos atrás apareceu um debate sobre autores que recusam conceder direitos de cópia a esses sites pagos. Se eles cobram, deveriam pagar ao autor, não é mesmo?

Não é à toa também o debate sobre o Google conceder privilégios a um único meio, o Verizon. Ou mesmo o medo de bibliotecas como a BNF diante da soberania – e fechamento – de boa parte dos conteúdos do Google Books

Por isso trabalhos semelhantes ao de Potel nunca foram tão necessários. 😉

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2 comentários sobre “Os “direitos” de cópia invadindo a ciência

  1. Catatau: quanto à questão dos direitos autorais, suponho que o sistema funcione da seguinte maneira: pra publicar numa revista, você cede os direitos a ela, que, por sua vez, negocia a disponibilização num desses portais de bancos de dados. Acho difícil acabarmos com isso por cima, pela legislação, então resta-nos o voluntarismo, da cópia, e, por parte dos autores, não topar publicar em revista de acesso fechado. Nos EUA e Europa, não se deve ter dimensão do problema, porque as instituições têm contratos com os grandes bancos de dados (além de boas bibliotecas). Mas para um estudante do terceiro mundo, o efeito é de uma segregação imensa – isso para não falar dos não-acadêmicos.

    Abraço

  2. Um país de corsários
    (publicado na revista Caros Amigos)

    O termo genérico “pirataria” envolve um leque imenso de atividades. A repressão paliativa de suas manifestações isoladas dissimula a força e a abrangência do fenômeno. Mas é absurdo assemelhar o comércio ilegal de bens culturais ao de quaisquer outros produtos, gerados por contrabando ou falsificação. Reproduzindo as engrenagens do tráfico, chega-se ao cúmulo de criminalizar a busca por informação, marginalizando seu “usuário”. E, também neste caso, criando instrumentos segregacionistas: a defesa do copyright equivale à tentativa de preservar desigualdades.
    Mas todas as classes sociais se locupletam cotidianamente da informalidade, sob tolerância generalizada. Comércio, indústria e residências estão repletos de computadores e outros equipamentos irregulares. Jogos, músicas e filmes clandestinos entretêm milhões de famílias por todo o país, sem contar o furto de sinais da TV a cabo. A cópia integral de livros impede o colapso do ensino universitário, em especial nas instituições públicas, cujas bibliotecas possuem acervos ridículos.
    O camelô virou bode expiatório do farisaísmo pequeno-burguês. Os preços irrisórios cobrados pela pirataria não justificam os custos exorbitantes do mercado regular, antes iluminam sua face gananciosa e excludente. Produtos culturais de grande circulação independem do varejo, pois se viabilizam previamente com publicidade, renúncia fiscal e eventos associados. Autores recebem migalhas, enquanto os lucros enriquecem uma rede de intermediários ociosos e insensíveis à produção artística.
    A hipocrisia legalista faz parte de uma estratégia para impedir a disseminação da cultura regular, oficial, legítima. O exclusivismo cria nichos, eleva preços, alimenta ilusões de superioridade. Mas a vitória inevitável da pirataria revelará que é impossível barrar a demanda popular pelo conhecimento.

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