“Somos todos animais”

Dada a onda de crescente violência no Brasil, um telejornal da Globo (pode ser qualquer um, pois o tom é sempre o mesmo) dedicou vários minutos da cara programação para divulgar o seguinte: como um "cidadão" deve se comportar frente ao bandido durante um assalto ou roubo de carro.
 
O "especialista" dá as dicas, tão importantes para a vítima não morrer quanto para o bandido conduzir o assalto: deve-se deixar as mãos sempre visíveis, falar clara e pausadamente, não fazer gestos bruscos, obedecê-lo, e após entregar tudo a vítima deve sair rápido de cena.
 
Como ter sangue frio numa situação dessas? É aí que o repórter solta a pérola, muito curiosa em nossa época (parafraseio): "visto que somos todos animais (sic), é difícil ter sangue frio nessas horas, pois nosso cérebro libera neutrotransmissores e as reações de medo, diante do acontecimento, geram uma luta com nós mesmos pelo controle do corpo".
 
A reportagem termina nisso, e isso é o mais interessante. Somos todos animais, nosso horizonte de ação se confina numa luta contra "nosso cérebro", que por sua vez luta contra "o corpo". A reação diante do assalto é instintiva, como é instintiva também qualquer outra reação, pois, enfim, "todos somos animais".
 
A frase solta não deixa de mostrar todo um mundo de especialistas e prescrições de conduta. Um exemplo para contrapor: um dos modos pelos quais Freud [livros] tornou-se famoso é precisamente esse, de mostrar – contra toda uma tradição de regras morais – que a consciência e o arbítrio não são tão autônomos quanto se pensava. Sobre essa tradição, dizer grosso modo que o homem não é mais uma "centelha divina" servia também para problematizar modos de controle social e pensar em que sentido poderia haver ou não uma saída para a autonomia humana.
 
São notáveis, nesse sentido, as formulações de O Mal Estar na Civilização, sobre esses sistemas de controle da conduta alheia chamados "religião": “É desnecessário dizer que todo aquele que partilha um delírio jamais o reconhece como tal”.
 
Na mesma linha, Freud seria uma consequência de Darwin: este desbancou o lugar do homem como rei da natureza; Freud alargaria a mesma tradição, mostrando que além de ser natural, o homem não possui um arbítrio absoluto.
 
Como ler, nesse sentido, o comentário do repórter? Ele mesmo diz que "somos todos animais". Mas curiosamente, se antigamente tal tipo de expressão servia  grosso modo para contestar certos sistemas de regras de conduta, hoje  serve exatamente para o contrário: por meio de "especialistas" em nossa animalidade humana, ela indica, recomenda, prescreve como devemos nos conduzir.
 
Ok, mas e o que mais deveria o jornalista falar? Não está certo prescrever o melhor modo de não ser ferido ou morto? Por essa pergunta mesma a reportagem é interessante: ela situa o homem como um animal vivo e ponto final, passemos para a próxima reportagem (no caso do Jornal Hoje, alguma sobre cabelos ou roupas de mulher).
 
O que significa resumir o homem a seu papel de ser vivo, à sua função vital? Mesmo empregando um termo utilizado por alguns biólogos da metade do século XX, salta aos olhos nosso alheiamento diante do "mundo ambiente", grosso modo o mundo ao redor. Vivemos em nosso mundo como se paradoxalmente não vivêssemos nele, irrealizamos cotidianamente nossas relações imediatas com toda a sujeira e barulho circundantes, vemos a nós mesmos incrivelmente separados do que acontece conosco.
 
O papel do jornalismo, nesse sentido, não é o de apelar a noções como cidadania, liberdade individual, república, democracia e afins. A programação o mostra: "cidadania" é uma palavra reservada a projetos sociais paliativos; "democracia" reserva-se a votar nos períodos de eleição. A reportagem reforça isso demonstrando que a única coisa realmente importante de se pensar diante da possibilidade de um assalto é na alternativa de não ser morto.
 
Com tudo tão certo, se nós somos todos animais, não  soa algo estranho? Se o homem é um animal, se ele expressa em tudo propósitos meramente instintivos, que propósitos carregam o jornalista a dizer o que diz? Porque ele insiste tanto em nos dizer o que devemos fazer?
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Um comentário sobre ““Somos todos animais”

  1. Cara, bacana seu post.
    Na verdade, a reportagem se contradiz. Não faz sentido dizer a um animal como ele deve agir, já que não tem escolha e simplesmente obedece aos instintos. Um animal não está em “luta consigo mesmo”. Só ao ser humano faz sentido dizer como deve agir, pois apenas para ele se coloca a questão do dever. Em suma, não se faz uma reportagem dizendo a um animal que ele é um animal, porque afinal um animal não coloca em questão a sua animalidade, hehehe.

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