A estranha eleição para governador do Paraná

A eleição para governador do Paraná é curiosa. Os dois principais candidatos adversários eram, até pouco antes da candidatura, aliados. Hoje manifestam antagonismos estranhos, bem como discursos e alianças batidas ou estereotipadas.

Na última eleição, Dias estava do lado dos grandes empresários e proprietários rurais. Nesta, alia-se ao pessoal dos pequenos produtores e movimentos populares.

Mas no Paraná, as estranhezas não param por aí. Há grandes chances de, se eleito, Beto Richa ser um futuro presidenciável. A pergunta é: devido a que motivo? Vende-se Richa como uma figura unânime, mas tal venda é rápida demais.

Richa foi eleito em Curitiba com mais de 70% dos votos, com aprovação surpreendente. Sustenta um discurso de participação popular, conciliação e "despolitização" das questões públicas. Isso tudo geraria um "novo Paraná".

Ele diz que "despolitizará" os pedágios. "Despolitizar"? Conforme comentou Paulo da Luz Moreira, provavelmente ele alude a certo "tecnicismo". Beto não agirá "politicamente" como Requião. Técnico que é, "conversará" com as concessionárias. Mas é curioso o artifício retórico. Tudo opera como se a política se reduzisse a um personalismo ingênuo: como se os donos de concessionária realmente tivessem a intenção de baixar os preços, mas não o fizeram pela atitude "rude" do governador – economia e política reduzidas à emotividade de alguém que fica "brabinho". Chegando agora alguém "conciliador"… (esqueçamos apenas que o conciliador vem do mesmo grupo político que aprovou e instaurou as concessionárias)

Beto também diz que melhorará a educação, aumentará os salários e fará concursos. Se isso é verdade, é estranho o currículo alardeado pelo próprio Richa: segundo ele mesmo na própria propaganda, os salários dos professores municipais de Curitiba aumentou em torno de 80%. Surpreendente aumento, se não reparássemos o momento no qual a ênfase do discurso diminui: o salário "aumentou", nas duas gestões, de 600 reais para em torno de 1100. Considerando a defasagem salarial já existente desde quando ele era vice-prefeito de Cassio Taniguchi (secretário no DF na gestão de José Arruda, hoje voltou e auxilia na campanha de… Beto Richa), passando por duas gestões, será o emprego da palavra correto? Considerando dois governos dele, mais todos os outros de seu grupo político e a defasagem salarial, pode-se dizer que o salário "aumentou"?

Durante a última eleição na prefeitura, boa parte da campanha se concentrou nas grandes obras que desafogariam Curitiba. Ao mesmo tempo, nem a campanha de Beto e nem a de Gleisi divulgavam seus financiadores. Quando divulgados, a surpresa: parte substancial das empresas financiadoras são as mesmas que ganharam as licitações dessas grandes obras!

Sem contar outro grande slogan, o trânsito. Diz-se que "finalmente" Richa licitou o transporte público na cidade… para o mesmo grupo de empresas sempre beneficiado sem as licitações.

Ademais, o trânsito traz outro fator: se algumas décadas atrás Curitiba ficou famosa pelo transporte público, hoje não se pode dizer o mesmo. Certamente ela ainda é melhor do que muitas cidades Brasil afora. Mas pode-se afirmar com isso duas coisas: tudo ainda é efeito daquela estruturação de décadas atrás; e praticamente todas as ações da prefeitura, desde há muito, não imitam aquele modelo antigo. Elas não são  preventivas, mas paliativas ou corretivas. Grandes empreendimentos como a linha verde apenas vieram tapar problemas criados nas últimas gestões que, aliás, sempre foram do mesmo grupo político de Richa.

Pode-se ver esse caráter meramente corretivo com o boom do número de automóveis. A existência de pelo menos um carro para cada três moradores não é um dado a princípio negativo. O problema é o que fazer com tantos carros na rua, ainda mais considerando um passageiro por automóvel. Se Curitiba tem um "transporte do primeiro mundo", cidades do primeiro mundo o negam: basta lembrar dos gigantescos engarrafamentos  de 2007 em Paris, durante a greve do transporte. Um bom transporte público implica algo trivial: ter motivos suficientes para deixar o carro em casa.

Isso é o mínimo que um bom administrador "técnico" enxergaria. Se falávamos de técnica, onde ela foi parar? Ou melhor, não se pode parar em lugar algum, pois foi outra a medida paliativa da prefeitura para "gerir" o número excessivo de carros: acabar com os estacionamentos, estreitando as faixas para criar mais uma via. Mais carros, mais sujeira, barulho, poluição… tudo “despolitizado”, e mais: tecnicamente calculado.

Esta eleição para governador do Paraná é estranha. Todas as indas e vindas dos dois principais candidatos possuem total legalidade. Mas rápido demais, temos ciência de quem escolheremos?

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