As eleições e a carne

Um dos últimos posts do Caixa Zero, sem querer, tocou em uma idéia muito interessante. Estamos em tempos eleitorais; neles, há quem só defenda o PT e Dilma, mas "tem coisa" na Casa Civil a ser realmente investigada e, portanto, a simples defesa de Dilma não é algo honesto. Aliás, nessa linha para ele é muito estranho Dilma não cair nas pesquisas.

A idéia é muito interessante porque toca em algo que, em tempo de eleições, parece não se tocar. Não me refiro a Dilma, mas à economia da visibilidade das denúncias.

Por exemplo, mesmo o mais iletrado, o sujeito pobre, alvo de desdém social e incrivelmente invisível embora maioria (aos olhos do consumidor da grande imprensa), contraria certas expectativas e percebe diferenças no tom da imprensa quando referido ao PT ou à oposição. E mais: consegue rever a própria história, perceber mudanças nos dois governos e confrontá-las com o que vê na TV.

No país do jeitinho, não tem jeito: o fogão e a geladeira, eventualmente o computador e até o notebook, passando pela moto nova ou até o carro são diferenças marcantes nas aquisições individuais, entre os dois governos. E a bolsa família representa sim uma descontinuidade.

Quem já acha logo evidente afirmar que a troca do jegue pela moto neste governo é mero resultado das operações do governo FHC não consegue evitar outras evidências exemplares: está na carne a constatação de que o governo do PSDB, junto com a imprensa, mantinha (e ainda mantém, com a imprensa) a palavra de ordem do "corte de gastos", enquanto um dos motes marcantes do governo Lula foi "consumo interno".

O tom nessas simples expressões mostra tanta diferença entre os dois governos (e a condescendência da imprensa para com o governo anterior) que, durante a grande crise, jornalistas simpatizantes incontestes do governo FHC inclusive "alertaram" sobre essas medidas de consumo interno gerarem "inevitavelmente" resultados negativos para o país. Seguir a boa razão econômica, conforme posição não adotada por apenas um telejornal, significava cortar gastos e não estimular o consumo, especialmente de um povo conhecido por não honrar seus compromissos (sic). Mas o consumo interno, contrariando "previsões", protegeu o Brasil. E talvez o tenha protegido com  a mesma desenvoltura pela qual os mesmos telejornais rapidamente mudam de posição e chamam, elogiosamente, o mesmo "consumo interno" de "principal motor da economia" (sic) dos EUA.

Ou então lembremos de outro fatalismo histórico propagado pela grande imprensa: o "risco Lula". Na história recente do Brasil, talvez um caso análogo, porém inverso, foi o da sensação de otimismo e segurança estrategicamente fabricada no curto período em que o Real se equiparava ao Dólar. O período propiciou clima de otimismo e favoreceu a eleição de Fernando Henrique Cardoso, então considerado "pai" do  real (metáforas paternas também são ou não estrategicamente favoráveis dependendo do alinhamento político).

Por que estou escrevendo isso? O Caixa Zero, que é jornalista, tenta compreender como Dilma consegue permanecer tão popular, mesmo com o denuncismo diário contra ela. Pois bem, é provável que isso se deva às diferenças se sentirem na carne.

As pesquisas de Venicio de Lima são muito interessantes nesse sentido. Em livros como Mídia: Crise política e poder no Brasil, ele se dedica a analisar os regimes dos escândalos midiáticos. Não certamente o conteúdo efetivo desses escândalos (aquilo que realmente importaria numa democracia) mas sim a economia informativa dos jornais e seu emprego retórico das informações. Às vezes uma pauta predominante, o uso do tempo em um telejornal ou as palavras empregadas por um jornalista dizem muito mais sobre suas posições políticas do que ele gostaria de confessar. Nisso, o debate Lula x Collor editado pela Globo é apenas um exemplo agudo de uma pratica cotidiana.

O que Lima faz com suas análises vai em direção à idéia evocada pelo Caixa Zero: a grande população, cuja maioria provavelmente votará em Dilma, não se sensibilizou com o denuncismo da imprensa. Casos como o de Erenice Guerra ou da violação de sigilo de Verônica Serra não surtiram até agora o efeito esperado pelos denunciantes: vinculá-los a Dilma e fazê-la cair nas pesquisas. A que se deve isso? Por que a população não mudou de opinião? Por que isso não transpareceu nas pesquisas?

O motivo parece claro: o povo brasileiro não tem – isso é óbvio – o mesmo rigor acadêmico de pesquisas semelhantes às de Venicio de Lima, mas consegue perceber nuances e regularidades, formalizando e interpretando o vômito informativo diário. A diferença, em relação às eleições anteriores, talvez resida em hoje esses efeitos concretos do governo Lula servirem também como parâmetro para julgamento. 

O povo que não aderiu à tática da vitória no tapetão percebe as diferenças. Por exemplo, são nítidas as práticas de "calibrar" as campanhas eleitorais ao gosto do freguês em todos os candidatos. Dilma, como se comenta por aí, mudou totalmente o visual (os maldosos dizem que mudou até a fisionomia) para a campanha. Mas de algum modo, com essas mudanças, ela mantém a imagem estável, junto com Marina e Plinio. Mais nítidas, entretanto, são as mudanças na campanha de Serra: aqui temos um candidato bonzinho, ali um crítico implacável do governo; numa semana elogios e associações positivas à figura pessoal de Lula, e na outra tentativas de associar essa mesma figura ao que há de pior; nos entremeios, os resultados da pesquisa eleitoral condicionam cada mudança de tática.

Não é necessário acessar a internet e constatar o perigo dos conteúdos pesquisados por Amaury Ribeiro Jr. virem à tona (ou mesmo a omissão da grande imprensa): quem acha que o povo engole a quebra de sigilo de Veronica Serra como uma espécie de simples afronta pessoal a uma mãe de família, como explicitamente a campanha de Serra – e os jornais, convenhamos – tentou mostrar? Ou mesmo, quem não percebe a diferença da repercussão de um piti, se ele veio de Serra (o leitor veja a parte não editada e depois a editada de sua entrevista a Marcia Peltier) ou se viesse de Dilma? Até quando a candidata petista machuca a perna tenta-se extrair consequências politic
amente negativas. Já com Serra, casos como o de sua esposa declarando sobre a bolsa famíla ser algo semelhante à vagabundagem ("As pessoas não querem mais trabalhar, não querem assinar carteira e estão ensinando isso para os filhos", sic) são estrategicamente deixados para a história do esquecimento.

Mesmo associando sua figura a FHC quando convém (geralmente em certos aspectos da política econômica), e desassociando quando também convém (no assunto das privatizações), o povo lê os compromissos e percebe as oscilações. 

E para além do horário eleitoral, o valor eleitoreiro (mas também ético, jurídico e político) de qualquer ato não recebe dos grandes jornais a mesma cobertura, tempo ou tom, vindos deste ou daquele candidato. E isso é o mais interessante porque talvez essa seja a primeira eleição na qual o feitiço se virará contra o feiticeiro: a economia informativa dos grandes jornais é tão estrategicamente aplicada que o povo a compreende.

Para conseguir o que quer, o grande jornal deveria deixar tal economia de lado e se aplicar a fazer jornalismo, isto é, seguir as notícias em sua generalidade e torná-las públicas, não importando a direção e sim a publicidade.

Isso responde as questões colocadas pelo Caixa Zero de um modo muito interessante: O brasileiro liga a TV e consegue ver que a quebra de sigilo, se efetiva e se ligada realmente a Dilma (não há uma condição retórica a aceitar, mas duas), não é exclusividade dessa campanha. Não se trata de presumir se outro candidato realmente violou ou não, se outro fez algo ou poderia ter feito. O problema é o próprio regime da visibilidade dos acontecimentos, demais aqui e pouca ali. Ademais, a consequência lógica é: por que no jornal ninguém se interessou em explicar o que a filha de Serra – a "mae de família" – poderia ter de interessante a seus adversários?

Igualmente, o brasileiro percebe que tráfico de influências em política brasileira também não se reduz à visibilidade do tráfico de influências no governo Lula, se houve ali e se foi daquele jeito. É curioso o factóide (caso?) estourar precisamente nos Correios. Como se bastasse chegar ali e constatar, como em outras empresas públicas, certas contratações com motivações políticas e certas práticas no limite entre o ganho privado e a politicagem, não restritas nem aos Correios e nem ao presente governo. Novamente vem o problema da visibilidade: por que mostram tudo isso aqui? Por que agora e sob esses termos?

O brasileiro não analisa rigorosamente todos os âmbitos e implicações institucionais de um factóide ou caso, mas consegue intuir. Como surpreendentemente disse certa vez Ronaldo Caiado em um debate com o Dr. Rosinha em um programa de Lobão (que mistura!), o povo "tem uma noção", "há um sentimento" (sic) de que algo está errado na política agrária (não por acaso percebe isso há 500 anos).

Alguns não presumem que o povo tem sim esse sentimento, e consegue perceber quando certos veículos da imprensa pretendem aflorá-lo mais ou menos. Aí está a questão, ou melhor: ficou totalmente fora de questão se houve corrupção, ou se ela efetivamente implica ou não Dilma ou qualquer outro (tradução: a seletividade do jornalismo brasileiro corrompeu a crença em seu caráter investigativo). Negando-se a fazer jornalismo, certas fontes depois se surpreendem ao ver o povo não mais acreditando em seu "jornalismo".

***

Olha aí, ó. Ou

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3 comentários sobre “As eleições e a carne

  1. Olá passei para conhecer seu blog ele é not°10, fantástico com excelente conteúdo você fez um ótimo trabalho desejo muito sucesso em sua caminha e objetivo no seu Hiper blog e que DEUS ilumine seus caminhos e da sua família
    Um grande abraço e tudo de bom

  2. Acabei de passar umas duas horas lendo uns dez posts tendo as eleições e o processo político como tema. Claro q não me surpreendi em nada com o conteúdo. Me surpreende que não tenham reprecurssão semelhante aqueles do NPTO, do Biscoito Fino, do Mosca Azul (dentre outros que lembro, no momento, e que acompanho regularmente). Diria que esses citados, independente de serem muito bons, são militantes. Catatau tem um tom mais intelectualizado, o q torna a leitura mais complexa. De toda forma, ocorreu-me divulgar mais alguns blogues que não são blogbusters (trocadilho infame em inglês, já viu?..), visto que o causa:: fica numa posição intermediária. Por sinal, Catatau, gostaria de ler no Catatau um comentário sobre a candidatura Tiririca, Mulher-Pera, Ronaldo Esper etc. Pode parecer curioso, mas pessoalmente, acho que, se já é difícil falar em “democracia” num contexto como o do Ocidente (com algumas excessões, cada vez mais excessões), ficará mais difícil ainda falar nisso (seja lá o que for que signifique…) caso se dê um jeito de impedir que essas pessoas se canditatem por serem o que são.

    RE: Oi Bitten,
    Obrigado pela leitura e considerações. Veremos então, adiante, um post sobre… Tiririca!
    Mulher-Pêra é candidata? Minha nossa!
    Taí um neologismo interessante: blogbuster, rsss
    Abraço,

  3. Muito bom o post. Concordo com você, talvez seja um indício de que as pessoas em geral já estejam percebendo a proximidade da ficção que as coberturas jornalísticas, principalmente as políticas têm. Esse assunto me interessa bastante, inclusive, em 2004, na conclusão da graduação, minha monografia foi uma análise da cobertura feita pelo JN das eleições de 2002. E, como sempre, as preferências políticas do jornal ficam muito claras para quem quiser prestar um pouquinho de atenção. Um abraço, sucesso!

    RE: Oi Juliane,
    Obrigado pelo comentário. Como foi sua pesquisa de monografia, que tipo de coisa você abordou? E como foram os resultados? Esse tipo de coisa é importante. Não sei se você trabalhou com Lima, mas parece ir na mesma direção, mais ou menos isso?
    Abraço!

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