Apocalípticos e Integrados

Ficará para a história do esquecimento o sorrisinho de William Bonner e Fátima Bernardes ontem, no Jornal Nacional. Perfeita jogada (de truco, não de xadrez).

Motivado pelas imagens do SBT, o presidente Lula fez críticas severas a Serra, devido ao factóide do papelzinho jogado em sua careca. Para Lula, Serra deveria pedir desculpas pela mentira. 

No horário eleitoral, os dois programas utilizaram o fato. Primeiro, o programa de Serra tentou fazer render seu caráter agressivo. Se vivêssemos em uma situação  politicamente saudável, poderíamos dizer: certamente, na discussão pública qualquer ato de agressividade mínimo indica não mais uma discussão mas imposição.

Contudo, a agressão pode ter outras formas mais tênues do que um empurrão ou um bolinho de papel.

O programa de Dilma investiu nesse segundo fator: uma coisa é denunciar uma agressão; outra, bem diferente, é fazê-la repercutir como um atentado. Para desmontar a tese do atentado, o programa mostrou as imagens do SBT, as mesmas comentadas depois pelo presidente Lula.

Terminado o horário eleitoral, recomeça o JN sem nenhuma propaganda. Bonner e Fátima esboçam um sorriso maroto e começam a noticiar. 

Ênfase na declaração de Lula sobre Serra se comportar como um Rojas (o goleiro do Chile que simulou ser atingido por um rojão caído próximo dele), repetição das imagens do SBT e enfim, a cartada: um desses peritos oficiais do noticiário tupiniquim constatou, numa das primeiras imagens publicamente divulgadas (as imagens mais polêmicas tem sempre a ocasião de serem mal feitas), o tal rolo de fita crepe atingindo a cabeça de Serra.

A economia retórica é muito interessante. No entremeio, Bonner e Fátima noticiam também a agressão a Dilma ocorrida em Curitiba. Tentaram jogar balões cheios d’água na candidata, além dela quase ser alvejada por uma bandeira. Mas ela declara que não transformará o fato em factóide e fim de papo.

Fim de papo para Dilma. Mas conforme o jornal, não para Serra. A imagem do SBT era uma; a do celular mostrava outro acontecimento diferente. O médico, indignado, declarou que Serra teve um "edema" (sic). O efeito retórico do jornal é nítido em um trend topic do twitter: "lulamente".

O significado da notícia foi bem claro: Lula mentiu (não se enganou ou não se precipitou) e Serra recebeu algo semelhante a um atentado. Dilma foi agredida? Conte-se o tempo, as ênfases, as entonações, o drama empregado pela imagem e som da notícia para concluir. 

O jornal não nos mostrou um mal entendido (ou má fé) em cadeia, do infeliz tumulto ao infeliz papel/rolo jogado, até a à infeliz exploração hiperbólica do fato por Serra e o comentário precipitado de Lula. O claro desequilíbrio da  cobertura nas agressões a Dilma ou Serra passou totalmente batido. Não temos imagens para julgar, apenas prescrições sobre o que devemos ou não pensar.

Quem sabe um dia certa imprensa brasileira conseguirá fazer coberturas isentas e oferecer ao espectador parâmetros semelhantes ao que Voltaire chamava de "imparcialidade". Não me refiro à imparcialidade propriamente dita (ela é um mito), mas à tarefa do jornalista apresentar os tais "fatos" de uma forma que o povo os julgue, ao invés de se achar o juiz do fato e o juízo do povo.

Sem isso, temos as pautas principais dessa eleição: aborto, religiosidade e agora o papel amassado.

***

E se está em questão o papelzinho, vale ver uma segunda análise: O prof. José Antonio Meira da Rocha (da UFSM) analisa quadro a quadro e contesta o perito e a análise da Globo, mostrando tudo ao leitor. E seu site saiu fora do ar.

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