“Democratas” relativizando a democracia

Desde o fim do regime militar, construiu-se um preceito muito difundido e reforçado no país, o de que a democracia consiste em votar a cada tantos anos em alguém.

Conforme tal concepção, a democracia não se define pela vida pública globalmente ativa, mas por um momento dela, o momento preciso do voto. Os maiores jornais do país sempre reforçaram isso. Por exemplo, não é muito difícil ver reportagens sobre projetos "sociais" que tornam o brasileiro "cidadão". Às vezes, na mesma edição, o âncora comenta sobre as virtudes de poder votar. Certamente essa virtude é um avanço sem medidas diante da ditadura, mas o esquema apresentado é curioso: vivemos em um país no qual os indivíduos podem ou não adquirir cidadania; mas ao mesmo tempo, todos os indivíduos, cidadãos ou não, podem votar. Somos todos cidadãos de uma cidadania que muitas vezes não se possui, mas se conquista.

Malgrado todo esse conjunto de preceitos – vale reforçar, sempre reiterado e sustentado pelos maiores jornais do Brasil -, com o passar do tempo o povo brasileiro conseguiu eleger um homem do povo e agora uma mulher apoiada pelo tal homem do povo. Se houve um tema que sempre sustentou a quimera do voto e da implícita cidadania relativa do brasileiro, a votação popular se apropriou desse tema e elegeu por três vezes seguidas um candidato de viés preponderantemente social.

Mas nos últimos dias a eleição de Dilma ocasionou um tipo de discussão muito estranho. Em tom pejorativo, acusaram "os nordestinos" e "os pobres" por sua vitória. Jornais como O Globo e a Folha manifestaram essas acusações em um curioso tom "jornalístico": O Globo julgou suficiente apenas descrever as inúmeras manifestações de ódio no twitter; a Folha também apenas descreveu eleitores de classe média alta na praia, acusando a eleição de "favorecer os pobres" com a mesma preguiça usada para desconsiderar a responsabilidade de votar. Raciocínio impressionante: "Nós, os não pobres, viemos à praia, por isso a eleição não nos beneficiou". 

Os dois preconceitos são graves e suas bases já foram desmentidas por Idelber Avelar e Morais. Mas os jornais curiosamente apenas descreveram esses preconceitos, sem os desmentir.

Como ler isso? Por acaso ou não, esse tipo de manifestação acompanhou outras. Por exemplo, o senador Agripino Maia (DEM/RN) lançou mão de um curioso juízo:

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Esse tweet acompanha outros de sua timeline muito semelhantes, basta consultar. O que tal declaração subentende? Não o reconhecimento de uma derrota, mas a acusação de uma ilegitimidade: no segundo turno, o povo, a maioria dele, "não quis" Dilma.

Juízo reiterado por outros senadores, por exemplo Alvaro Dias (PSDB/PR):

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Novamente um raciocínio semelhante. A idéia evoca novamente ilegitimidade, pois numa democracia definida pelo voto da maioria, "essa maioria toda" não votou em Dilma. Idéia complementada pelo seguinte:

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Não há ilegalidade alguma em tais declarações. Mas elas não impedem a pergunta: tais senadores conjecturariam as mesmas questões em uma vitória de Serra? Certamente não. Por isso não está em questão propriamente se nossa democracia cumpre ou não seus objetivos prescritos, e sim se ela cumpre certos objetivos.

Notemos o que é grave: tais democratas não contestam por exemplo os motivos da votação ou por que, nas regras eleitorais dadas, o povo escolheu o candidato adversário; eles contestam as regras eleitorais mesmas. Para eles o resultado das eleições não põe em questão projetos de governo ou a derrota notável na  presidência, na câmara e no senado, mas sim as próprias eleições, o formato delas.

Segundo eles, a regularidade das eleições fez com que "a maioria não a quis" e abriu a possibilidade de conjecturar sobre mudanças em seu formato.

Curiosos elementos se colocam nessas curiosas declarações. Só resta saber se os riquinhos que se consideram miticamente numerosos por  se aglomerarem em praias sujas terão outra desculpa se o voto for facultativo. Mas se eles estavam na praia, já não o era?

 ***

Em relação à reportagem d’O Globo, vale reconhecer o desmentido: em matéria no G1, demonstra-se que mesmo sem os eleitores do Norte e do Nordeste, Dilma venceria Serra.

 

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4 comentários em ““Democratas” relativizando a democracia

  1. Em parte um meu nick do twiter @jprighetto aparece no do Agripino mas eu estava rebatendo uma baita bobagem relativisando a democracia: “@joseagripino O sr bebeu? num país com 135 milhões de eleitores sempre o perderdor tende a ter votação expressiva não seja ridículo trololó” isso foi o que gerou aquela resposta estapafurdia : “Em eleitorado de 135 milhões, Dilma obteve 55,7 milhões, 41,2% do eleitorado, @jprighetto Mais da metate não a quis”

  2. Essa argumentação estapafúrdia tem um pedigree sinistro: a UDN tentou questionar a legitimidade das eleições de Getúlio Vargas em 1950 e JK em 1955 quase foi derrubado com base no mesmo discurso. Como os dois tiveram menos da metade dos votos do eleitorado da época [coisa quase inevitável em um sistema multipartidário sem segundo turno, digasse de passagem], eles não teriam legitimidade para governar. Essa reciclagem sinistra da linguagem golpista da UDN não é de hoje: o termo “república sindicalista” foi inventado por Carlos Lacerda em cima de uma carta falsa de um deputado peronista a Jango e “mar de lama” é também parte da cruzada de Lacerda contra Getúlio.

  3. Incríveis são as outras leituras que estão fazendo desses comentários. Vi um hoje que dizia que aqueles que votaram em branco ou não votaram, juntamente com os que votaram em Serra, são adversários do lulismo. Infelizmente, por trabalhar longe de meu domicílio eleitoral e ter sido escalado para trabalhar no plantão das eleições, não pude votar. Outros quarenta e três colegas que votariam em Dilma e mais seis que votariam em Serra passaram pelo mesmo. E todos entram na conta dos que desaprovam o lulismo.
    Os malabarismos para distorcer a derrota ficam cada vez mais preconceituosos e irreais.

  4. Ué, e o Agripino Maia foi reeleito com qual porcentagem do eleitorado? 958.891 votos do RN são 32,23% de lá, não? Ou a votação em dois Senadores faz algum passe de mágica que o sacramente Duque ou Conde do Rio Grande do Norte?

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