O mal menor

 
 
Ivan Pavlov, o conhecido fisiologista russo e ganhador do prêmio Nobel de Medicina em 1904, tinha uma relação controvertida com a terra mãe.
 
Durante o czarismo suas pesquisas não eram definitivamente financiadas. Após a Revolução Russa e especialmente durante os anos 20, ele recebeu muito financiamento.
 
Mas o pesquisador chamava ironicamente o regime da URSS de "experimento social", enquanto aplicava experimentos de toda sorte em seus cães. Mais de uma vez ele comentou sobre as reações do cão na aplicação de ácido sobre a língua, minuciosamente descrevendo seus efeitos corrosivos e analisando funcionalmente o acontecimento. Naqueles tempos, fazer do homem um objeto à mercê de interesses sociais talvez ainda era assunto para o riso ou desagrado dos cientistas (ou pelo menos de alguns de seus melhores), enquanto não se tinha maiores restrições relativas aos direitos dos animais.
 
O governo dedicava grandes financiamentos a Pavlov; em contrapartida, diversos de seus pronunciamentos eram diametralmente contestadores.
 
Conforme uma história conhecida, durante a Revolução Russa ele reprovou o atraso de um aluno, justificado pelo banho de sangue que o obrigou a fazer um caminho maior até o laboratório. Pavlov, que chegara no horário (igual a todos os dias), repreendeu o aluno e pediu para que ele não se atrasasse na próxima Revolução!
 
Ou então, quando no fim dos anos 20 as instituições começaram a contratar apenas professores socialistas, o cientista, já notório há longo tempo, criticou publicamente Stalin, declarando ter vergonha de ser russo.
 
Com o passar do tempo, a atitude do pesquisador para com o Regime mudou. Não se tornou absolutamente elogiosa, mas estranhamente condescendente. O nazismo despontava no horizonte, e com ele a sombra de mais uma guerra. Enfraquecida, a URSS poderia passar de seu estatismo stalinista para um regime fascista em moldes hitlerianos… sem contar a guerra.
 
Dos males, dizem alguns comentadores, Pavlov escolheu no fim da vida – estamos nos anos 30, ele faleceu em 1936 – o menor. Talvez pensasse numa probabilidade maior de mudança sem a ameaça do hitlerismo, mesmo não gostando de Stalin.
 
Sua obra continuou notoriamente cultivada pelos russos. Certamente sob deturpações, pois ao mesmo tempo que os stalinistas cultivavam certa ortodoxia, contrariavam o mestre fechando qualquer debate dentro de propósitos não mais científicos, mas partidários. Semelhante ao que ocorreu no caso Lyssenko, muitos estudiosos não pavlovianos cairam em descrença, descrédito ou mesmo desprezo.
 
 
O estranho primado do pavlovismo estaria com os dias contados, especialmente depois da morte de Stalin em 1953. Não sem antes, em 1950, uma grande Conferência Científica homenagear Pavlov e condenar pesquisadores heterodoxos. Conferência dedicada a Stalin.
 
Nesses mesmos anos, entre anúncios de eletrodomésticos para housewives e TV’s para assistir futebol americano, revistas como a Life  divulgavam o "medonho" regime stalinista e seus "800 milhões de cães". Nos dois lados da Cortina de Ferro pesquisadores se cotucavam, movidos por inspirações muitas vezes mais políticas do que científicas. Pavlov já estava morto. Mas não o mesmo tipo de interferência que sempre impediu boas pesquisas.
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4 comentários sobre “O mal menor

  1. pavlov se autoconsiderava um espécime em um experimento pessoal/social? ele achava que ele próprio era um ratinho de laboratório naquilo que chamava de experimento social durante a revolução, estudando o nível de condicionamento a que se submetia? ou entendi errado?

    RE: Boa pergunta, rsss
    Isso é engraçado porque havia na época a expressão “experimento social”, na URSS aparentemente com uso mais político do que científico (embora é interessante hoje darem um tom até mais generalizadamente científico a isso). Inclusive em mais de 1 editorial a revista Life “acusou” o “medonho” regime stalinista de querer controlar com reflexos condicionados seus “800 milhões de cães” (obviamente falando do outro lado da Cortina de Ferro). Dentro da URSS a questão se fatia em várias: durante a vida de Pavlov e depois, muita gente defendeu que sua fisiologia era totalmente afim ao materialismo dialético, de modos diferentes variando as décadas (por exemplo na época de Lenin e Trotski, mais precisamente nos anos 20, na discussão sobre a ‘verdadeira’ psicologia marxista, ou depois, quando o pavlovismo foi alçado por decreto como ‘a’ psicologia soviética). O que põe o problema de Pavlov, do materialismo dialético e da URSS lendo tudo isso e falando a expressão “experimento social”
    Mas Pavlov, ele mesmo, pelo que parece se referia a essa expressão com ironia. Alguns comentadores apontam ironia, enquanto outros se referem a ‘ingenuidade política’ e assim por diante. O fato é que ele recebeu bastante financiamento depois da Revolução e sua celebridade apenas aumentou, com muita voz elogiando seu modelo de reflexo condicionado, mas pelo que parece, ninguém levando muito a sério seus posicionamentos sazonais contra o regime. Enfim, pelo jeito ele parecia não se considerar um cachorro e tb parecia não gostar do ‘experimento’ stalinista, mesmo postulando que a fisiologia animal poderia fundamentar a psicologia humana, rsss

  2. Muito interessante! Desconhecia a maioria destas informações sobre Pavlov…

    Duas curiosidade: O condicionamento (social, que seja) criticado pela Life foi justamente cair nas graças do Watson (e depois do Skinner) e foi o fundamento para a maior força da psicologia americana no séc. XX! A outra, parece que o Pavlov não tinha muito orgulho da sua maior descoberta, o condicionamento respondente. Sempre fazia questão de afirmar que sua pesquisa e o seu legado era para com a fisiologia (principalmente fisiologia da digestão) e não para a psicologia.

    RE: Pois é, interessante mesmo!
    O negócio é precisamente esse uso da Life, quase como uma imagem invertida do que ocorria na URSS. Por exemplo, esse editorial da Life de outubro de 1953: “os prisioneiros de Pavlov” (!)
    Curiosamente, Watson publicou seu artigo lá por 1910/1911; Skinner já estava publicando, ou quase publicando seu Ciência e Comportamento Humano (1959?). Mas nada disso poupava, entre propagandas de cigarro e televisão, as críticas ao uso de Pavlov (real ou fictício) como algo perverso.
    O Pavlov não tinha orgulho do condicionamento respondente? Parece que ele na verdade tinha era restrições à necessidade da psicologia, precisamente pelos poderes do condicionamento reflexo dispensá-la (mas quanto a isso não estou muito certo). O q vc acha?

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