O futuro chinês

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Muito interessante a entrevista com Slavoj Zizek sobre a "era da democracia terminal". Em pauta, a crise contemporânea e a ascensão da China como possível exemplar do mundo futuro:

O senhor sustenta que foi cortada toda conexão entre democracia e capitalismo. Como isso ocorreu? E o que substituiu hoje esse laço?

Sim, na minha interpretação, isso ocorre principalmente na China, embora não só lá. Há algum tempo, o meu amigo Peter Sloterdijk me confessou que, tendo que imaginar em honra de quem se construiriam estátuas em um século, a sua resposta seria a Lee Kwan Yew, por mais de 30 anos primeiro-ministro de Singapura. Foi ele que inventou aquela prática de grande sucesso que, poeticamente, podemos chamar de "capitalismo asiático": um modelo econômico ainda mais dinâmico e produtivo do que o nosso, mas que pode abrir mão da democracia e até funciona melhor sem democracia. Deng Xiaoping visitou a Singapura quando Lee estava introduzindo as suas reformas e se convenceu de que esse modelo deveria ser aplicado na China.

A China é o surpreendente laboratório no qual se projeta o nosso futuro?

Digamos que há alguns elementos que vão nessa direção. Se um novo modelo se afirma e condiciona mundos culturalmente distantes, não se pode não avaliar sua força de penetração. Além disso, vejo aspectos desse processo também nos EUA (…). Não é, portanto, uma questão de indivíduos loucos ou autoritários: não, há algo no capitalismo contemporâneo que leva nessa direção.

(…) A famosa "globalização" ampliou problemas que tradicionalmente encontravam uma solução no âmbito dos Estados-nação. Hoje, não é mais assim. Que efeitos isso traz para a democracia?

Acredito que os mecanismos democráticos não são mais suficientes para enfrentar o tipo de conflitos que se colocam no horizonte (…). Parecem exigir um "governo de especialistas" muito decisório, que se expresse na naquilo que é preciso fazer e o coloque em ação rapidamente, sem muitas cerimônias (…). E é um fenômeno verdadeiramente novo, uma época nova, eu diria. Mas o ponto, veja bem, não é criticar a democracia em si. É preciso compreender como a democracia está se autodestruindo, e é importante destacar seu aspecto estrutural: não se trata das decisões de péssimos líderes individuais, da sua sede de poder ou afins: é o próprio sistema que não pode mais se reproduzir de modo autenticamente democrática.

 A entrevista continua lá. Mas é curioso notar como Zizek critica o capitalismo (e os capitalistas) de um jeito muito semelhante a como se criticou muito certa omissão dos partidos comunistas frente ao stalinismo algum tempo atrás. Depois da morte de Stalin, surgiram diversos "escândalos": em torno da existência dos Gulags, do culto à figura de Stalin (como um regime dedicado à superação das individualidades cultua um indivíduo-mor?), do uso estatal da ciência (Lyssenko é o caso agudo, mas isso também se refletiu em Pavlov), das práticas autoritárias…

Na época, muitos (especialmente diversos partidos comunistas) tentaram concentrar as críticas no que a URSS apresentava de negativo: "nós não compartilhamos desses defeitos", "não incorreremos nos mesmos erros" eram os temas gerais. Retirando um erro aqui, fazendo uma correção ortopédica ali, os novos regimes comunistas não incorreriam nos erros do regime soviético. 

Mas muitos desses críticos, chamando a atenção apenas ao que a URSS tinha de negativo, não chegavam a se perguntar como foi possível algo como o Gulag ser criado em um regime que deveria ser comunista. Isto é, o Gulag não se anexou às práticas soviéticas como uma anomalia exterior; essas práticas mesmas articularam, de algum modo, a  necessidade dos Gulags. O problema efetivo não passaria então por simples correções ortopédicas, mas em levar a sério como tais práticas se tornaram possíveis.

Zizek parece fazer, a quem considera os "desvios" do capitalismo apenas como desvios ajustáveis, perguntas semelhantes. Do lado de cá da Cortina de Ferro e até hoje, sempre o ligamos ao "mundo livre". Mas esse vínculo há muito também balançava (por exemplo nos golpes de Estado patrocinados pelos EUA e o apoio a diversas ditaduras depois do pós-guerra), de modo enviesado, mas estourando hoje em questões como a tortura, a vigilância generalizada e as mudanças na produção e na concorrência internacional. Seriam esses fatores "desvios" do capitalismo? Zizek sugere que não.

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Um comentário sobre “O futuro chinês

  1. Pois é. Mas entre a democracia surrada, sempre imperfeita e sempre em construção do ocidente e o “novo” modelo chinês, ainda vale a pena escolher o lado de cá. Penso eu.

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