Uma conta ingênua sobre o Afeganistão

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Até o início do ano, diz-se, os EUA gastaram no Iraque e no Afeganistão nada menos do que 1 trilhão e 300 bilhões de dólares.

De um lado, é impressionante tal gasto não vir de um país que se transformou inteiramente numa máquina de guerra: a vida nos EUA continua normal, a despeito dos  gastos incríveis. De algum modo a guerra deixou de ser uma situação-limite e faz parte dos processos "normais" de um país.

De outro lado, é também impressionante comparar tal soma com, por exemplo, a população do Afeganistão. Caso se escolhesse dividir tal valor de 1,3 trilhão entre os 26 milhões de habitantes do país, cada habitante (homem, mulher, criança) receberia, durante os anos, quase 50 mil dólares!

Mantendo a conta ingênua (ingênua?), um casal sem filhos receberia 100 mil dólares, renda absolutamente considerável.

Certamente o mundo não é assim. A indústria armamentista, seu papel numa economia como a dos EUA e o próprio balanço das relações econômicas e sociais nos EUA e no Afeganistão torna tudo muito mais difícil. Nesse sentido, não cansamos de citar uma  passagem de A Grande Guerra pela Civilização [livro, preços], na qual Robert Fisk escreve sobre os talibans acertando no alvo e fugindo de todos os clichês:

(…) "O que você espera?", perguntou-me o jardineiro, perto das ruínas do antigo palácio de inverno em Jalalabad. "Os talibans vieram dos campos de refugiados. Eles apenas estão nos dando o que tiveram". Isso clareou tudo: as novas leis do Afeganistão – tão anacrônicas e brutais para nós e os afegãos educados – eram menos uma tentativa de reviver a religião do que a continuação da vida dos vastos campos imundos nos quais tantos milhões de afegãos se amontoaram, nas fronteiras de seu país, durante a invasão soviética (…) [tradução livre] 

O que significa: por um lado, os talibans não se definem tanto assim por seu arcaísmo, mas sobretudo pela tentativa de universalizar o arcaísmo – certas práticas locais, em muitos aspectos alheias ao Islã, nascidas na imundície da vida refugiada. Não está em jogo tanto assim as crenças locais, particulares e "retrógradas" do secto (existem tantos outros mundo afora), mas sim a tentativa – violenta – de reduzir tudo o mais a essas particularidades.

E por outro lado, não deixa de ser curiosa, por exemplo, a intervenção predominantemente bélica contra questões culturais. O belicismo se reflete até mesmo na campanha da retirada: os EUA começam a se retirar do país deixando como última tarefa formar um "exército afegão" contra os talibans. Mas 10 anos e 1,3 trilhão não eliminaram a "ameaça". Por que será?

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2 comentários sobre “Uma conta ingênua sobre o Afeganistão

  1. Puxa, já passaram dez anos. Será que a investida cultural se realiza? Achei boa a questão levantada no twitter. Problema é que Oriente Médio de hoje não é América Latina dos anos 1950-60. Um abraço.

    RE: Pois é, com certeza.

    E outra: se a citação do Fisk estiver correta, veja que interessante: a cultura taliban foi criada e reforçada em uma situação de invasão e guerra. Não é isso incrível, se considerarmos o fator belicista da invasão norte-americana?

    O que não põe a questão de “então eles erraram; tirando as armas os talibans mudam”. O mais interessante é que isso já era evidente desde o início!

    Abraço,

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