Natal


Giovanni di Paolo – Nascimento de Cristo (1455)

Parece que o natal perdeu antigas sutilezas.

É incrível como mudaram os modos de aparecimento do papai-noel. Por um lado ele se multiplicou em tantos preços quanto compradores (há um papai-noel para cada gosto). Por outro lado o papai-noel de carne e osso, aquele velhinho antigamente contratado, cedeu hoje lugar a um mundaréu de futuro lixo de plástico e espuma.

O "bom velhinho" está em todo lugar. E se ele pode ser aquele artigo tosco de plástico laureado com panos mal amarrados ou o boneco mecanizado de última geração dos shoppings, um de seus símbolos universais pelo menos continua bem vivo, talvez mais vivo do que nunca: todo papai-noel ou carrega um saco de presentes ou é rodeado por eles.

Certo, o papai-noel sempre invadiu as casas com seus presentes. Mas antes os presentes e o papai-noel não eram made in China.

Qual é o problema do papai-noel e os presentes serem made in China? Nenhum, certamente.

Ou talvez há sim algo interessante. É curioso aquele papai-noel encardido do Terminal do Tietê (isto é, do mundo inteiro) conviver com os gigantescos engarrafamentos da Regis Bittencourt (isto é, do mundo inteiro) dos últimos dias, do mesmo modo como é curioso vermos em pequenas construções como a de Bansky (para abreviar o assunto) como valores de consumo se relacionam com valores sociais e processos de produção. Isto é, o papai-noel de plástico convive com curiosas relações dos indivíduos consigo e com os outros.

Ontem, disseram as concessionárias da Regis Bittencourt, os "culpados"  pelo engarrafamento foram manifestantes: alguém atropelou e matou um jovem ou uma criança. Indignada, a comunidade local foi à rodovia protestar. Como de costume, os jornais difundiram sem mais a versão das concessionárias: o culpado do engarrafamento é a comunidade.

Se é assim, como explicariam os engarrafamentos dos últimos dias? Houve outros protestos? Pelo menos para as concessionárias e jornais isso não é um problema, embora para a mesma comunidade que protestou e o menino morto certamente o seja (não é difícil imaginar como o menino morreu…).

Menino morto? Isso não é importante, o importante é o natal, isto é, o papai-noel e os presentes. O importante é que essa rodovia é ruim e eu vou demorar. Na rodovia, a notícia da morte e do protesto ecoou de carro a carro por quilômetros, fabulosa rede de informalidades e cooperação. Mas a cooperação verbal tem sua contraparte na ação – por quilômetros e quilômetros um eterno desfile de imprudência mostrava todo momento a que cada um veio: carros invadiam o acostamento ou, quando possível, o gramado. Nessas guerras  natalinas de todos contra todos é curioso notar a conversão dos caminhoneiros em motoristas de carros populares, enquanto os pequenos carros se comportam como carretas.

Mas novamente, isso tudo não é importante, importa o natal: chegar em casa logo, ver os próximos, deixar de lado tudo o que a rotina estafante, ou textos estafantes sobre a rotina, poderiam dizer. Cada um aos milhões,  cada qual a seu modo, pelo menos no fim do ano joga tudo para o ar. Ninguém quer nem saber até retornar àquilo que julga ser importante, afastado desse universo de sujeira, pelo menos até o fim do carnaval.

Pelo menos alguns dias com a família ou os amigos perdoarão essa rotina que cada um nunca admitiria, caso algum dia precisasse contar a história de sua vida, como sua própria. Eu sou este que faz tudo isso para encontrar minha família (ou quem sabe chegar logo à balada); aquele outro que "não quis nem saber" nos últimos dias em suas relações com o mundo ao redor não sou eu, ou pelo menos sou eu com alguma, digamos, licença anti-poética, a mesma dos carros subindo no gramado.

Olho ao meu redor e só vejo toda essa gente com vistas a outro momento, outro lugar, olhando para lugar algum, ausentes e ao mesmo tempo presentes nesse metrô entulhado de gente, alheias a esse ônibus, trânsito, cidade e pessoas ao redor. Ninguém está nem aí porque ninguém está aí. Não sou esse, embora o ano inteiro o seja. Estou aqui, projetando sempre outro lugar. E no fim do ano, quando cada qual declara ter um momento  "seu", esse retorno a si coincide com a figura do velhinho de plástico e o pacote de presentes.


Edward Burne-Jones, The Star of Bethlehem, 1887-1891

No meio disso tudo, é surpreendente o relato do nascimento de Jesus. Cada elemento da tradição chama a atenção a um certo tipo de relação, não apenas cristã mas antiga, do indivíduo consigo, com os outros e com o mundo ao redor.

Em Mateus, José está prestes a repudiar Maria quando, em sonho, recebe o aviso dos desígnios superiores. Ao mesmo tempo, três "magos do Oriente" aparecem ao rei Herodes buscando o Messias. Tais magos, ainda segundo a tradição, constataram o nascimento do Messias em espécies de cartas celestes. Algo que, como diz Alonso Schokel, se encontra entre a astrologia, a astronomia e as "ciências" (até isso merece aspas para afugentar historiadores de involuntária má fé) orientais da época. Encontrando-se com Herodes, os "magos" narram o aparecimento de um "astro". Tal astro diz respeito a Belém. E, encaminhando-se para lá, os magos encontram o próprio astro, movendo-se até parar na localidade. Os ritos terminam com os presentes do ouro, incenso e mirra. E mais: avisados por sonho, os magos não retornam a Herodes.


Jans tot Sint Geertgen – Nascimento de Cristo (1490)

Não há nada de novo nesses relatos, basta abrir Mateus 1 e 2.  Ou melhor, a ausência de novidade desses relatos talvez diga respeito à nossa própria morosidade frente a noéis de plástico e à vida ao redor. Não me refiro aqui à necessidade ou não de, para além dessa morosidade, reencontrarmos uma religião perdida e descaracterizada por nós mesmos (e nem o contrário). O problema está precisamente nessa relação vazia com signos que nós mesmos constatamos ser vazios, porém comportando-nos diante deles de um modo que nem sabemos direito qual é.

Voltando a Mateus: diante de nosso olhar moroso saltam aos olhos os papéis do sonho, dos magos, de sua ci&ecir
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e também do acontecimento extraordinário lá descrito. Inclusive tais elementos se revestem de caráter político: o sonho, a "magia" e o acontecimento cósmico dizem respeito a um rei e a uma matança – segundo a tradição, Herodes mandou exterminar as crianças de colo para atingir o Rei dos Judeus.

Certamente é abafar tudo em nossa morosidade perguntarmos se tais atos, narrados lá no primeiro século  e depois escritos, são "verdadeiros", "reais", como se com um metro pudéssemos chegar ali e medir o que aqueles ignorantes antigos desconheciam.

Isso tudo é ignorar uma série de coisas. Por exemplo, nem chegamos a compreender, nessa pequena passagem, o papel do sonho e as relações entre o sonho e a vigília; não entendemos nada do que significa a palavra μάγος (magos), seu significado da época e seus enraizamentos orientais, possivelmente persas. Finalmente, avaliamos com certa suspeita se havia mesmo ali uma estrela, dessas que os astrônomos olham com o Hubble, sem termos qualquer idéia de que o evangelho em grego utilizava a palavra ἀστέρος (asteros), portanto utilizando uma linguagem antiga para descrever tradições orientais também antigas. Quais seriam os significados de ὄναρ (onar, sonho), derivado de oneiros, diverso de enupnia e transliterado naquelas tradições hebraicas e aramaicas?

Comemoramos o nascimento de Cristo, compramos presentes olhando para o papai-noel de plástico, sem compreender muito bem o que estamos fazendo.

O que se pode dizer: não deixa de ser notável a relação de José e dos Magos com seus sonhos serem diversas de nossas ilusões passageiras e desejos secretos durante a noite; não deixam de ser notáveis as consequências políticas daqueles sonhos – atos imaginários – e mesmo suas relações com a vida do sonhador e até do Rei. Finalmente, não deixa de ser surpreendente como acontecimentos extraordinários, efetivos, reais, se relacionariam diretamente com condutas que chamaríamos de imaginárias.

Isso tudo quer dizer que deveríamos voltar ao tema positivista do livre curso de uma imaginação mágica? Seria tolo pensar assim. Mas certamente cada elemento dessas práticas antigas aponta negativamente com o dedo à nossa relação com nós mesmos, nossa cidade e nossos noéis de plástico. Quem escolhe viver um ano inteiro não se reconhecendo no que faz, na cidade em que vive, em meio a seus convivas ou nos modos de ir e vir certamente empreende um tipo de relação consigo e com os outros muito peculiar. Ele dá uma dimensão à própria vida, seja qual for.

Nesse sentido podemos olhar para o sonho, a "ciência" e os outros elementos lá de Mateus. Mesmo nos relatos não bíblicos, tais elementos dizem respeito à constituição de certo tipo de dimensão efetiva conferida à vida. Entre o que o antigo é, o que faz, como se relaciona consigo e o que ocorre fora de si há implicações, circunscritas até mesmo no sonho. O fato de se estar no Egito ou em Belém, ficar no oriente ou deslocar-se em função de um asteros confere à vida individual uma dimensão maior do que sua própria individualidade, especialmente envolvendo valores de uma tradição até hoje extremamente durável. Entre o que o homem é e o que faz há uma dimensão superior à própria individualidade. Quando essa dimensão não existe, estão nos arquivos as mais diversas tradições para mostrar como sempre se buscou tal dimensão.

E 2000 anos depois, numa data que em tese comemoraria aqueles acontecimentos antigos, milhões de indivíduos se colocam a comprar, rodeados por manequins vermelhos e com curiosas relações não reconhecidas por eles mesmos com o mundo no qual vivem.

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Um comentário em “Natal

  1. Uma linha de entendimento: quem sabe, diante de tanto bombardeio deceptivo (para minar a percepção e, por tabela, a faculdade de intelecção), as pessoas simplesmente procurem uma razão para estarem juntas, sem pensar muito – ou nada! – nas razões pelas quais. Mafessoli fala um pouco sobre isso. é um entendimento cheio de lacunas por percorrer, mas é um, no emaranhado que tenta entender porque somos como somos, a esta altura dos acontecimentos.

    Abraços!

    RE: Pois é, o que parece interessante é essa modulação das razões das pessoas estarem juntas. Uma vez por ano, no caso, rodeadas com alguns dos elementos descritos no post.

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