Em louvor do nepotismo

https://i1.wp.com/i292.photobucket.com/albums/mm7/catatando/1824251.jpgQuando Darwin passou pelo Brasil no século XIX, ele ficou espantado com as injustiças daqui. Para tirar vantagem nas mais variadas situações o caminho era fácil: "qualquer um pode ser subornado", dizia ele.
 
De um lado o naturalista inglês se espantava com o receio dos negros receberem punições agressivas nas ocasiões mais simples, uma conversa por exemplo. De outro ele se indignava com os privilégios dos ricos. Moral da história: no longínquo século XIX os pobres e escravos permaneciam aquém de qualquer legalidade; e os ricos, para além dela.
 
Não por acaso o último post foi sobre nepotismo. E na mesma linha, Esmael Morais publicou um interessante informe sobre um novo livro, Em Louvor do Nepotismo, de Adam Bellow. Pequeno trecho:
 Segundo recente pesquisa de empresários de vários lugares, o Brasil figura entre os quinze países mais corruptos do mundo. “Como quase sempre conseguem escapar impunes”, escreveu um jornalista, os políticos e funcionários públicos brasileiros “usam a máquina do Estado para obter vantagens pessoais e ajudar amigos e parentes.” O rei do nepotismo brasileiro era um juiz que empregava sessenta e três parentes –entre eles mulher e filhos, sobrinhos, sobrinhas, primos e noras. Todo mês os membros do seu clã embolsavam cerca de 250 mil dólares, ou quase 10% do total da folha de pagamento do Tribunal.
A simples citação de outro trecho chega ser uma piada pronta (poderia ser tocada com algum vídeo do candidato fazendo suas promessas rigorosamente "técnicas" e "meritocráticas"):
Assim, presenciamos nesses países não uma deplorável ausência de espírito público, mas o embate entre dois sistemas éticos inteiramente incompatíveis. É o conflito não solucionado entre esses sistemas conflitantes que origina o tipo de corrupção a que chamamos nepotismo. Os valores modernos que adotamos são os do liberalismo tecnocrático. A alternativa se apresenta sob diferentes formas, com denominações tão variadas como familismo, tribalismo ou nacionalismo étnico. Todas podem ser classificadas no que rotulamos de Nepotismo Primevo. A era do Nepotismo Primevo é uma fase distinta da história, com cerca de dez mil anos, na qual os princípios do parentesco que evoluíram nas primeiras etapas da vida humana originaram uma ampla gama de instituições sociais (… )
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2 comentários sobre “Em louvor do nepotismo

  1. Bom, Catatau, eu tenho um pouco de suspeitas desse discurso de modernidade impessoal versus arcaísmo cordial. As chamadas democracias ocidentais cada vez mais funcionam na base de um discurso ilusionista, no qual a realidade contrasta cada vez mais escandalosamente com o discurso técnico, apolítico da eficiência gerencial. A conivência da mídia é essencial ao embuste, é claro.
    Não faz muito tempo traduzi um paper de administração de empresas em que o sujeito se entusiasmava com o sistema de “redes familiares” que estruturava o capitalismo de alguns países do sudeste asiático – que serão tigres modelos dos neo-liberais de plantão até que com eles aconteça alguma coisa parecida com o que acorreu com os tigres celta [irlanda] e ibérico [espanha]…
    Agora, fora essa corrupção que eu reconheço em MG e até aqui nos EUA, me explica uma coisa: porque é que tem tanto escritor e tanta gente boa de serviço no Paraná, hein? tem tanta gente inteligente e interessante? Será que tem alguma coisa na água de vcs? 😉

    RE: Oi!
    Agora você me pegou, heheh
    Quanto à separação arcaísmo x tecnocracia, com certeza é uma ilusão (mas que responde a diversas estratégias), mas serviu bem à ironia (ler a última citação à luz de diversos discursos da última eleição é impagável)
    Agora, em relação ao Paraná, fiquei em dúvida: você está ironizando (aí eu indicaria isso) ou se refere a gente como Dalton Trevisan, Paulo Leminski e outros?

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