Uma pastoral aplicada a psicopatas

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Fabio Belo publicou um pequeno artigo ("Conceitos Perigosos", em .pdf) sobre uma tarefa cuja realização está na ordem da vez.
 
Sobre essa tarefa, esse pequeno link mostra sua necessidade: hoje diversas práticas, ou mesmo disciplinas com estatuto "científico", agregam um número gigantesco de adeptos – "técnicos", "especialistas" – e não obstante são completos engodos.
 
Engodo: práticas cotidianas auto-proclamadas de "científicas" (ou o que o valha) julgam embasar sua "cientificidade" em cima de conceitos ou pontos de partida duvidosos (para dizer o mínimo). Disciplinas "científicas"  se formulam inteiramente a partir de noções jurídicas, modas sazonais ou mesmo certas palavras de linguajar cotidiano que "emplacaram". E pior: tais "ciências" conseguem agregar pessoal suficiente para exercer politicamente (nas relações institucionais, cotidianas) uma influência inversamente proporcional à sobrevivência dessas noções em um debate, digamos, epistemológico.
 
Belo critica especificamente um livro: "Mentes Perigosas". A autora pretende expor um panorama com estatuto relativamente científico ou de expertise sobre os "psicopatas". Mas o tom do livro é surpreendente, como se pode ver na citação recortada por Belo:
Quanto tiver que decidir em quem confiar, tenha em mente que a combinação consistente de ações maldosas com freqüentes jogos cênicos por sua piedade praticamente equivale a uma placa de aviso luminosa plantada na testa de uma pessoa sem consciência. Pessoas cujos comportamentos reúnam essas duas características não são necessariamente assassinas em série ou nem mesmo violentas. No entanto, não são indivíduos com quem você deva ter amizade, relacionamentos afetivos, dividir segredos, confiar seus bens, seus negócios, seus filhos e nem sequer oferecer abrigo!
Em outras palavras: o livro "científico" emprega uma linguagem não muito diferente da que encontraríamos em revistas de cotidiano ou factóide, como a Runners ou uma Capricho. Com uma diferença essencial, entretanto: enquanto as revistas tratam de receitas cotidianas ou prescrições ("dicas") sobre o bem-viver (beleza, esporte etc.), o livro emprega as mesmas receitas e prescrições (e preconceitos) no que diz respeito a psicopatas!
 
Belo o mostra: no livro os psicopatas se identificam, em maior ou menor grau, com certa noção cotidiana de "mal" (quantos histriônicos ou esquizotípicos não correriam o risco de se tornarem "psicopatas" depois da citação acima?). É incrível o inexistente salto entre o factóide e a "ciência" (perigo evidente: tal salto não ocorrer em práticas de saúde).
 
Certamente o tema "psicopatia" carrega sua própria seriedade e eventualmente nos deparamos com indivíduos que se enquadrariam em algum transtorno de personalidade relacionado. O que é diferente da etiqueta cotidiana, indistinta do preconceito: "o psicopata".
 
"O psicopata" (em sentido ordinário) é um indivíduo perverso mais ou menos identificado ao "mal". Algo bem diferente do que uma categoria médica mostra, ou pelo menos pretende mostrar. A julgar a crescente medicalização de qualquer relação cotidiana (salta um médico fora cada vez que se liga a televisão), é curioso esse movimento contrário. Factóide, preconceito cotidiano, noções ingênuas prescrevendo condutas dos indivíduos, com valor de ciência.
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3 comentários em “Uma pastoral aplicada a psicopatas

  1. (é curioso como Belo desliza a análise de Foucault para uma leitura apressada de “direitos humanos” embasada na Constituição, dando a isso também valor regulador de critérios “científicos” – tratamento igual ou diferente a psicopatas etc.. Ele bem poderia se manter na análise de Foucault, mostrando como a noção de psicopatia concentra em si mesma diversas contradições entre a psicologia e o direito, pois essas disciplinas nunca conseguiram resolver se o problema é de vontade “má” ou irresponsabilidade e menoridade jurídica – Mas isso é outro assunto)

  2. Li o texto no qual se baseia o post e o achei um tanto quanto raso. Poucas referências nas quais se embasa, além de omitir todas as cautelas da autora do livro.

  3. De fato é um assunto muito importante, ainda mais nos dias de hoje. O referido artigo, infelizmente, não pode ser considerado um artigo. Jamais conseguiria qualquer publicação em períodico de impacto. Mas, para uma publicação regional, fruto de iniciação científica, até que aponta direcionamentos críveis para a analise da psicopatia no nosso cotidiano.

    A questão central a ser analisada [psicopatia] se deve balisar pelo divisor de aguas que foi a recente institucionalização da doença mental pela Medicina (século XVIII-XIX). Hoje, tanto o DSM, quanto a CID, reconhecem a existencia de padrões comportamentais desviantes, com início precoce, e que acompanham o desenvolvimento neuro-psico-motor do individuo afetado, nosologicamente, os transtornos da personalidade (F60 ao F69 na CID, ou o Eixo II do DSM). Acontece que o F60.2, ou transtorno antissocial de personalidade, possui amplo espectro sintomatológico, bem como diversidades em seus graus de comprometimento. O transtorno existe, os individuos portadores do transtorno existem.

    Resta discutir se cabe à Medicina responder por estes individuos, ou se consideramos que os transtornos de personalidade não se tratam de uma moléstia mental. Não são uma doença, uma vez que tratam de um estado continuo de existencia, não uma psicopatologia que modifica o modo de ser da pessoa. Nos transtornos de personaldidade, os individuos são, no sentido existencial-fenomenológico, desta forma. Assim, por exemplo, a questão jurídica da imputabilidade penal é discutida segundo estes dois viéses.

    Eu, particularmente, não posso aceitar a conotação de transtorno ou moléstia mental aos individuos portadores de transtornos da personalidade. Estes “desvios” da personalidade normal acabam transtornando a sociedade, ou melhor, um modelo específico de sociedade, uma vez que pessoas com transtorno da personalidade possuem grandes dificuldades de adaptação às demandas sociais atuais: disturbios conjugais, disturbios trabalhistas, enfim, não se moldam ao sistema de produção do mundo cotidiano. Retomando Kreapelin “sofrem e fazem sofrer a sociedade”.

    Talvez, uma possível reflexão, se em sociedades “primitivas”, tribais, as pessoas com “desvios de personalidade” se adequariam melhor? E assim, adequando-se, não seriam mais consideradas portadoras de disturbios da personalidade? Porque, lógico, o que não é a personalidade se não uma produção ideossincrática e singularizada de uma Cultura? É nesta inter-relação entre personalidades e Cultura que muitos conceitos e dogmas são estabelecidos, assim como as definições de moral, ética, e, porque não, saúde e doença.

    Lógico que tudo o que eu expus é superficial, estou em meu horário de almoço :), mas adoraria seguir e aprofundar o tema com os senhores. Ano passado, o grupo de pesquisa da UNIFESP, do qual tenho a horna de fazer parte, apresentou um trabalho em Brasilia, no forum sobre direitos humanos – PNUD. O tema era violencia e cultura/valores. Apresentamos nossos estudos e pesquisas em psicoterapia psicodinamica com pacientes portadores de transtorno de personalidade, trazendo justamente esta reflexão à tona: os determinantes culturais, os valores violentos de nosso cotidianos, e a produção dos transtornos mentais, sobretudo, das personalidades desviantes. Re-invertemos a questão, da consequencia à causa.

    abraços.

    guilherme

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