O Egito e o meu bairro


Ronaldo!
 
É digno de nota o quanto meu não conhecimento do Egito é não desfeito pelo que a imprensa não cobre.
 
Não há como não vir à cabeça uma entrevista com Robert Fisk, na qual ele reprovava seus colegas por cobrir acontecimentos globais como brigas entre vizinhos. A complexidade do mundo vira uma briga de comadres (e não é à toa, nesse sentido, ver  casos como o Reivado Azemedo: não raramente ele declara ser "relativismo" tudo o que foge a posições estereotipadas – o que não é uma posição respeitável, mas simplesmente constatável aos milhares).
 
Mas  não é inútil inverter os termos e ver que até certos erros dos jornalistas de bairro dizem respeito ao marasmo de nossa ignorância.
 
Um exemplo tolo, o trânsito em uma grande cidade brasileira. Jornalistas avaliam que o trânsito vai mal e a cidade tem muitos carros. O trânsito entrou em colapso. Entrevistam uma autoridade. Os relatos (e gerundismos) possuem poucas variações: estamos "fazendo um estudo", um "levantamento", "estaremos fazendo" concursos ou novas leis. O jornalista viu o problema e ouviu as partes. Assunto encerrado.
 
Mas e então, qual é o problema? Ora, entre o problema do trânsito e a fala de um burocrata confortavelmente sentado em seu gabinete há um abismo repleto de fatores, simplesmente desconsiderado. Um universo de problemas foge à discussão "pública": questões como a fiscalização, o transporte público, o lobby de grandes montadoras, o pouco incentivo ou contratação de policiais ou corpos de fiscalização, falta de infra-estrutrutura, privatização de radares, explosão do mercado automotivo… elementos que tornam a resposta do burocrata, e por extensão a pergunta do jornalista, recheadas de vazio.
 
Curiosamente o affair de bairro se reflete na discussão internacional (não no que diz respeito ao bairro, mas ao jornalista).
 
Os manifestantes egípcios pedem para mudar a constituição, pois  ela favorece 30 anos do governo existente; certos jornalistas com gravata borboleta de bolinha dizem que a "transição" deve respeitar a constituição.
 
Mubarak, diz-se, juntou em 30 anos uma fortuna pessoal de bilhões de dólares. Certamente eles não vieram de seu ordenado de presidente. Mas os jornalistas requerem ainda uma espécie de transição pacífica – e por pacífico não se referem apenas à falta de violência, mas sobretudo à ausência de constrangimento institucional.
 
As manifestações configuraram uma verdadeira explosão contra anos de desprivilégios; certos  jornalistas de gravata borboleta dizem "eles já deram seu recado, agora é hora de ir para casa" – como se operasse no Egito prévio às manifestações exatamente as regras de uma sociedade democrática.
 
E assim por diante, é curioso o abismo: sempre quando ocorre uma manifestação dessas, chega algum expert para falar das "instituições", como se a manifestação fosse uma disrupção da institucionalidade e tudo devesse retornar ao rito normal. Mas se é assim, onde estava a institucionalidade antes? No governo de Mubarak? Ora, não foi essa "institucionalidade" mesma que ocasionou a revolta?
 
A "institucionalidade" anterior não corresponde a nenhuma regularidade digna de retorno. Mas – posição cômoda – boa parte dos jornalistas apela ao juízo abstrato das "instituições", da "democracia", da "constituição" para julgar apenas a revolta.
 
E assim não é à toa a cobertura se concentrar no quebra-quebra (aquele, cujo exemplar no bairro ocorre depois de alguns jogos). Tudo o que causou a violência recebe apenas algumas ruminações soltas. Robert Fisk diz uma frase semelhante à seguinte: todo jornalista deveria andar com um livro de história debaixo do braço. Na falta do livro…
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4 comentários em “O Egito e o meu bairro

  1. Muito interessante suas observações, especialmente no que se refere ao apego às instituições. Também percebo que o caos exaspera o jornalista e que a torcida pela queda do Mubarak se dá muito mais para “acabar com essa balburdia” do que pelas questões político/sociais envolvidas. Por sinal, a foto que você postou é muito mais elucidativa do que todas as manchetes lidas na última semana.

  2. me surgiu algo neste isntante: essas manifestações no norte africano, me remetem sem querer/dever fazer comparações, àquelas guerras de libertação de mais de cinquenta anos atrás, ali, pelas redondezas. só que nas de hoje, fico me perguntando: onde estão os filósofos sobre tudo isto?

  3. Olá, excelente pergunta!

    Você se refere ao Irã? É incrível ver, por exemplo naqueles acontecimentos, filósofos clamando para que a filosofia se torne jornalismo, indo cobrir a revolução iraniana no lugar e com os revolucionários e, além do mais, se colocando (mais ou menos felizmente) no jogo que segue da revolução até a tomada do controle pelos aiatolás.

    É incrível quase tudo ficar nessa dualidade instituição x indivíduo (como a Neuzi também chamou a atenção). Fora o artigo do Zizek, que é interessante, mas, como você bem observa indiretamente, foi escrito em NY…

    A propósito: vale conferir as traduções diárias no Outras Palavras

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