Curitiba, seus carros e o transporte público


Cidade Modelo
 
O Deputado estadual Tadeu Veneri (PT) escreveu brevemente: "Além de investir no Estar, a fúria arrecadadora da prefeitura não leva em conta a necessidade de criar alternativas, como ciclovias".

 
Sua declaração é pequena, mas não solta: até a RPC, clássica aliada ‘informal’ do governo, dedicou nos últimos dias diversas reportagens sobre o Estar. Usuários sem bilhete são multados, com o detalhe de que faltam bilhetes no mercado.
 
Não por acaso, na linha da declaração de Veneri e das reportagens da RPC, um estudo da UFPR mostrou o grande descontentamento dos curitibanos para com o transporte público. Com a promessa de melhorias, o último governo fez a primeira licitação do transporte público. Mas a licitação passou seu custo para o próprio usuário, como declararam os burocratas. Se a tese é de melhorias, como o custo repassado ao usuário representaria essas melhorias?
 
O coroamento das melhorias veio esse ano: o aumento da tarifa (sob estranhas justificações)
 
Mas falta comentar o estudo acima: ele mensurou em números o descontentamento sentido pelo curitibano na carne. As ruas trocam estacionamentos por mais vias; o transporte público obriga o usuário a comprar mais carros. Isso tudo se reflete nas ruas: aumenta a frota de carros (Curitiba tem 1,6 habitantes por carro, o maior índice do país), usuários se obrigam a comprar mais carros e as ruas ficam mais abarrotadas. Isso torna o transporte público mais insuportável, obrigando a compra de mais carros e assim por diante.
 
Bom para quem? Para os burocratas, as montadoras e as mecânicas, certamente. Pois o transporte público visa o lucro privado regulado por critérios contratuais, e o que se vê, desde mais de 10 anos, são as medidas da prefeitura configurarem, quando muito, paliativos contra o grande aumento da frota. E vale notar: esses paliativos contribuem com o aumento da frota, não sua diminuição.
 
O estudo da UFPR, junto com a declaração de Veneri, mostra a direção: multi-modalizar o transporte público, começando pelo transporte público. E isso não significa desmontar a cidade inteira ao custo de um metrô. É impossível tirar o usuário do carro se o transporte público não vale a pena.
 
 
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3 comentários sobre “Curitiba, seus carros e o transporte público

  1. Hoje mesmo, na mesma RPC, um cidadão disse o óbvio: não faltam agentes pra multar, mas na hora do caos eles somem.
    Claro que a URBS negou, mas ninguém jamais viu um fiscal do EstaR guardar seu lucrativo bloquinho pra ajudar a organizar alguma coisa do trânsito.

    RE: Pois é, também vi a reportagem. E o repórter foi bonzinho pra caramba, não explorou nada do que disse a otoridade (por exemplo, como ele “desmentiu” os motoristas se ele mesmo admite não haver efetivo para atender a todos?). Expremendo um pouco era necessário confessar que não há pessoal suficiente, que concursos precisariam se fazer etc. etc….

  2. A lógica do financiamento da chamada ‘iniciativa privada’ pelo ‘Estado mínimo’ é a principal diferença entre as ideologias que nos representam após as eleições no Brasil.
    Sobram as muitas coincidências absurdas entre o pensamento dos partidos políticos(todos)!
    O povo curitibano ainda descobrirá que “não é o que pensa ser” e aí inciará mudanças radicais dos conceitos reacionários de uma parte importante de seus habitantes. Demorará, mas virá!
    (veja, simbolicamente o Garibaldis e Sacis no Largo, fazendo a festa que diziam(sic) que nós não gostávamos!)
    Por exemplo, quando ficar mais esperto entenderá que a cidade brasileira que tem o maior número de vaículos por habitantes não pode, por pura metemática, ter o melhor sistema de transporte coletivo do MUNDO!
    Um dia isso, entre outras coisas, será compreendido pelo menos pelos usuários dos ônibus lotados às 4 horas da tarde de todos os dias!

    RE: Espero que isso ocorra realmente “um dia”.
    Pois a aparência é a de que ficar entulhado no ônibus e engasgado com a fumaça angaria grande aprovação popular, não é mesmo?

  3. O problema do transporte público é nacional. Estive recentemente em Manaus e senti saudades do nosso caos interno. Lá o caos é ainda maior, sem querer defender que aqui esteja bom. As pessoas clamam por um “choque de ordem” no transporte através de pixações pela cidade toda e dentro dos onibus a insatisfação se expressa nas conversas.
    Aqui teve um ato em defesa do passe livre para estudantes (10/02). Compareceram cerca de 50 pessoas que, logo após concentração na Tiradentes, foram até a URBS, aprender (sic) como é calculada a tarifa. Fim. Hoje era pra ter outro, com objetivos muito singelos, mas que parecem não oferecer entusiasmo ao grosso da população.
    Há uma série de fatores que influenciam a relação que se estabelece com o transporte público no Brasil. Alguns aspectos podem ser encontrados neste artigo da Fapesp: http://www.revistapesquisa.fapesp.br/?art=4331&bd=1&pg=1&lg= (já RT)
    O que devemos fazer?!
    abração

    RE: Oi Alisson!
    Pois é, aí que está, temos que evitar essa questão de comparações. Esse é precisamente o argumento reiterado dos dirigentes curitibanos: Carrotiba é “melhor” ou “muito melhor” do que as outras cidades brasileiras.
    Olhando muitas dessas outras cidades, pode-se dizer: “sim, é melhor”. Mas e então? A questão é que mesmo os dirigentes, quando dizem isso, nivelam por baixo, irrealizam o problema da cidade. Se “é melhor”, isso significa que pode continuar ruim ou até mesmo piorar.
    Mas se é assim, o “é melhor” não significa na verdade que é “menos pior”?
    Enfim, como a piora é cotidiana, creio que a melhora também se conseguirá por medidas cotidianas. Movimentos como o que você citou, unidos a muita informação e persistência, são um bom começo. Não é chato ser “chato” (como dizem), insistir. Isso demanda tempo, ações. Do mesmo modo como agimos saindo de carro e contribuimos com os congestionamentos, também agimos quando não saímos de carro ou mesmo quando tentamos mover insistentemente o 156, publicar artigos, buscar informações, pertencer a movimentos como o acima…
    Ah sim, outra coisa importante: há gente que insiste, mas insistência precisa de foco. Não basta “ser contra”, deve-se fundamentar os pontos contrários. Ser simplesmente contra favorece os burocratas, pois eles sempre conseguem tempo “ensinando” por exemplo como se calcula a tarifa. Se o movimento já evita esse contra-argumento de pronto, aí sim começa o diálogo. Pois é uma baita perda de tempo primeiro tentar diálogo, e depois que o consegue, não conseguir estabelecê-lo… Sem contar que, novamente: favorece os burocratas
    O pessoal do Negri tem um nome legal para o que essa insistência com foco pode gerar: uma “radicalização democrática”.
    Abraço!

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