Ciclismo, Civilidades e Casualidades (ou: qual é o valor real do CTB?)

 

Cena 1: O ônibus biarticulado segue pela canaleta. Logo adiante, um jovem segue fazendo cooper. Como se trata de domingo, o jovem não se preocupa muito com o trânsito. Está errado. Mas o motorista, mal pago e trabalhando domingo, também está errado: após quase atropelar o jovem (ele praticamente jogou o ônibus por cima), freia o veículo, pragueja diversas palavras ao jovem, ao ar e aos passageiros, e segue. A velocidade do bi-articulado acompanha muito bem o nervosismo.

 
Cena 2: Sigo de bicicleta quando o sinal fecha. Paro, próximo à esquina. Ignorando qualquer regra do bom senso, fazendo uma curva rasante e invadindo a contra-mão, um motorista dobrando a esquina quase me atropela. Imediatamente o carro freia. O motorista começa a esbravejar comigo, chamando para a porrada. Respondo dizendo "vá ler o CTB e aprender a fazer curva!", e o motorista fica furioso. Mas ao ver os carros se acumulando atrás dele, arranca e vai embora, cantando pneu.
 
Cena 3: Um carro sai do estacionamento da loja e aguarda uma brecha dos outros carros para sair. Dos outros carros, pois bicicleta parece não representar motivo algum para continuar parado. O motorista arranca e quase sou atropelado novamente.
 
Cena 4: Como naquele outro cruzamento também quase já fui atropelado diversas vezes, costumo descer da bicicleta e atravessar a rua empurrando.  Não vindo nenhum carro, começo a atravessar, empurrando. De repente, uma caminhonete dobra a esquina seguinte, distante uns 50 metros, e vem com tudo dobrar novamente… em cima de mim. Como eu já estava no meio da rua, praticamente não houve tempo. A rua inteira parou, vendo o atropelamento iminente. A caminhonete guinou para os dois lados sem reduzir a velocidade e, cantando o pneu, fez uma curva "de filme" por trás de mim. Enquanto ela passava, tudo ficou em "câmera lenta", com minhas palavras contadas: "Para – quê – fazer – isso – ?!"
 
Essas são algumas pequenas cenas banais, cotidianas, repletas de quase. Quase nunca servem para montar um relato. O moço quase foi atropelado, quase fui atropelado diversas vezes.
 
Quase como se as ruas não servissem mais para a convivência, mas se assemelhassem a pontos de mero arrebanhamento de corpos, quase ávidos para sumir em algum buraco de concreto (sobre isso o Diego Viana comenta muito bem). Como se quase fizessem as ruas apenas para os carros, não para as pessoas.
 
Mas e então? Só a "cena 5" não teve quase. O Renato contou a história.
 
Ontem também não teve quase. Um motorista em Porto Alegre fez um "strike" contra uma manifestação de ciclistas, simplesmente por serem ciclistas e atrapalharem seu caminho. 
 
Algo está muito errado, pois o delegado se resumiu a comentar sobre a ilegitimidade do encontro. E o direito de ir e vir? A imprensa também começa a relativizar o fato (os ciclistas teriam "provocado" o motorista, eles "não deveriam" estar ali…). Como se qualquer motivo atenuasse a ação do motorista. Se ela foi séria? O leitor que o veja.
 
É verdadeiramente aterrador ver tantos "quase" e sua consequência natural, a ausência de quase. Vendo até os policiais agirem assim, vai ver as versões impressas do Código Brasileiro de Trânsito só servem mesmo para calçar móveis e segurar a porta.
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2 comentários em “Ciclismo, Civilidades e Casualidades (ou: qual é o valor real do CTB?)

  1. Catatau, vivemos um estado de selvageria!

    O acontecimento de Porto Alegre mostra claramente que a LEI esta do lado do infrator. O delegado, alguém que, esperamos, compreenda as leis, sequer conhece o CTB. Dizer o que os ciclistas não deveriam estar ali, ou pedir que eles avisassem as autoridades sobre o movimento, beira o ridículo, para dizer o minimo.

    Felizmente ninguém morreu ali. Sinto por tudo isto, por que, a exemplo do caso Carli Filho, sabemos que tudo vai acabar em nada. Ficará apenas a revolta e a dor dos que perderam alguém no trânsito.

    E o desrespeito e a selvageria continuarão, da mesma forma que a noite precede o dia.

  2. Fique sabendo do fato em POA agora de noite. Assim como sobre a morte do Moacyr Scliar. Tentarei dormir, mesmo estando muito triste.

    Sugiro apenas uma correção: a massa crítica, ou bicicletada, não é um passeio ciclística. Passeata e/ou manifestação caberiam melhor, senão corre o risco de diminuir a importância do grupo. De qualquer modo, parece que foi a primeira vez que no mundo aconteceu uma coisa dessas na massa crítica, que acontece mensalmente em incontáveis cidades. Tinha que ser em nossas terras, onde a hierarquia sobre rodas prevalece.

    RE: Pior que nem dei peso à expressão, mas como você chamou a atenção, corrigi a passagem.
    Está surreal a cobertura jornalística sobre o fato, não é mesmo?

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