O caos do trânsito e sua massa crítica

Não é muito difícil imaginar o que desencadeou o atropelamento em massa do movimento Massa Crítica de Porto Alegre. Difícil é ver os encaminhamentos dados por muitos, da polícia à imprensa.

Um movimento  difundido em inúmeras cidades, não por acaso pregando a possibilidade de uma melhor relação das pessoas com suas cidades, marca reuniões para mostrar a bicicleta como alternativa e impor as bicicletas no trânsito como protesto (sim, há outros meios de se locomover numa cidade). No Brasil, quem não se expõe diariamente no trânsito às maiores barbaridades? Quem não percebe que nunca há fiscalização, e quando há, ela é localizada e não coibe efetivamente as infrações?

Aqui começam os problemas. Um delegado chegou a comentar que a manifestação não era legítima. Curiosamente, para ele o movimento deveria pedir "autorização" da fiscalização para protestar:

O primeiro erro crucial foi esse evento ciclístico. Esse grupo cometeu um erro grave, qualquer evento desse porte se avisa a Brigada Militar (BM), a EPTC (Empresa Pública de Transporte e Circulação), a Secretaria de Segurança, para se formar um aparato para evitar situações desse tipo

E mais: melhor seria protestar em outros lugares, nas ciclovias de lazer, na beira do Guaíba… Ou, nas palavras do delegado, uma manifestação contra o trânsito vigente, calcada no Código de Trânsito Brasileiro, não pode intervir em seu próprio objeto: o trânsito.

Faz a tua manifestação, mas não impede o fluxo de automóveis. Se tu impedes, dá confusão, dá baderna, dá acidente

As declarações denunciam diversos pontos de vista prévios: protesto bom é aquele que não atrapalha o trânsito,  mesmo que o próprio trânsito seja o objeto do protesto. E se alguém que protesta requer para si e seu movimento a possibilidade de realizar suas reivindicações, o delegado já denega o movimento na origem: confundindo bicicleta com lazer, ele confunde o papel público do transporte multimodal com o papel privado de indivíduos que resolvem se locomover (na ciclovia, no local sem movimento…). O delegado apenas reedita, com argumento de autoridade (pois é um delegado), tudo o que o movimento das bicicletas pretendia contestar. E se a autoridade nega, quem afirmará?

Mas há algo mais: o pedido das "autoridades competentes" para fazer uma manifestação. É muito curioso notar que, se o delegado tem alguma razão,  se as autoridades se fazem valer pela ação, se a passeata é ilegítima, as polícias ligadas ao trânsito de Porto Alegre deveriam agir para coibir a manifestação, não é mesmo? E onde estaria a polícia nessa ocasião? A declaração do delegado tem um propósito estratégico muito curioso no Brasil: por aqui, as prescrições legais só valem retroativamente. Se os ciclistas agiam contra a Lei, como o delegado supõe, onde estavam os policiais para fazer valer a Lei? Um protesto tão numeroso, como diz o delegado, não passa despercebido aos policiais. Onde então eles estavam? Veja-se o artifício: o delegado pretende fazer valer a Lei etiquetando os ciclistas de "infratores"; mas se os ciclistas eram infratores, onde estavam os policiais para impedir a manifestação sem autorização? Escolha-se daí a conclusão.

Se bem que, como disseram os manifestantes, houve sim notificação do EPTC (imaginemos novas relativizações de má fé, sempre conforme a retroatividade acima: no país da carteirada, do "você sabe com quem está falando?", sempre que alguém em posição de autoridade discorda de um fato, pode apelar a uma burocracia cada vez mais complexa para proibi-lo – "mas" eles "precisam pedir a cada vez", eles "não preencheram o formulário", e se preencheram o formulário "não foram à outra repartição pedir tal e tal coisa"… à escolha).

Resumindo: de acordo com o delegado, o protesto das bicicletas já é de saída mal visto e desqualificado, por 1) ser um protesto e 2) "atrapalhar" o trânsito.

Isso já diz respeito aos motoristas nervosos, lá atrás, acompanhando o protesto e querendo passar. Muitos deles compartilham as premissas do delegado. E um deles em especial leva essas premissas muito mais a sério. Conforme comentou o filho do condutor do Golf causador da agressão,

Não foram eles (os ciclistas) que começaram (a discutir), meu pai foi um pouquinho antes. Só que aí começaram a bater a fu no carro. Aí, depois que se entenderam, três caras ficaram na frente do carro trancando só ele, só ele.

Pouco importa discutir os agravantes ou atenuantes sobre quem começou ou não (isso é tarefa da justiça). Mas não é inútil notar o jogo midiático de justificações começado logo após o atropelamento e as declarações do delegado. Desde então os temas pululam: legítima defesa, rota de fuga, tentativa de evitar linchamento…

Temas a desviar a atenção de alguns elementos óbvios: em primeiro lugar, provocar um manifestante usando como trunfo o alvo mesmo do protesto não é em lugar algum do mundo algo prudente; e em segundo, nenhum motorista pretensamente acuado tem o direito de começar uma discussão e, depois, transformar seu carro numa arma.

Ok, tem-se aqui uma lição de moral, mas chegamos ao fundamental? Não deixa de ser interessante ver um emprego retórico muitas vezes repetido pela imprensa. O advogado de defesa utilizou as seguintes palavras:

Ele disse que quebraram o vidro do carro e que não parou por medo de ser linchado

Note-se: são palavras do advogado. Mas em muitos canais de imprensa, as mesmas palavras deixaram de ser posição da defesa para se tornar descrição do fato. Fora desses canais e rigorosamente falando, o próprio acusado declarou que, em meio às provocações iniciadas por ele e tornadas mútuas, algum ciclista quebrou o vidro retrovisor. E o filho complementa: "três caras ficaram na frente do carro trancando só ele, só ele".

Isso não desmente nem um nem dois artigos da imprensa, mas vários: segundo tais artigos, o condutor se sentiu ameaçado e, justificadamente
, arrancou o carro numa "brecha" dos ciclistas, tentando "reduzir" os danos e não podendo parar "por medo de ser linchado". Sim, o Brasil é o país do linchamento (e é importante notar como o próprio motivo alardeado do linchamento nega o juízo do delegado: sempre há linchamento onde não há Estado); mas não, absolutamente um possível linchamento (eu disse possível, e não provável, o que é muito diferente) não ocorreria de forma alguma antes do atropelamento de 50 pessoas.  E mais: se um movimento como o Massa Crítica em qualquer circunstância caísse na "tentação" do linchamento (tão praticado Brasil afora), sabe que põe tudo a perder. Não se utiliza uma prática bárbara quando se pretende fazer valer  (dentre outras coisas) a lei menos aplicada no Brasil, o Código de Trânsito.

Portanto, tenta-se passar a idéia de que o atropelamento ocorreu para evitar o linchamento, quando na verdade o linchamento sempre ocorre por reação a uma injustiça real ou virtual, e em nenhuma circunstância antes do atropelamento um linchamento estava de fato em jogo.

Ou – esse é o ponto – tenta-se passar a idéia de que, pelo suposto risco de um suposto linchamento que não ocorreria de saída, o atropelamento é justificável. E mais: passa-se no mesmo vão a idéia de que qualquer motorista em igual situação pode fazer a mesma coisa. Atropelar um evento ciclístico no qual estão por exemplo madames carregando seus pequenos cães em triciclos seria considerado "legítima defesa". Podemos levar a idéia adiante: no Brasil, um ciclista atropelado em tal ou qual circunstância corre sempre o risco de ser infrator e não vítima, mesmo seguindo o CTB. Mas enfim, se 1) é um ciclista e 2) esteve em situação de perigo… (está aí a Psicologia do Trânsito para mostrar um dia como ciclistas não são nem discriminados no campo visual do condutor, isto é, não possuem legitimidade alguma de estar ali)

O que há aqui de importante? Cabe notar como a ação do condutor do Golf coincide com diversos pressupostos compartilhados pelo delegado e pelas diversas tentativas de justificar esse ato. Todos os motivos e justificações cabem em alguns pressupostos: as bicicletas atrapalham o trânsito, este deve ser feito exclusivamente por carros, e qualquer evento a ocasionar disrupção do trânsito – mesmo um evento contestando o próprio trânsito – deve ser condenado (trânsito: via árida, fluxo aversivo de pessoas que devem sumir logo em algum buraco mais suportável da cidade).

Isso explica boa parte do que ocorreu em Porto Alegre. Mas isso explica também o que não ocorreu em Porto Alegre e ocorre todos os dias. Os pressupostos acima, enfim, esse grande primado brasileiro do automóvel (uma de suas funções principais é baratear os carros e tornar o trânsito mais agradável na Gringolândia) torna o problema do transporte algo cada vez mais escancarado. A democratização do automóvel é algo fabuloso em um país conhecido por plantar seus matutos na terra como estacas. Mas sozinha, sem fiscalização e planos multimodais (transporte público, ciclismo, táxis…), não passa de um apocalipse motorizado travestido, jeitinho brasileiro com ares tecnocráticos.

A situação de Porto Alegre foi mais uma – e uma situação-limite – em um regime de relações do brasileiro com o trânsito que causa todos os dias mais e mais "acidentes". Acidentes?

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4 comentários em “O caos do trânsito e sua massa crítica

  1. Sem a violência física, mas repleta da violência simbólica, o Coletivo de arte INTERLUX de Curitiba foi processado e punido pala prefeitura, há poucos anos atrás por pintar faixas amarelas na rua do seu ateliê, no Alto da Glória, que propunha, numa intervenção artística, a adoção de meios de proteção e de incentivo ao uso de bicicletas, que benificiaria o trânsito e daria segurança aos ciciclistas.
    Receberam uma multa de 5.000 reais, ou valor parecido e sentiram o braço forte e poderoso da lei contra aqueles que pensam em ações concretas como meio de mudanças comportamentais.

  2. Ótimo texto! A lógica retroativa… é isso mesmo, não havia pensado sobre este ponto de vista.

    E a cultura do jeitinho, da hierarquia, colocada sobre rodas e armaduras metálicas de uma tonelada. Não é à toa que o último livro do Da Matta foi justamente sobre o trânsito.

    RE: Interessante! Alguma observação sobre esse livro? Não o conhecia.

  3. Excelente texto. A imprensa no Brasil é uma reprodutora de estupidez. Esse estado de coisas tem a ver com o que eu considero o grande erro, o erro trágico do desenvolvimentismo de esquerda que vê na associação de crescimento econômico com distribuição renda a solução de todos os males do país. Se o lema do país passa a ser simplesmente “subir e consumir” estamos falando no que a gente podia chamar de Paulistanização do Brasil. Porque nossa cultura predatória e violenta com um PIB de primeiro mundo dá em… São Paulo.

    RE: Olá Paulo!
    Muito obrigado pelo comentário. Novamente você acerta no ponto e põe a pensar. Por exemplo, lembra-se do seu comentário à citação de Erwin Straus, feita tempos atrás, sobre os trens? Vejo continuidade absoluta com isso.
    E ainda mais em relação à paulistanização do Brasil, você sintetiza em 1 parágrafo tudo o que – pelo menos segundo me parece – ocorre no Brasil desde… quando? Pois é incrível o primado tecnocrático agora se encontrar com antigos devires paulistas (e por “paulista” recordo de práticas como o cunhadismo, o mameluquismo, a utilização da terra como mero meio para fins exteriores etc.).
    E aí que está: Lula conseguiu dar uma verdadeira guinada no Brasil. Um problema, certamente o mais discutido, é sobre a consistência e duração dessa guinada (todos esperam ver consistência no governo Dilma). Mas outro problema, absolutamente não discutido, é sobre sua qualidade (não apenas o acesso do povo ao consumo, mas também à cidadania).

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