A Campanha da Fraternidade e o papel político da Igreja

A CNBB lançou em 2011 o novo slogan de sua Campanha da Fraternidade: ‘A criação geme em dores de parto‘.

Trata-se de chamar a atenção ao que o homem faz com seu mundo, mostrando a necessidade de ações para impedir o famoso aquecimento global.

Buscando na internet, a começar pelo site da CNBB (acima), é difícil encontrar alguma fonte para ações concretas. O objetivo "combater o aquecimento global" parece abstrato o suficiente para que se atinja nada além de algumas consciências. Algo bastante ineficiente em tempos de "sociedades de controle" e "capitalismo cognitivo" (a boa consciência tem hoje uma curiosa cumplicidade com boa parte do que denigre o planeta, basta ver algumas campanhas verdes na fachada de grandes agentes poluidores).

E nesse sentido a ICAR mostra um curioso fosso, sazonalmente explicitado no Brasil: a grande distância entre alguns setores da cúpula da igreja e outras atividades, populares e de cunho social, ligadas por exemplo a agricultura familiar, economia solidária e afins.

Por exemplo, na última eleição presenciamos a cortina de fumaça do falso debate eleitoral sobre o aborto dividir alguma parte dos fiéis entre os "contra" o aborto e favoráveis a Serra, e os "contra" o aborto e favoráveis a Dilma. Sim, há muitos católicos petistas ou ligados ao movimentos sociais que não aprovariam sem mais a questão do aborto mas nem por isso cederiam às ilusões dessa incrível pauta eleitoreira. Como já se disse por aí, Opus Dei de um lado, CPT de outro.

Retornando ao aquecimento global e à luz das outras divisões, parece notável não se ver mais do que alguns folders no site da CNBB, enquanto os pequenos movimentos católicos do dia-a-dia permanecem movimentos cotidianos (muito embora essa ausência de maiores informações tenha duplo papel: ela é positiva quando se refere aos movimentos cotidianos continuarem agindo como agem, mas negativa por não trazer visibilidade alguma sobre ações possíveis).

Nesse sentido é curioso o papel "político" da ICAR e as recentes manifestações sobre o novo livro de Bento XVI. Divugou-se (a imprensa, nao a ICAR) bastante a informação de Bento XVI frisar que Jesus não tinha pretensões políticas. Mesmo considerando a tradição cristã isso é bastante dúbio, visto que, se de um lado o iniciador do cristianismo retoricamente destinava "a César o que é de César", toda sua prática de construir o "reino de Deus" era bastante concreta, a ponto de constranger – em termos curiosamente políticos – tanto os judeus ("aqueles" judeus, dirá o Papa) quanto os romanos.

Talvez Bento XVI queira mostrar que Jesus não era um zelote e, embora sua ética tinha caracteres políticos, ela não era imediatamente, ou em primeiro lugar, uma política. Mas, qualquer que seja a argumentação do Papa, parece pouco provável ele desvincular em seu estudo histórico-hermenêutico a da ação cotidiana, algo muito vivo na antiguidade.

Isso parece muito curioso porque é exatamente o que está em questão em campanhas como a da Fraternidade.

Dias atrás, um padre em um rincão remoto do Brasil reclamava do grande barulho ocasionado pelo trânsito. A fumaça e o barulho começam a fazer esquecer o próprio barulho da Natureza, imerso na sujeira o homem esquece até mesmo de sua humanidade. Em frente à Igreja há uma grande via automotiva, visivelmente mais saturada dia após dia, repleta de infrações e acidentes por imprudência. Fiscalização? Não existe.

O trânsito já atrapalhou suficientemente a vida do padre e as próprias missas para se transformar em assunto diário das homilias. O que fazer ali, naquele lugar, naquela paróquia? Em um país no qual ainda existe a polêmica da legitimidade de símbolos cristãos em locais oficiais, parece ironia colocar a pergunta sobre o que fazer (enquanto persiste ainda outra boa pergunta: como o símbolo religioso se articula com o lugar oficial, com o "coroné" e a "otoridade" e, por outro lado, com as ações cotidianas, concretas?). 😉

(pesquisa de livros de Bento XVI e Peter Brown)

 

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Um comentário em “A Campanha da Fraternidade e o papel político da Igreja

  1. O curioso é que o tema da CF é a dos mais fáceis de serem colocados em prática em comparação a de anos anteriores (como economia solidária). A inserção nas celebrações de temas como o lixo, água e poluição poderiam ser acompanhadas de soluções pessoais como separação do lixo, compostagem, economia de luz e água e, de repente como sacrifício de quaresma, o gesto de deixar o carro em casa uma vez por semana e usar transporte público ou bicicleta, quem sabe até para ir à missa, por que não?

    Seria uma ótima oportunidade de debater com um grande público tais temas que estão mais do que em voga. Mas não sei de nenhum padre (ou até leigo) que tenha abordado dessa forma… Parece um tema de CF que não pegou.

    Pena, São Francisco deve estar se revirando.

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