Faroeste caboclo

 Durante a semana passada, a TV vinculou pelo menos uma vez mais um daqueles filmes roliudianos do complô  dos homens maus contra o homem honesto. No caso em questão, era um policial (e nem era o Steven Seagal).
 
Todos conhecem o enredo: policiais corruptos criam um complô para não trazer a corrupção à tona. Matam um colega que descobre o esquema e incriminam o mocinho. Injustiçado, ele luta contra o mundo para provar sua honestidade. No fim ele desmascara os corruptos e os outros tiras honestos o acolhem com a famosa frase: "abram alas para o policial passar".
 
Ora, e daí? Curiosamente, a mesma empresa que vinculou o filme também publicou a foto acima em outro de seus jornais. E na mesma semana também chocou a todos a notícia dos policiais de Manaus: depois de balear um adolescente, com requintes de crueldade eles dificultaram a prestação de socorro.
 
Moral da história: nos EUA "há tiras corruptos"; no Brasil, "há tiras honestos".
 

 
Mas será só isso? Não será fácil demais terminar o assunto aí, acusar policiais e ficar nas picuinhas dos homens honestos?  Não deixou de ser interessante, ainda na mesma semana, a tal empresa de TV acima vincular quase todo o discurso de Obama com muito orgulho, sem deixar os brasileiros verem amplamente que a mesma comitiva dos EUA obrigou nossos ministros a tirar os sapatos antes dos atos oficiais.
 
Disso tudo, alguém poderia dizer: é estranho sentirmos tanta atração por essas imagens redentoras (vindas de tão longe…), e ao mesmo tempo enxergarmos ao redor uma realidade corrupta e subserviente. E junto a isso tudo, entre as imagens puras e o mundo sujo ao redor, é estranho vivermos do jeito que vivemos. Não pertencemos ao mundo maravilhoso de Obama (sabe-se lá qual), mas ao mesmo tempo não nos reconhecemos no meio de toda essa sujeira. Não somos parte desse mundo dos manifestantes do Morro do Bumba (mesmo habitando em algum local correlato) e não devemos nada a esses policiais corruptos (mesmo vendo carros iguais a esses aqui e ali). Não vivemos naquela paisagem imaginária dos EUA, mas ao mesmo tempo  não nos comprometemos na sujeira do Brasil.
 
Mas entre a imagem distante e a sujeira ao redor, onde, enfim, estamos?
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Um comentário em “Faroeste caboclo

  1. Enquanto isso, aqui na minha cidade em Connecticut, duas mil pessoas foram às ruas do centro ontem para protestar contra demissões de funcionários e cortes de orçamento de problemas sociais. Aqui, onde um quarto da população vive abaixo da linha da pobreza, o terceiro mundo mora ao lado, meu caro!

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