Usina de gastar gente

É perturbador o contexto da construção da usina de Belo Monte, tal como ilustrado no texto de  Fabiano Camilo. Em termos práticos, o empreendimento desconsidera a população local, o impacto ambiental e especialmente os índios.
 

Mais do que beneficiar a população local, a prioridade da usina seria certa exploração industrial na região (especialmente o alumínio), sem empregabilidade absoluta (apenas relativa: massiva e temporária na construção da usina, restrita nas indústrias abastecidas pela energia) e atendendo objetivos estratégicos de alguns industriais vindos de fora.
 
Em O Povo Brasileiro [livrarias], Darcy Ribeiro várias vezes utilizou a expressão "moinho de gastar gente" para descrever a formação de nosso país: um lugar que serve de meio para fins exteriores, onde a medida de vinculação do habitante à sua terra se torna mero detalhe circunscrito por fins originariamente forasteiros e considerados "maiores" – o Coroné, as incipientes cidades, o Império…
 
Camilo chama a atenção, nesse sentido, aos "direitos humanos". Curiosamente, tal noção também aparece, no Brasil, sob certa articulação com a idéia acima do "moinho". Numa exposição da Biblioteca Nacional intitulada Projeto Tráfico de Escravos no Brasil (informe aqui), é muito interessante encontrar documentos pregando o esmagamento de revoltas de escravos com base nos princípios humanistas do "amor á liberdade", da "igualdade da Lei", da "Providência" e do "Liberalismo" (sic!). Ou mais precisamente (nesse documento de 1830),
 Os abaixo assinados fazendeiros, e mais moradores do município da Freguesia de Nossa Sra. da Glória da Vila de Valença, vão guiados do amor da liberdade, afinco e adesão ao sagrado princípio de igualdade da Lei, levar ao alto conhecimento de Vossa Majestade Imperial e Constitucional os acontecimentos que tiveram lugar na mesma Vila nos dias 29 e 30 do próximo mês pretérito por ocasião da descoberta de uma conjuração de escravos das Fazendas (…); a qual conjuração quis a providência, que tanto se tem mostrado, bem como agora, sempre inclinada a guardar e defender este vasto e Liberal Império (…)
Moral da história? No Brasil, apelar aos direitos humanos é uma curiosa faca de dois gumes(*). A noção mesma de "direitos humanos", mais do que um postulado abstrato, articula-se com práticas nas quais ora se torna válida e critério fundamental, ora é varrida para baixo do tapete das empreiteiras.
 
Nisso tudo, o que fazer? Camilo aponta algumas direções, desde fazer as prescrições jurídicas sobre os "direitos humanos" serem efetivamente consequentes, até a tentativa de trazer à tona e pedir a prestação de contas dos compromissos não encarados publicamente dos interessados na usina. Seria apenas por acaso o que ocorreu em Jirau?
 
(*) Algo semelhante ocorre hoje na França: visto que existem ditaduras opressoras em todo o mundo, por que intervir com energia "humanitária" na Líbia, sem energia na Costa do Marfim e não intervir nas outras ditaduras?
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Um comentário em “Usina de gastar gente

  1. Oi Catatau,

    Tudo bem? Muito bom seu texto, sobre uma questão tão urgente dos nossos dias…
    Apenas um reparozinho: é “Fabiano Camilo”, não “Camilo Fabiano”…

    Abração aí

    RE: Oi Lelec! Obrigado pela correção, alteração feita!
    Abração,

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