O cristão e o hacker

Um padre jesuíta chamado Antonio Spadaro publicou um artigo intitulado Etica "hacker" e visione cristiana na Civiltà Cattolica, importante veículo dessa religião.

Spadaro difere em primeiro lugar "hacker" de "cracker". Ele evoca uma distinção já conhecida: o "cracker" transgride as regras em prol de seu prazer individual; já o "hacker" atuaria conforme certo teor de, diga-se, "universalidade". Enquanto o cracker se concentra no ganho pessoal por via do delito, o hacker interfere  em regras grosso modo de maneira "criativa", criando novos caminhos e alternativas mais livres para a coletividade. Assim, tais atos de criação emulariam virtuosamente a própría dimensão criativa de Deus. 

Ao invés da repetição, a busca de alternativas; ao invés do lucro, a divisão. Substitui-se a individualidade pela coletividade; o individualismo, pela colaboração.

O autor italiano reconhece diferenças entre os dois universos, por exemplo a hierarquia institucional católica e a radical horizontalidade hacker. Mas parece tentar extrair direções do "hacker" afins a certas inspirações cristãs.

É curioso notar que, em certo sentido e em termos bem gerais, a Igreja Católica sempre teve duas grandes vertentes, relativamente não conciliadas. De um lado, séculos de fortuna dogmática acumularam todo um universo de regras (Regulae) de conduta, não poucas vezes semelhantes à halaká judaica – prescrições sobre como se comportar em determinadas situações gerais ou específicas, interdições etc.

De outro lado, outras direções (às vezes em um mesmo movimento) buscaram temas muito mais ligados à espiritualidade e muito menos à regra. O movimento trapista, por exemplo, é extravasado e desdobrado em curiosas direções sob o nome de Thomas Merton; e no Brasil salta aos olhos a coexistência de movimentos como a TFP (bastante afim à ordem estabelecida e a relações de autoridade) e a CPT (ligada aos movimentos populares e a diversas manifestações como a Romaria da Terra).

Um dos links acima situa o artigo de Spadaro como uma nova atenção da ICAR às novas tecnologias. Resta ver para quais  das "direções" acima essa atenção apontará.

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