Homens e Deuses

 
 
 Com muita curiosidade assisti, a partir da crítica de Bruno Cava, Des Hommes et des Dieux, filme aplaudido em Cannes no ano passado.

Em sua crítica, Cava chamou a atenção a um elemento: "são humanistas", comentava ele sobre o filme.

E de fato existe uma questão muito interessante em torno do "humanismo" na história daqueles monges.

Em primeiro lugar eles são trapistas, uma das ordens mais rigorosas da Igreja. Mas ao mesmo tempo, o movimento trapista teve figuras como Thomas Merton, alguém considerado como uma referência em certo tipo de abertura da ICAR para além da severidade de suas regras.

Existe de fato certo "humanismo" na Igreja, bastante difundido inclusive nas mais diversas de suas vertentes. Como dizia um filósofo do século XX, o humanismo é a maior "prostituta" do ocidente, proferido com muito gosto por nazistas, soviéticos e tecnocratas para legitimar suas próprias práticas (aí está o trunfo do "humanismo": noção pouco precisa mas de fácil assentimento). Pensadores cristãos como Teillard de Chardin eram, segundo ele, "humanistas frouxos".

No contexto trapista, o próprio Merton não foge muitas vezes ao fácil recurso ao humanismo. Mas é curioso notar também ele avaliando aquele pensamento anti-humanista: "bom" ou "razoavelmente bom" dizia ele, em meio a uma viagem de conhecimento e admiração de diversas religiões bem pouco cristãs (e humanistas).

Seriam os trapistas absolutamente "humanistas"? A pergunta é interessante, pois se sua vida segue rigorosamente o Ora et Labora, por outro lado são notáveis certos momentos nos quais a regra monástica se "curto-circuita" de modo que as mediações humanas responsáveis por salvaguardar o "homem" – inclusive as da Igreja – se suspendem, ocasionando certo extravasamento da regra (Regula) por certas atitudes espirituais.

Como se em determinados momentos o monge recuperasse certos significados bastante antigos e colocasse em primeiro plano aquele espanto dos cristãos primitivos (buscado pelo próprio monge), relativo à crença de que o Cristo, aquele homem de carne e osso, verdadeiramente ressuscitou. Se isso ocorreu – tal é um tema bastante presente em diversos santos, mártires e comunidades cristãs nos primeiros séculos -, não há limites ou mediações humanas para a ação do fiel. Seria possível uma espécie de abertura – digamos – "cósmica" para além das ações do "mundo" cotidiano.

O próprio título do filme joga com isso: há uma tensão crescente entre as prescrições dos homens (e dos deuses) e o que o monge pretende dedicar a Deus. Em certos momentos as pequenas ações diárias são vistas e re-significadas diante das pretensões de uma vida inteira.

Bernardo Bonowitz, abade do único mosteiro trapista masculino do Brasil, já comentou sobre o filme. Ele inclusive conheceu um dos monges ali representados.

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Um comentário sobre “Homens e Deuses

  1. O erro é comum: confundir o humanismo com um certo ‘humanitarismo’ pretendido por diversas correntes doutrinárias e filosoficas. O Humanismo é uma doutrina, como tal entendido ‘uma visão do universo’, independente e bastante diferente das apropriações aqui mencionadas. Sobre neo-humanismo visita silo.net. Se liga: “Nada por cima do ser humano e nenhum ser humano acima de outro”.
    abç ernesto

    RE: “O Humanismo é uma doutrina, como tal entendido ‘uma visão do universo’, independente e bastante diferente das apropriações aqui mencionadas”
    Isso é interessante porque o mesmo uso da frase e a mesma tentativa de apropriação para além das “apropriações” é encontrável em qualquer outro humanismo (ou humanitarismo, se preferir)
    Abraço,

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