Lugar de índio é…

E eis que no século XXI chegamos a ler palavras como essas, de Luiz Fernando Rufato (um dos responsáveis por Belo Monte). Elas mostram bem a visão das empreiteiras sobre "o que deve ser feito" com a floresta e, principalmente, seus habitantes:

E a Norte Energia espera por conflitos com indígenas? Eles já disseram que transformarão o Xingu num rio de sangue se a barragem for instalada.
Luiz Fernando Rufato –
O empreendimento não reloca indígena, não atinge nem um milímetro de terra indígena a inundação. Não vai piorar a navegabilidade em relação aos problemas que já existem hoje. Qual é a preocupação da Funai? Com o desenvolvimento da região, a pressão sobre as terras indígenas podem afetar [as comunidades]. Então, há vários programas para preservar e manter as unidades de terra indígena. É inevitável que índios, em certo momento, mudem a vida deles. Vão viver a vida inteira caçando com arco e flecha e morando na aldeia? Mas o que se pretende é que eles possam ter tempo para se adaptar, e eles têm o tempo deles. O programa da Funai vai permitir que, ao longo desse período, eles se adequem à vida moderna.
E os índios da região, o que pensam?
 
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2 comentários sobre “Lugar de índio é…

  1. É preciso de uma antropologia da diferença.

    “Mas, sobretudo, devemos nos convencer de que certos costumes que nos são específicos, se considerados por um observador oriundo de uma sociedade diferente, parecer-lhe-iam de natureza idêntica à dessa antropofagia que se nos afigura alheia à noção de civilização. Penso em nossos costumes judiciários e penitenciários. Ao estudá-los de fora, ficaríamos tentados a contrapor dois tipos de sociedades: as que praticam a antropofagia, isto é, que enxergam na absorção de certos indivíduos detentores de forças tremendas o único meio de neutralizá-las, e até de se beneficiarem delas; e as que, como a nossa, adotam o que se poderia chamar de ‘antropemia’ (do grego ‘emein’, “vomitar”). Colocadas diante do mesmo problema, elas escolheram a solução inversa, que consiste em expulsar esses seres tremendos para fora do corpo social, mantendo-os temporária ou definitivamente isolados, sem contato com a humanidade, em estabelecimentos destinados a este fim. Na maioria das sociedades que chamamos de primitivas, tal costume inspiraria um profundo horror; em seu entender, isso nos marcaria com a mesma barbárie que seríamos tentados a imputar-lhes por causa de seus costumes simétricos.” – LÉVI-STRAUSS, Tristes Trópicos. Capítulo 38 – “Um Copinho de Rum”.

  2. Tenho receio de que os problemas causados por Belo Monte como, de resto, por qualquer obra de engenharia de grande porte, mudem o foco do problema principal, que é a baixa produtividade da usina.
    O reservatório de Belo Monte iria inundar áreas indígenas. O veemente protesto de comunidades índias e não índias fez o Governo recuar e transformar Belo Monte em uma hidrelétrica por fio d’água.
    No entanto, essa modificação afetou a produtividade da usina, que passará a ser de apenas 40%. Ou seja, a usina pode produzir até 11.233 MW de energia, mas sua produção média ficará em torno de 4.400 MW.
    Uma produtividade tão baixa vai afetar o custo da energia elétrica gerada, mas, principalmente, vai exigir novas hidrelétricas, com novos desmatamentos.
    Será que nós não temos capacidade para aumentar a eficiência da Usina Belo Monte sem novos desmatamentos? Se o conseguirmos, pela primeira vez vamos agradar a desenvolvimentistas e a ecologistas.

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