Ateísmo e ateísmo

Durante essa semana Porto Alegre foi a primeira capital brasileira a exibir outdoors "ateus".
 
Pelo visto, o "ateísmo" (ou mais rigorosamente: certo ateísmo) parece se definir pela crença, baseada às vezes em foro íntimo e por outras vezes em algum primado científico (ou nos dois), da não existência de Deus.
 
Se historicamente o ateísmo parece ter recebido em nossa cultura caráter vazio ou negativo (pois se avizinhou de valorações como as do absurdo, o erro do juízo, o vazio do não-ser,  a blasfêmia ou a manifestação de alguma entidade maligna), hoje aparentemente essa noção impõe para si mesma um estatuto positivo e uma curiosa consistência (às vezes até mesmo próxima das apologéticas de alguns sectos cristãos).
 
O ateísmo se encontra em nossa cultura entre duas outras questões maiores: em primeiro lugar, advogamos para nós mesmos uma sociedade "pluralista", na qual qualquer crença pode ser adotada e todas elas devem ser respeitadas (sob o limite da liberdade alheia, e aqui o ateísmo conforme a definição acima dá as mãos com a noção de uma sociedade plural). 
 
Mas em segundo lugar, o ateísmo coloca (ou deveria colocar, coisa que não se faz muito) o problema mesmo de nossa própria cultura. Na linha de Nietzsche, muitos enunciaram (por exemplo, desse modo) o problema de um ateísmo não reduzido a mera crença privada.
 
Nesse contexto, o modo de Fernando Pessoa abordar o problema na figura de Bernardo Soares é tão bem feito quanto bonito (vale dizer: e um tanto esquecido no meio de tanta certeza). Por exemplo:
Pertenço a uma geração que herdou a descrença na fé cristã e que criou em si uma descrença em todas as outras fés. Os nossos pais tinham ainda o impulso credor, que transferiam do cristianismo para outras formas de ilusão. Uns eram entusiastas da igualdade social, outros eram enamorados sé da beleza, outros tinham a fé na ciência e nos seus proveitos, e havia outros que, mais cristãos ainda, iam buscar a Orientes e Ocidentes outras formas religiosas, com que entretivessem a consciência, sem elas oca, de meramente viver.
 
Tudo isso nós perdemos, de todas essas consolações nascemos órfãos. Cada civilização segue a linha íntima de uma religião que a representa: passar para outras religiões é perder essa, e por fim perdê-las a todas.
 
Nós perdemos essa, e às outras também.
 
Ficámos, pois, cada um entregue a si próprio, na desolação de se sentir viver. Um barco parece ser um objecto cujo fim é navegar; mas o seu fim não é navegar, senão chegar a um porto. Nós encontrámo-nos navegando, sem a ideia do porto a que nos deveríamos acolher. Reproduzimos assim, na espécie dolorosa, a fórmula aventureira dos argonautas: navegar é preciso, viver não é preciso.
 
Sem ilusões, vivemos apenas do sonho, que é a ilusão de quem não pode ter ilusões. Vivendo de nós próprios, diminuímo-nos, porque o homem completo é o homem que se ignora. Sem fé, não temos esperança, e sem esperança não temos propriamente vida. Não tendo uma ideia do futuro, também não temos uma ideia de hoje, porque o hoje, para o homem de acção, não é senão um prólogo do futuro. A energia para lutar nasceu morta connosco, porque nós nascemos sem o entusiasmo da luta.

Uns de nós estagnaram na conquista alvar do quotidiano, reles e baixos buscando o pão de cada dia, e querendo obtê-lo sem o trabalho sentido, sem a consciência do esforço, sem a nobreza do conseguimento.

Outros, de melhor estirpe, abstivemo-nos da coisa pública, nada querendo e nada desejando, e tentando levar até ao calvário do esquecimento a cruz de simplesmente existirmos. Impossível esforço, em que[m] não tem, como o portador da Cruz, uma origem divina na consciência.

Outros entregaram-se, atarefados por fora da alma, ao culto da confusão e do ruído, julgando viver quando se ouviam, crendo amar quando chocavam contra as exterioridades do amor. Viver doía-nos, porque sabíamos que estávamos vivos; morrer não nos aterrava porque tínhamos perdido a noção normal da morte.

Mas outros, Raça do Fim, limite espiritual da Hora Morta, nem tiveram a coragem da negação e do asilo em si próprios. O que viveram foi em negação, em descontentamento e em desconsolo. Mas vivemo-lo de dentro, sem gestos, fechados sempre, pelo menos no género de vida, entre as quatro paredes do quarto e os quatro muros de não saber agir.

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2 comentários sobre “Ateísmo e ateísmo

  1. “Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
    Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é.
    Mas porque a amo, e amo-a por isso,
    Porque quem ama nunca sabe o que ama
    Nem por que ama, nem o que é amar…”

    “Procuro despir-me do que aprendi
    Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
    E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
    Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
    Desembrulhar-me e ser eu…”
    Alberto Caeiro

    E Catatau, não acreditar na existência é diferente de crer que não exista, como muito bem colocado pelo Eneraldo no seu post de 2007.
    PS: Diferentemente do Chico, não fiquei com o meu “disco do Pixinguinha”, uma edição completa de Pessoa, meu único arrependimento.

    RE: Obrigado pelas citações!
    Agora, quanto ao “E Catatau…”: quais seriam os contra-argumentos às respostas ao Eneraldo (ou mesmo ao Lelec)?
    abraço,

  2. Mas eu concordo com eles… Assino embaixo, inclusive. Um dos principais argumentos usados para criticar ateus é que o ateísmo é só uma outra crença. Isso é uma falácia! A-Theos, Não Deus, no limite: não-crença.
    Elimine-se deus (es) e o que sobra? O mesmo, o homo sapiens e as suas circunstâncias, a vida e a sobrevivência da espécie. A tarefa é árdua e extremamente difícil, mas podemos enfrentá-la sozinhos.

    RE: Mas e então, qual é o ponto de sua “concordância com eles” que refuta meus contra-argumentos a eles e põe novos argumentos ou reabilita os antigos? Creio que nada, em nenhum dos dois posts, indica que o problema que levanto é o que você comentou nessas linhas. Simplesmente não tentei dizer que “o ateísmo é só uma outra crença etc. etc.” Título do post: Ateísmo e ateísmo. Está bem explícito no texto (tanto que tentei tomar vários cuidados: “certo ateísmo” etc.). Inclusive a passagem de Soares problematiza em seu conteúdo exatamente a sua, do “homo sapiens e as suas circunstâncias, a vida e a sobrevivência da espécie. A tarefa é árdua e extremamente difícil, mas podemos enfrentá-la sozinhos”. É esse o problema do ateísmo, perguntar sobre o fundamento desse “enfrentá-la sozinhos”, o fundamento da “tarefa”, do “nós”. Essa é a bola cantada por Soares e pelo post de 2007.

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